Jornalismo Humano – As melhores reportagens de periodismohumano.com

Por Patricia Simón

Tradução Luísa Ferreira

  • Passaram-se quase 15 anos desde que Rigoberta Menchú apresentou uma queixa contra o ditador Efraín Ríos Montt junto à Audiência Nacional da Espanha por tortura, terrorismo e genocídio.
  • Máxima García esperou 20 anos para contar ao marido que havia sido violada por cerca de 20 soldados durante a repressão às comunidades indígenas.
  • Pouco depois, Máxima pediu diante da nossa câmera que houvesse “julgamento para Ríos Montt, queremos seguir lutando”. Nunca pensou que tal julgamento aconteceria na Guatemala e menos ainda que Montt seria condenado a 80 anos de prisão por genocídio e crimes contra a humanidade.

Ríos Montt durante o julgamento (Moises Castillo / AP Photo)

Com a voz firme, mas carregada de emoção, a juíza Jazmín Barrios verbalizou o que até uns dois anos atrás os sobreviventes das aldeias mais massacradas durante os 30 anos de guerra civil (1960-1996) só podiam recordar na intimidade dos seus lares. Eles ainda viviam com o terror assolando sua vida cotidiana, tendo que encontrar-se com os assassinos e violadores das suas mulheres, pais e filhos, sem poder sequer manter a esperança de que alguma vez a justiça se fizesse presente nas aldeias e montanhas de um Estado falido em muitas regiões.

Homens discriminados por serem índios, pobres e no caso delas, além de tudo, por serem mulheres. Ainda assim, já faz 15 anos que muitos deles começaram a tecer redes para fazer justiça, com Rigoberta Menchú como seu rosto mais visível. Em 1999, sua Fundação apresentou diante da Audiência Nacional da Espanha uma queixa por tortura, terrorismo e genocídio contra o ditador Efraín Ríos Montt, no poder entre 1982 e 1983, e outros altos oficiais guatemaltecos. Amparando-se no agora mutilado princípio de jurisdição universal e seguindo o procedimento usado no caso do ditador chileno Augusto Pinochet, milhares de vítimas do genocídio guatemalteco depositaram na justiça espanhola a esperança de vencer a paralisante impunidade reinante na Guatemala.

Máxima García, sobrevivente do genocídio guatemalteco (Javier Bauluz / Piraván)

Uma década depois, em 2008, no meio das verdes montanhas de uma das regiões mais arrasadas pelo genocídio contra os índios, Máxima García nos recebia, terna em sua acolhida, decidida em sua necessidade de contar os crimes cometidos contra ela, seu corpo e sua família, inteira na sua generosidade de dar o testemunho que sua mãe nunca poderá compartilhar, despedaçada para sempre desde aquela tarde em que, quando ia a levar comida ao seu sogro, foi retida e violada por soldados que faziam fila para revezar-se no cometimento do crime. Quando finalmente deixaram-na jogada no monte, ela se vestiu, voltou para casa e não contou nada a seu marido até 20 anos depois. Não lhe explicou por que seu bebê tinha nascido com o pescoço torto nem por que tinha morrido com poucos dias. Nem que tinha sido violada pelos soldados como também tinha sido sua mãe, antes de ser assassinada e de que a encontrassem pendurada por cordas no teto enquanto a casa pegava fogo. Não tinha dito nada a seu marido durante 20 anos, mas apenas dois anos depois, em 2008, estava nos contando tudo em voz alta, olhando diretamente para a câmera, sem interromper seu discurso ainda que, às vezes, uma lágrima começasse a se formar e engrossar lentamente na sua pálpebra para depois deslizar pela bochecha.

Há 20 anos, Máxima luta para dar um futuro aos seus filhos, convertendo essa “dor que nunca acaba” em resiliência para desembocar em um “Espero que Ríos Montt seja julgado, espero que sigamos em frente. Se temos apoio, queremos apoio, queremos lutar para continuar atrás dele, de onde está escondido…”. Leer más


Mónica G. Prieto (Soueri, Líbano)
Tradução Luísa Ferreira
  • Um antigo presídio palestino na localidade libanesa de Soueri, perto da fronteira síria, acolhe 30 famílias de refugiados que não têm outra opção. As condições de vida são infra-humanas.
  • “Preferimos isso a um campo de refugiados”, observam.

Assir, 10 anos, pula corda no interior da cela número 3 de um antigo centro de detenção em Soueri (Mónica G. Prieto)

Quase não sobra espaço livre nas páginas do seu velho caderno, mas a pequena Assir se empenha em seguir escrevendo com a característica obstinação dos seus dez anos de idade. Ao perceber o olhar da jornalista, sua mãe, Umm Mohammed, interrompe seu relato de fuga, guerra e morte para mudar de assunto. “Viu? Ela passa o dia escrevendo. No começo, como não tínhamos papel, guardava até as caixas de queijo e de chá para abri-las e escrever dentro”. A menina, de olhos grandes e curiosos e longa cabeleira presa num rabo-de-cavalo, se remexe no seu assento como se quisesse voltar à invisibilidade. “Quando chegaram, ela passou os dois primeiros meses abraçada à mãe. É a mais retraída dos três irmãos”, explica sua tia, Ahlan. “Enquanto não chegaram outras crianças, não se abriu”.

No entanto, as oito crianças que moram com Umm Mohammed e suas duas irmãs não saem para brincar nas ruas como outras. Passam a maior parte do tempo entre as paredes da cela número três da prisão palestina de Soueri, a localidade fronteiriça libanesa onde moram desde que, há alguns meses, conseguiram escapar da sua cidade natal na Síria depois de meses de cerco militar e bombardeios. O único lugar onde encontraram refúgio foi a antiga prisão abandonada, usada pelas forças palestinas durante a primeira etapa da guerra civil libanesa como centro de detenção e interrogatório e transformada em estábulo quando os tempos prosperaram. São instalações sórdidas, frias e insalubres onde umas 150 pessoas – boa parte delas crianças de pouca idade que pululam pelos corredores – se amontoam – até três ou quatro famílias por cela, nos piores casos – no que supõe um paradoxo: um lugar que deveria ser temido se transformou na única esperança de civis como Umm Mohammed e suas famílias.

Assir, de costas, brinca com seus primos na sua cela. No fundo, o banheiro, atrás de um buraco perfurado na parede. (Mónica G. Prieto)

“Quando chegamos, há quatro meses e meio, o motorista com quem atravessamos a fronteira nos trouxe diretamente aqui, porque dizia que era o único prédio com espaço livre nessa área”, explica. Ela sabia bem aonde ia, já que sua irmã Ahlan chegou ali há sete meses, o que faz dela uma das residentes mais antigas do presídio convertido em centro de refugiados. Suas 14 celas, habitadas por 30 famílias, estão sendo ocupadas por sírios há quase um ano. Trata-se de um bom exemplo da desesperada situação que vive o Líbano, um país de quatro milhões de habitantes onde a chegada de mais de 400 mil refugiados sírios registrados provocou uma crise humanitária com a qual o Governo, em permanente crise, não sabe, não quer ou não pode lidar. Se a esse número somamos os 600 mil sírios que trabalhavam no Líbano antes da guerra e agora não podem voltar, trata-se de um milhão de pessoas: um fator de desestabilização para um país com profundas feridas sectárias.

Há um ano, o número de refugiados registrados perante a ONU não passava dos 10 mil. A ausência de acampamentos obrigou a população libanesa a ocupar-se do alojamento dos refugiados, em uma situação insustentável. Os civis vindos da Síria costumam denunciar que não há mais nenhum lugar livre no país do Cedro, seja de acolhida ou aluguel, e qualquer pedaço livre de terreno é arrendado para que os mais pobres instalem suas tendas. Leer más


By Patricia Simón / Photos: Javier Bauluz
Translation: Mariana Marcoantonio

  • A crise provocada pelas autoridades alemãs ao apontar o pepino de Almeria como origem da epidemia de E. Coli desatou uma onda de indignação e patriotismo na sociedade esanhola e especialmente em alguns meios de comunicação.
  • Um vegetal que, como a maioria nessa província, é cultivado por imigrantes que trabalham, em muitos casos, em condições de escravidão moderna.

Barraco no meio das estufas almerienses (Javier Bauluz / Piraván) Fotografias tiradas com Hipstamatic for iPhone, Lens: John S Flash: Off Film: Claunch 72 Monochrome

Milhares de quilômetros de caminhos de terra ladeados por muros de plástico que deixam passar a luz suficiente para cultivar um negócio de 2000 milhões de euros anuais e que, por sua vez, ocultam a exploração de milhares de pessoas que tornam isso possível. Quarenta graus sob um sol escaldante, podendo superar os 50 dentro desse mar de toldos que cobre boa parte da província de Almeria – mais de 50 quilômetros quadrados – e que converteu essa fronteira sul da Europa em um laboratório industrial, econômico e social.

Captura de tela do Google Maps que mostra parte da província de Almeria coberta por estufas

O pó levantado pelo carro se junta às camadas que vão escurecendo o plástico e que, com o efeito destrutivo do sol, obriga esses homens que vemos em cima de escadas e vigas, entre os quais ainda se emprega algum espanhol, a trocá-los anualmente. Os únicos letreiros que salpicam o caminho são os que anunciam “beringela Shakira. Eficaz, rendimento elevado e homogêneo” ou “pimentão Califórnia de maturação vermelha para transplante tardio”, algumas das novas variedades da temporada. Nessa colmeia, as ruas não têm nomes nem sinalizações decifráveis para os olhos de um visitante, mas estão infestadas deles para os seus habitantes. Por exemplo, ao dobrar uma esquina, um montinho de lixo putrefato atravessado por um córrego esverdeado procedente de um barracão de madeira anuncia que chegamos a um dos mais de cem núcleos de favela da província, onde vivem os trabalhadores em situação mais miserável. Hakim é um deles. Sai para nos receber junto com outros homens marroquinos que, durante os últimos três anos, foram construindo seus refúgios com paletes e restos do onipresente plástico de alguns cultivos que produzem 2 milhões e meio de toneladas de resíduos por ano. Dessa altura, a vista se perde em um horizonte que em algum ponto desemboca no mar Mediterrâneo, o que os separa uns 200 quilômetros de seu país, enquanto eles mergulham nesse outro oceano sob o qual desfalecem para conseguir seu sustento.

Fonte: Conselho de Agricultura e Pesca da Junta de Andaluzia

Cumprimentam cordiais, mas sérios. São onze da manhã e não estão trabalhando. Não é pouco comum. A crise iniciada no fim de maio com a acusação das autoridades alemãs, que indicavam a origem da epidemia sanitária da bactéria E. Coli em Almeria, e que custou a vida de mais de 30 pessoas e 3 mil afetados, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, afundou as exportações almerienses. A isso é preciso somar o fim da temporada de cultivos como o tomate e a melancia, dos mais importantes nesta época na região.
Hakim viajou do Tânger a Barcelona na carroceria de um caminhão quando tinha 19 anos. Mais ou menos dois dias de viagem, resistindo ao próprio peso, ao terrível calor do motor e ao medo de cair e morrer atropelado. Isso só para citar alguns dos pensamentos que passaram pela cabeça deste jovem e de centenas de outros que chegaram assim à península. Alguns morreram na viagem.

Hakim no barraco que divide com o primo e um amigo (Javier Bauluz / Piraván)

Agora Hakim tem 22 anos, um sorriso que protege um discurso azedo e se abre em forma de riso nos momentos de maior gravidade. “Meu pai me dizia para ficar, mas eu tinha visto muitos amigos que vinham e voltavam para o Marrocos com carro, dinheiro, casa… E eu queria isso. Nós escutamos que as coisas estão ruins aqui, mas só queremos a Espanha.”

Estamos dentro do quartinho que Hakim divide com um primo e outro amigo. O chão é a própria terra que os cultivos das estufas em Almeria apenas roçam. As paredes, os paletes e plásticos descartados. O zumbido de algumas moscas chatas que quase nem se abalam diante dos tapas eletrifica o ambiente abafado. Quando precisa de trabalhadores, o chefe vem e pega as pessoas que quer. Cinco ou seis pessoas. Vamos à estufa e é trabalhar, trabalhar e trabalhar. Colhemos melancias, tomates, arrancamos as ervas… Todo o trabalho da estufa durante oito horas. No fim do dia pagam 20, 25 euros. Não tem contrato, não tem nada”.

Ao cair da tarde os caminhos de Almeria se enchem de bicicletas. É o transporte mais utilizado pelos trabalhadores. O que vemos no fundo é a cozinha do barraco de Hakim (Javier Bauluz /Piraván)

E aí começa um dos becos sem saída que mantém milhares de pessoas na clandestinidade e na vulnerabilidade. Hakim não tem um contrato e, por isso, não pode solicitar a permissão de residência, apesar de que já poderia se amparar no período dos três anos de permanência estabelecido por lei. Por sua vez, sem permissão de residência, não pode aspirar mais que à clandestinidade e ao medo paralisante e contínuo de ser deportado depois de tantos anos de sofrimento, e à exploração praticada por alguns empresários agrícolas. O último convênio assinado entre estes e os sindicatos fixava em 44 euros o salário mínimo para uma jornada de oito horas. Mas, entre os trabalhadores com os quais pudemos falar, os mais bem pagos são os romenos, com um salário médio de 35 euros. E, segundo Hakim e outras fontes, os mais mal pagos são os subsaarianos, a quem, em certa medida, percebem como competição desleal. “Os negros trabalham por 10 ou 15 euros. Mas, quando o tomate vale muito dinheiro, paga-se 70 ou 80 centavos o quilo. O chefe ganha entre 5 mil e 7 mil euros por um caminhão; nós levamos entre duas e três horas para colher um caminhão e ele nos paga uns 9 euros.” Cifras que vão se encaixando em um quadrante no qual as margens de lucro vão aumentando exponencialmente até chegar à mesa do consumidor, onde nas grandes cidades pode-se chegar a pagar mais de 1,50 euro por um quilo de tomate.

As autoridades públicas e as organizações de empresários agrícolas afirmam que em Almeria há tantos trabalhadores não contratados quanto em qualquer outra região. Mas a crise do pepino acabou de revelar as contradições entre o discurso e os valores oficiais. A comparação dos dados é impiedosa com as posturas oficiais. A Espanha é o segundo exportador de frutas, verduras e hortaliças do mundo, e Almeria, a terceira província com maior peso nesse setor, depois de Múrcia e Valência: 18,3% do total exportado pelo país. Segundo dados das cooperativas, em 2010 exportaram-se 3,7 milhões de toneladas, por um valor de 3.640 milhões de euros. No caso concreto dos pepinos frescos e em conserva, dos quais 87% procedem dessa província, foram 450 mil toneladas as que se dirigiram à União Europeia em 2010, majoritariamente à Alemanha, segundo dados de alfândegas no mesmo ano. Um setor estratégico da economia espanhola que, segundo a Federação Espanhola de Associações de Produtores Exportadores de Frutas e Hortaliças, sofreu algumas perdas semanais de 200 milhões de euros durante a crise do pepino.

Produção agrícola. Fonte: Conselho de Agricultura e Pesca da Junta de Andaluzia

Em consequência de tudo isso, o sindicato majoritário, UGT-Federação de Indústria e Trabalhadores Agrários (FITG), lamentava que 50 mil trabalhadores espanhóis tenham sido afetados pela crise. Mas os dados publicados pelo Ministério do Trabalho e Interior sobre junho de 2011 revelam que o desemprego agrícola nesse mês só aumentou em 390 pessoas com relação ao mês anterior. E se o ampliarmos ao setor de serviços, que abrange tarefas como a manipulação ou o transporte dos alimentos, o aumento foi de 1.162 trabalhadores desempregados.

Barracos em uma nave industrial abandonada (Javier Bauluz /Piraván)

Ambas as cifras são menores que as de junho de 2010, um mês em que as temporadas importantes acabaram, motivo pelo qual o desemprego costuma aumentar. Mas é mais: este ano havia mil afiliados a mais na Previdência Social no regime especial agrário, passando de 40.800 a 41.900 trabalhadores nesse setor. Alguns dados que dificilmente podem corresponder a um revés econômico que, com efeito, fez com que duas toneladas de vegetais terminassem diariamente no lixo e que, somado às constatações sobre o terreno e às denúncias feitas há anos por ONGs e sindicatos como o Obrero del Campo, inevitavelmente nos levam a calcular que milhares de pessoas devem estar trabalhando sem contrato nessa província.

Contratos de obras e serviços temporários por produção. Fonte: Conselho de Agricultura e Pesca da Junta de Andaluzia

Algumas conclusões que terminam de se apoiar nos resultados do último censo de 2010: o número de estrangeiros registrados na província almeriense se multiplicou por nove na última década. Dos 15 mil habitantes de 1999 aos 170 mil novos habitantes de 2010, 128 mil eram estrangeiros. Deles, 65 mil procedem de países da União Europeia (28 mil deles da Romênia), e a outra metade do Marrocos (38 mil), da América Latina (19 mil), da África subsaariana (13 mil) e de países europeus não comunitários (5.200), nessa ordem. Ou seja, Almeria aumentou sua população com uns 90 mil estrangeiros procedentes de países empobrecidos, sendo que, destes, de 65% a 75% são homens. Mas o número de afiliados ao regime especial agrário é de apenas 41 mil pessoas, incluindo os espanhóis.
Para contrastar essas informações com as três principais associações de empresários agrícolas almerienses, nos colocamos em contato com a Associação de Jovens Agricultores de Almeria (ASAJA), a União de Pequenos Agricultores (UPA) e a Associação de Organizações de Produtores de Frutas e Hortaliças de Almeria (COEXPHAL). Só a primeira respondeu às nossas perguntas através de sua assessoria de imprensa. Quando questionadas sobre quantas pessoas elas calculam que trabalham sem contrato na província de Almeria, a resposta é contundente: “Minha resposta tem que ser zero.” Sobre quanto estão pagando pela jornada de trabalho, a porta-voz de ASAJA afirma que estão pagando mais que os 44 euros estipulados por convênio “porque, em algumas ocasiões, oferecem alojamento, comida, bebida… serviços que não estão contabilizados”.

Spitou Mendy em uma sede do SOC (J. B. /Piraván)

Spitou Mendy, um senegalês formado em Filologia hispânica e professor de espanhol em seu país que emigrou para a Europa “como todos, porque somos refugiados econômicos”, se converteu em um rosto conhecido nos últimos anos. Como porta-voz do Sindicato de Obreros del Campo (SOC), deu cara e voz à organização mais combativa contra a violação dos direitos básicos desses trabalhadores. Após ver e sentir a miséria terceiro-mundista na qual essas pessoas vivem como se fosse um submundo invisível ou escandalosamente ignorado pela administração, mas também pelo rosto rico e desenvolvimentista que o rodeia, seu discurso combativo e sem rodeios parece ser um dos poucos que faz eco da miséria que assola esses trabalhadores. “Que o delegado de agricultura da Junta de Andaluzia diga que aqui não há mais trabalhadores indocumentados ou sem contrato que em outros lugares da Europa é… Acontece que essa mão-de-obra não tem custo agregado. E isso se chama roubo. A Administração está ajudando a afundar este país. E que eu, um cidadão estrangeiro, saiba explicar e dizer, lhes parece mentira. Parece impossível que um imigrante seja capaz de fazer uma análise da situação social.”

Dados básicos de Andaluzia 2010 Fonte: Conselho de Agricultura e Pesca da Junta de Andaluzia

Do lado dos empregadores, dos empresários agrícolas, é preciso contar com as peculiaridades da agricultura intensiva. Juan Miralles, presidente de Almeria Acoge, reúne as dificuldades administrativas que esse coletivo encontra para fazer contratos: “O convênio para o setor estabelece que os contratos devem ter um ano de duração. E a agricultura aqui é sazonal e com picos de trabalhos pontuais muito importantes. Além do mais, pode haver imprevistos, como uma epidemia ou o que aconteceu com a E. Coli, que não haja trabalho, e o empresário é penalizado por manter o trabalhador contratado mesmo quando não tem receita. Os agricultores não estão interessados em não contratar formalmente as pessoas e se expor a multas de 60 mil euros, mas o marco legal não se adéqua à realidade desses cultivos.”

Isso mesmo nos conta um agricultor que espera uma quadrilha de homens e mulheres romenos para colher um caminhão de beringelas perfeitas e quase idênticas. É jovem e tem uma musculatura de academia. É filho de agricultores, formado em Informática, que acabou se encarregando do negócio familiar “porque, no fim das contas, garante o sustento”. A terra, perfeitamente traçada em fileiras de plantas do mesmo tamanho, compactadas e de cor chumbo, mostra que não se fertiliza mais com adubo natural. A agricultura intensiva se tornou significativamente mais complexa na última década, e a província não soube acompanhar, segundo esse agricultor: “É incrível que não haja uma só empresa de capital local que comercialize sementes, fertilizantes, ou uma só conserveira para embalar os tomates machucados que vão a Múrcia ou Valência para se transformar em tomate frito.” Miguel Ángel tem claro que as perdas ocasionadas pela acusação das autoridades alemãs não serão recuperadas, mas acrescenta que esse não é o único problema. “Tem vez que os preços são tão baixos que não vale a pena vender. Por exemplo, pelo quilo de beringela pagam 10, 15 ou 20 centavos. Então eu as deixo no acostamento do caminho – não por muito tempo porque multam –, para quem quiser pegar.”
Em um artigo publicado pelo membro do Conselho Científico de ATTAC, Gustavo Duch, sobre a epidemia da E. Coli, afirmava: “O sistema em questão foi projetado para produzir algo parecido com alimentos, a custos muito baixos, tanto econômicos e sociais quanto ecológicos; mas que possam produzir grandes benefícios àqueles que se dedicam à sua comercialização. Os alimentos, longe de serem considerados uma necessidade e um direito, são entendidos como uma simples mercadoria.” E, para seguir essa máxima, a margem de lucro deve ser a maior possível. No caso do pepino, Duch calcula que “os esforços para cultivar, regar e colher um pepino representarão para o agricultor ou agricultora 0,17 euro por quilo vendido. A população consumidora pagará 1,63 euro por quilo. Ou seja, um lucro superior a 800%”.

Uma jovem romena colhe beringelas na estufa de Miguel Ángel (Javier Bauluz / Piraván)

Há três formas de comercializar as colheitas: vendê-las a distribuidoras como Carrefour ou Aldi – que controlam 60% do comércio da UE –, diretamente aos comércios ou a cooperativas. Miguel Ángel venderá a uma distribuidora com a qual já tem o preço combinado antes de plantar. É mais baixo que o que obteria se, por exemplo, estivesse associado a uma cooperativa, mas é mais estável e assegurado antecipadamente: 30 centavos o quilo. Nos supermercados, será vendido a uma média de um euro o quilo. Três mulheres e um homem romenos colhem com o agricultor o caminhão de beringelas. “Eu lhes pago 35 euros pela jornada de 8 horas. Aqui trabalham hoje, recebem hoje.”

Dos 210 milhões de euros de ajudas aprovadas pela UE após a crise do surto de E. Coli, 37 serão destinados aos empresários espanhóis afetados – embora o governo espanhol tenha pedido 71 – e que não receberam subvenções previamente pela Política Agrária Comum (PAC), uns 6.500 agricultores que receberam 7 milhões de euros este ano. Segundo o porta-voz da ASAJA, os empresários agrícolas já começaram a receber as resoluções das cifras que cada um receberá. À pergunta se os trabalhadores receberão parte dessas ajudas, responde: “Não, os trabalhadores têm outras vias para receber indenizações.” No entanto, os milhares de trabalhadores indocumentados e sem contrato que não puderam trabalhar esses dias, que, portanto, não receberam nenhum pagamento e que em muitos casos tiveram que ser atendidos e alimentados pela Cruz Vermelha e outras organizações humanitárias, não se beneficiarão de forma alguma dessas grandes cifras. Quantidades que em muitos casos serão recebidas por empresários que utilizam “mão-de-obra escrava”, como foi catalogada pela afamada instituição Internacional Anti-Escravidão, e que se esses jornalistas encontraram sem nenhuma dificuldade, é questionável que o Ministério do Trabalho, por exemplo, não encontre.

Telhado dos barracos construídos em uma nave industrial mal conservada (J. B. /Piraván)

Esse é o caso de um grupo de homens subsaarianos que vivem ao lado do barraco de Hakim. Dividem uma casa e enquanto um deles cozinha, o resto espera sentado em alguns sofás com a napa quase transparente de tão desgastada e outros sentados junto à porta. Continuamos rodeados de estufas, perto de um reservatório de água que o proprietário dessa casa deixa eles utilizarem para beber e tomar banho, mas não é potável, motivo pelo qual tanto eles como Hakim e seus vizinhos têm que gastar uma importante parte de seus salários para comprar galões de água engarrafada.

Não querem falar, estão há tempos sem trabalhar e não veem luz no fim do túnel. Não conhecem companheiros que puderam regularizar sua situação, sua comida costuma ser composta das verduras que encontram nos acostamentos ou que alguns de seus empregadores lhes dão, como agora, uma grande refogado de pimentão com cebola e tomate, e mal podem enviar dinheiro às suas famílias. Faz muito calor nesta sala escura, estão cansados de não ter trabalho e do racismo. Na escala social, eles são os últimos.
O sindicalista Spitou nos recebe em um porão convertido no centro do SOC, em um bairro da periferia de El Ejido, a localidade onde um surto de xenofobia no ano 2000 chamou a atenção dos meios nacionais e internacionais após o assassinato de uma jovem pelas mãos de um imigrante marroquino com problemas psicológicos; conhecidos já haviam alertado sobre seu estado clínico e solicitado que ele recebesse tratamento ou fosse internado, o que nunca ocorreu. O caso fez com que parte da população local espanhola se lançasse à caça do imigrante: dezenas de casas e comércios foram incendiados e, durante dias, muitos deles não saíram à rua por medo de serem atacados.

Imigrantes em uma assembleia, escondidos entre as estufas de El Ejido em 2000 (J. B. / Piraván)

Seu prefeito, Juan Enciso, então do Partido Popular, teve um papel fundamental não apenas por ter sido omisso em sua obrigação de assegurar a seguridade cidadã, como também por ter feito declarações constantes nas quais justificava a reação racista com o ambiente de insegurança supostamente criado pela imigração. O então presidente do governo, José María Aznar, lhe apoiou declarando “que era muito fácil criticar quando não se estava ali”, mas o ministro de Trabalho e Assuntos Sociais, Manuel Pimentel, pediu que se trabalhasse pela integração e criticou a atração dos imigrantes como mão-de-obra e a posterior negação de seus direitos como pessoas.
O resultado dessa desavença foi a demissão de Pimentel e a continuação de Enciso como prefeito, inclusive depois que este foi expulso do PP e montou seu próprio partido, o PAL, conservando seu posto como secretário de El Ejido durante os 8 meses que passou na prisão por cinco graves causas que continuam pendentes, vinculadas a uma importante trama de corrupção. O prefeito que soltava a quem lhe

A Polícia detém um imigrante por protestar contra os ataques xenófobos em El Ejido em 2000 (Javier Bauluz / Piraván)

perguntasse, sem pudor, que “às oito da manhã todos os imigrantes são poucos, às oito da noite sobram todos”, governou El Ejido durante 20 anos, exemplo vigoroso de um desenvolvimento insustentável que arrasa Almeria.
Spitou viveu esta última década, histórica por umeconômico sem comparação, como trabalhador e sindicalista. E não viu nenhuma evolução. “Estou há dez anos em Almeria e sempre ganhei o mesmo. Quando cheguei, o imigrante tinha um valor, o empresário tinha que sair em busca de mão-de-obra. Hoje a precarização é uma grande bolsa de mão-de-obra indocumentada destinada a baratear os custos de produção. E assim retrocedemos a séculos atrás, em vez de avançar. Essas pessoas que vêm tornar possível o único sistema que pode nos salvar da crise, porque as pessoas continuam comendo, a agricultura continua e todo o mundo compra de Almeria. No entanto, os que conseguiram a permissão de residência ou a nacionalidade foram buscar uma vida melhor na Suíça ou na França, fazer o mesmo mas recebendo o dobro que aqui. Almeria não integra, não forma, não educa. Almeria explora.”
“A única coisa que pensam de nós é que somos força de trabalho, não temos história, nem direito de sermos pessoas com dignidade. Mas eu venho de um país com cultura, tenho formação e muitos imigrantes como eu temos formação universitária, mas somos refugiados econômicos. Muitos companheiros jogaram a toalha. Depois de tantos obstáculos acabaram acreditando que não valem nada. Mas é preciso ajudá-los a recuperar a autoestima. Se não, nos matam vivos. Estão fazendo isso, a exploração ao máximo e a mensagem de ‘você não tem que saber nada, só render’. E os que temos voz para dizê-lo não somos amigos, precisamos nos unir.”
Spitou parece cansado. E está. Acaba de passar dois dias mostrando o subdesenvolvimento que habita em Almeria a uma equipe de jornalistas do norte da Europa que vieram fazer um documentário. Mas não é cansaço físico o que debilita Spitou, é o que os defensores de direitos humanos carregam onde são poucos os que se atrevem a levantar a voz e onde a resposta imediata é o assédio ou o isolamento. Teve de enfrentá-los quando acompanhou e figurou em uma reportagem do prestigioso jornal britânico The Guardian, intitulado “Os cultivadores das saladas da Espanha são escravos modernos, segundo as ONGs”. A imprensa e as autoridades locais trataram de desmentir o conteúdo da notícia, e a acusar Spitou e o SOC de prejudicar a imagem da província. “É uma vergonha que uma sociedade civilizada, moderna, se comporte assim hoje. Se tem gente que está reclamando algo tão básico como que as pessoas que trabalham das oito da manhã às nove da noite não ganhem menos que 37 euros, e os convênios dizem que precisam ganhar no mínimo 44… Mas ninguém quer pagar isso aos imigrantes. Claro que há espanhóis que ganham isso, como há espanhóis que ganham o seguro desemprego graças ao trabalho do imigrante que não está contratado. Pensamos que somos escravos porque nos obrigam. Essa é a base da servidão e é preciso aceitar para poder comer.”
ASAJA defende que definir essas condições de trabalho como escravidão “é descabido. É um trabalho duro, tanto que houve etapas nas quais os espanhóis não quiseram fazer porque é sacrificado”.
Mas a rede de “servidão”, como chama Spitou, de “exploração trabalhista”, como catalogam outras organizações e sindicatos, ou de “escravidão moderna”, como denomina a ONG Internacional Anti-escravidão, não se limita aos trabalhadores das estufas. O disparatado crescimento econômico almeriense se tornou visível não só em número de carros licenciados anualmente – 20 mil carros de passeio entre 2004 e 2007, diante da queda a só 12 mil em 2008, com a chegada da crise –, ou nos “surtos verdes” em forma de chamativos jardins nas muitas novas rotatórias de El Ejido, como também os numerosos prostíbulos se multiplicaram nas estradas. E nos ângulos mortos de vias, estufas e barracos, também as bicicletas descansam estacionadas diante de quartinhos descascados. É o lar das escravas dos escravos.

Mónica G. Prieto (Beirut)/ Traducão Pablo Moronta e Janaina Marcoantonio

  • A juventude árabe luta por romper os tabus a respeito da sexualidade, numa sociedade cada vez mais tradicional e religiosa.
  • Os casamentos por prazer, uma forma de prostituição encoberta, aumentam entre a nova geração, para satisfazer suas necessidades.
  • Proximamente, publicaremos uma reportagem sobre a situação da homossexualidade no mundo árabe.

Um casal muçulmano passa em frente uma loja de lingerie, em Beirute. (Mónica G. Prieto)

Quando a libanesa Randa Mirza começou sua pesquisa junto à italiana Giulia Guadagnoli, sobre o impacto de imagens do corpo humano nu e a percepção sexual na juventude árabe, o primeiro problema que encontraram foi que as palavras faltavam. Pelo menos, palavras em árabe. “Alguém disse que achava embaraçoso falar de sexualidade em árabe, e portanto optamos pelo inglês”. Aconteceu a mesma coisa com a doutora Brigitte Khoury, diretora do Centro Árabe Regional de Pesquisas e Treinamento em Saúde Mental, e sua assistente Sarah Tabbarah, quando lançaram o primeiro estudo pan-árabe sobre comportamentos sexuais: “Não falamos dessas coisas em árabe”, comentou um dos participantes.

É o motivo pelo qual, em público, escreve-se (e fala-se) sobre a sexualidade árabe em inglês, o idioma que começa controlar a nova geração, presa entre os clichês culturais conservadores, a repressão religiosa e as leis restritivas, mistura dos anteriores, que castigam a expressão sexual. O idioma é apena um símbolo da tentativa de ocultar – por pecaminosa – uma sexualidade tão latente como em qualquer outra sociedade, em que somente uns poucos se atrevem a desafiar todo um contexto social de limitações cuja transgressão implica duros castigos, como os impostos às jovens detidas pelas autoridades ou espancadas por suas famílias por conversar com garotos, ou aquelas lapidadas no Irã, no Iraque, na Arábia Saudita ou no Afeganistão, por manter relações sexuais extraconjugais, reais ou imaginadas, com seus vizinhos.

“Quando as mulheres se emancipam, sua moralidade é questionada”, garantia o professor Samir Khalaf, diretor do Centro de Pesquisas de Comportamento da Universidade Americana de Beirute, no seminário Juventude, Sexualidade e Auto-expressão no mundo árabe, convocado pelo Instituto de Assuntos Internacionais Issam Fares e pelo Instituto Goethe, realizado na primeira semana de abril de 2011, em Beirute. Cada vez mais mulheres se emancipam no âmbito laboral, inclusive no conservador contexto árabe, onde as mulheres já dispõem do mesmo nível educacional que os homens – ou até mesmo superior – e isso implica uma independência emocional e sexual. Algo intolerável no caso das mulheres.

Casal árabe tira fotografias de um aquário, em Dubai. (M.G.P.)

Segundo a já mencionada Brigitte Khoury, “embora a religião condene o sexo pré-conjugal, a sociedade o consente, mas só no caso dos homens”. Essa hipocrisia é a que exaspera Joumana Haddad. “Maha era uma jovem jordana de 24 anos. Ficou grávida após ser violada por um vizinho, seu irmão a espancou e a matou a facadas. Foi condenado a seis meses de prisão. O tribunal justificou suas ações alegando que ele tinha agido dessa forma diante do vergonhoso comportamento da irmã”, lembra a transgressora escritora libanesa. Cerca de cinco mil mulheres são vítimas de crimes de honra – uma forma de violência sexista com o agravante de ser aceito socialmente – a cada ano. E é um crime que só afeta as mulheres. “Dentre os homens, é considerado que quanto mais experiência sexual, melhor. Delas, no entanto, se espera que entreguem suas vaginas imaculadas na hora do matrimônio. Seus corpos são meras aquisições”, agrega Haddad.

Luta-se pouco por mudar essa realidade. Crimes de honra, casamentos arranjados, em sua maioria carentes de sentimentos, leis de família que só beneficiam os homens… Os problemas das uniões árabes são conhecidos, mas há muita ignorância sobre o sexo pré-matrimonial, pecaminoso e ilegal e, no entanto, praticado. O que é feito com toda essa energia sexual da juventude, à qual é negado a possibilidade de satisfazer suas necessidades até casar? Há dois caminhos: praticar sexo clandestinamente, que implica riscos – os celulares conectados via Bluetooth viraram o recurso favorito da juventude árabe para paquerar esquivando-se dos olhares indiscretos e da polícia religiosa – ou se refugiar nas fórmulas oferecidas pelos religiosos, uniões de prazer que nada têm a ver com a concepção, a intimidade ou o amor, mas só com o desejo deles, já que elas mal possuem direitos nessas uniões, das quais em muitos casos ignoram até mesmo a duração.

Jovens emiradenses checam seus celulares. (M. G. P.)

“Para a classe média, os casamentos temporários são a única forma de encontrar prazer”, ressalta Zainab Amery, libanesa, professora de Sociologia da Universidade de Otawa. Segundo a professora, em um número cada vez maior de mesquitas ocidentais os jovens são instados a procurar por esse tipo de acordo para evitar que se envolvam em relações sexuais com pessoas não muçulmanas. “Se antes eram exceções, agora são uma moda aceitável em lugares como Emirados, Omã, Arábia Saudita ou Kuwait”. E não estamos falando apenas do casamento temporário mais tradicional – a muta’a, no caso dos xiitas, ou o urfi no caso dos sunitas, uniões que se dissolvem quando o prazo acaba – mas de uniões como o misyar – não implica viver sob o mesmo teto e, portanto, resulta uma ótima alternativa para jovens sem recursos –, o misyaf, ou casamento temporário de verão – uma

forma de comprar uma amante sazonal sem cair em pecado – ou o mityar, quando o casamento é realizado durante uma viagem de trabalho e dura o que esta durar.

Segundo a professora Amery, a chave para que estas uniões tão questionáveis estejam em alta radica em vários fatores – desemprego e custo de vida elevado, entre outros, o que torna difícil custear as caríssimas bodas árabes – mas são “uma opção de sexo extramatrimonial” cada vez mais utilizada entre jovens universitários religiosos, que assim cobrem suas necessidades sexuais sem sentir remorsos. As mulheres que costumam aceitar essas uniões são, em sua maioria, divorciadas ou viúvas com necessidades econômicas – o homem sempre paga um dote à noiva – mas carecem de direito algum e, além do mais, perdem o apoio de suas famílias após se submeter a esse tipo de casamento. Em muitos casos, são pais de classes baixas que vendem suas filhas nesse tipo de união para conseguir dinheiro. Nessas situações, trata-se de uma forma de prostituição encoberta e legal “cada vez mais difundida no Oriente Próximo”.

Desfile de lingerie celebrado em pista de esqui em Faraya, Líbano. (M. G. P.)

Uma alternativa proscrita a essas uniões fomentadas pelos religiosos são os prostíbulos, outro assunto apaixonante na cultura árabe. Em muitos países, as prostitutas – muito poucas árabes, a maioria procedente de países do Leste Europeu – não vendem o corpo, mas viram uma espécie de psicólogas, como explicava Lenka Benova, responsável por um estudo sobre as mulheres empregadas em clubes noturnos de Amã. “Não vendem sexo. Falam com os clientes, brincam o jogo dos homens e eles vão ali para ser autênticos, mudar de ambiente e se sentir livres. Para elas, a chave está em postergar ao máximo o desfecho e aumentar, dessa forma, suas comissões por bebidas”. As garotas,

completa Benova, chamam a si mesmas de terapeutas. Sua situação é muito diferente da das profissionais que trabalham no Líbano ou na Turquia, onde os prostíbulos são exatamente isso. Na Síria e na Jordânia, por outro lado, os clubes cuidam muito de que as profissionais não sejam pegas mantendo contatos sexuais, já que isso implicaria ter de fechar o negócio.

Hipocrisia. Em árabe, existem 99 palavras para se referir a Alá e 100 para se referir ao “amor” – al hab – mas ninguém utiliza os termos vagina, clitóris ou pênis. Explica com certo humor tingido de desânimo a escritora Joumana Haddad, diretora da revista Jasad, a única do Oriente Próximo que versa exclusivamente sobre erotismo e é escrita em árabe. “Na literatura árabe, os peitos são montes ou montanhas, dependendo do tamanho; o clitóris é a flor do paraíso ou os bordes do céu, ou, se é particularmente talentoso, a porta do vulcão, e sobram metáforas fálicas. A metáfora deveria ser uma eleição e não uma imposição.” Sua crítica nua e crua à repressão sexual – assunto de “Eu matei Sherazade”, seu último livro traduzido ao português, lhe valeu inclusive ameaças de morte por parte de radicais, mas isso não implica que tenha refreado suas denúncias. “A liberdade não é monopólio do Ocidente. O sexo não é mau, mas sim o duplo discurso. O imoral não é o sexo, mas nossa hipocrisia”.

Jovens emiradenses paquerando com garotos de sua idade num shopping de Dubai. (M. G. P.)

A juventude árabe ainda tem um longo caminho a percorrer no que concerne à liberação sexual. Os dados apresentados pela professora egípcia Ghada Barsoum chamam a atenção. No Egito, onde 62% da população tem menos de 30 anos, 86% dos jovens se consideram religiosos e 90% das mulheres usam hijab. 94% dos que se consideram religiosos admitem que somente casariam com uma mulher velada, e somente 26% da população – eles e elas – consideram que a sociedade deve respeitar uma mulher que não cubra o cabelo. Somente 27% dos homens pensam que as tarefas do lar devem ser repartidas, 71% acredita que as mulheres devem obedecer e 61% que o dinheiro delas deve ser adminstrado por eles. Mas o que mais chama a atenção é que 41% das mulheres opinam que devem compartir tarefas domésticas, 49% quer obedecer e 37% entrega voluntariamente seu dinheiro.

A professora Shereen el Feki iniciou uma pesquisa junto a Barsoum acerca da juventude egípcia que fornece dados esclarecedores. 81% das mulheres e 40% dos homens se casam entre 25 e 29 anos. O restante dos homens se casa mais velho, com mulheres mais jovens que eles. O objetivo do primeiro ano é a reprodução: 90% dá à luz nos primeiros 12 meses de união. 70% deles e delas ficam felizes por finalmente manter relações sexuais. 70% dos divórcios são motivados por infidelidade masculina, mas somente um terço dos homens consideram uma divorciada – e, portanto, não virgem – respeitável. 85% considera que deve bater na mulher por falar com outro homem; um terço admite que infringiria lesões na mulher, se esta se recusasse a ter sexo com ele.

Jóvenes libaneses durante una fiesta celebrada en Byblos, el pasado verano. (M. G. P.)

Outra investigação, a cargo das mencionadas Khoury e Tabbarah, trata de dividir a sexualidade árabe. Está sendo difundido por Nasawiya, o ativo coletivo feminista árabe, mediante as redes sociais, mas somente 300 pessoas responderam as 159 perguntas de um questionário sobre hábitos sexuais. “Não é uma prioridade neste contexto de mudanças”, justifica-se Khoury. Das respostas coletadas, infere-se que 50% das mulheres e 35,9% dos homens se aventuram em sua primeira relação sexual por amor; 37,8% deles e 18,6% delas por prazer. Noventa e oito por cento dos homens e 86% das mulheres admitem se masturbar, e a maioria delas faz isso para “relaxar”.

O dado mais relevante é que 79% dos que responderam são libaneses, considerados os mais liberais do Oriente Próximo, embora isso também seja questionável. Isso explicaria que 56% das mulheres e 50% dos homens envolvidos na pesquisa consideram a virgindade nada mais um membrana, enquanto 20% delas e 17% deles gostam de pensar nela como um “presente” para a pessoa amada. Na realidade, a virgindade é considerada sagrada nos matrimônios árabes, e isso explica o auge da himenoplastia ou cirurgia de reconstrução do hímen, em voga no Oriente Próximo. “O mais intolerável é como elas aceitam tal humilhação”, lamenta Haddad.

As únicas que estão a salvo do estereótipo imposto pelos religiosos – recatadas, submissas, veladas – são as libanesas: maquiadas, decotadas, sinuosas e voluptuosas… e no fim das contas, tão recatadas como as demais. “Sempre que vêm estrangeiros, perguntam: de onde vem a erotização das libanesas? Eu tento explicar que é só uma mensagem: elas são atraentes, mas estão condenadas a não ser sexualmente ativas, porque quando o são, são desprezadas socialmente.”, explicava Samir Khalaf. Isso é comum a muçulmanas e cristãs no Oriente Próximo. “A religião é onipresente e a educação sexual é um conceito distante”, conclui Khoury.


Por Patricia Simón · Tradução de Janaína Marcoantonio

  • A Plataforma de Afetados pela Hipoteca lança uma campanha para a ocupação de imóveis esvaziados por despejos
  • “Estão pagando os despejos com nossos impostos para jogar as pessoas na rua a fim de que os bancos fiquem com os imóveis vazios”, sentencia Rafael Mayoral, advogado da PAH
  • José Coy, co-fundador da PAH em Múrcia, anuncia um outono quente. “Temos que ir atrás deles porque eles vão continuar indo contra nós”

José Coy é um nome conhecido e respeitado em círculos de ativismo que, até agora, haviam permanecido em mundos paralelos para muitas pessoas. É bem conhecido por alguns dos sindicalistas veteranos de mineradoras e estaleiros asturianos desde a década de 1980, quando, junto com outros sindicalistas, viajou de Múrcia a Astúrias para levar comida e apoio aos familiares dos trabalhadores em greve de fome; é lembrado por aqueles que estiveram em Múrcia em 2001, quando quatrocentos imigrantes centro-americanos se trancaram em igrejas diante da reforma da Lei de Estrangeiros do então ministro do Interior, Jaime Mayor Oreja, que abriu as portas ao que na época era impensável e que hoje é uma realidade cotidiana: a deportação dos imigrantes sem documentos. Centenas de trabalhadores se trancaram porque temiam ser deportados depois de anos trabalhando como escravos no campo murciano, sem nenhuma forma de renda, porque também se perseguia o emprego de pessoas sem papéis, ao mesmo tempo que terminavam seus últimos pacotes de arroz e feijão. Os que viveram essa crise humanitária relatam o incansável trabalho de José Coy, convertido em porta-voz da Plataforma de Imigrantes de Molina de Segura, acompanhando-os no protesto, falando com os meios de comunicação, coordenando a coleta de comida, enquanto continuava viajando pelos povoados murcianos vendendo roupa. Fazendo frente a essa luta, está o governo de Aznar e sua política para estrangeiros, que muitos defensores de direitos humanos definiram como “a caça ao imigrante”. Por ela, centenas de imigrantes passaram fome na Espanha, uma luta que Coy relembra agora como “a rebelião das lágrimas, porque há lutas que não se travam com golpes, mas sim com choro”.

José Coy na barraca do 15-M Gijón na Semana Negra (Javier Bauluz / Piraván)

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Por Yasna Mussa · (Santiago do Chile) · Tradução de Janaína Marcoantonio
  • Desde a década de 1980, em plena ditadura de Augusto Pinochet, não se viam tantas pessoas marchando pelas principais ruas chilenas.
  • Todas as quintas-feiras de junho, mais de 200 mil chilenos em Santiago e uns 400 mil no resto do país se manifestaram durante horas sob um mesmo lema: recuperar a educação como um direito gratuito e de qualidade.

Manifestação de estudantes, professores e pais em prol da educação. 16 de junho de 2011, Santiago do Chile (AP Photo/Roberto Candia)

Desde a década de 1980, em plena ditadura de Augusto Pinochet, não se viam tantas pessoas marchando pelas principais ruas chilenas. Todas as quintas-feiras de junho, mais de 200 mil chilenos em Santiago e uns 400 mil no resto do país se manifestaram durante horas sob um mesmo lema: recuperar a educação como um direito gratuito e de qualidade.

Em 30 de junho, realizou-se uma grande manifestação em prol da educação, em que diretores, professores, estudantes e pais marcharam pelas mesmas demandas que haviam levado à ocupação de cerca de quinhentas escolas públicas e privadas, à paralisação da maioria das universidades e, recentemente, à ocupação estudantil das sedes de dois partidos políticos emblemáticos.

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Por Luna Bolívar · Tradução de Mariana Marcoantonio

  • “Quando o insatisfeito não encontra a quem se dirigir, busca seus próprios representantes”
  • “Os populistas dinamarqueses combinam o discurso anti-imigração com o chauvinismo caricato”
  • Propostas como “a liquidação dos ciganos” não são pouco frequentes na Europa Oriental

Siv Jensen, líder de um dos partidos populistas de direita mais fortes da Europa, o norueguês Partido do Progresso, vota em Oslo, em 2009. Nessas eleições, sua formação obteve 23% dos votos. (AP/ Scanpix, Erlend Aas)

Dificilmente 50 policiais adicionais representarão um verdadeiro perigo à livre circulação dentro da União Europeia. É claro que a nenhum cidadão europeu será negada sua entrada na Dinamarca. E, de fato, ninguém acha que os postos alfandegários que Copenhague mandou reabrir no começo de julho sirvam para combater o crime entre fronteiras.

Mas nada disso importa. A meia centena de agentes dinamarqueses tem outro valor, simbólico: diz a Bruxelas que os acordos comunitários podem ser cumpridos ou não, e aos cidadãos, que o governo está agindo. O efeito colateral é um golpe ao Estado de direito, porque o ato vem a demonstrar o que os especialistas constatam já faz algum tempo: a capacidade crescente dos partidos de extrema direita europeus de posicionar seus assuntos na agenda política.

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Por Patricia Simón · Fotos: Javier Bauluz
Tradução de Janaína Marcoantonio

  • Menos de duas horas. Esse foi o tempo que um grupo de cidadãos asturianos precisou para impedir um despejo desde o momento em que souberam de sua existência.
  • Nas últimas semanas, a Plataforma de Afetados pelas Hipotecas e o 15-M evitaram que mais de 60 famílias perdessem suas casas.

Porta do edifício afetado pelo despejo enquanto a polícia tenta entrar no local (Javier Bauluz / Piraván)

Na manhã de 7 de julho, o movimento 15-M de Gijón havia convocado uma manifestação diante de alguns bancos da cidade para protestar por sua “avareza e responsabilidade na crise em que vivemos”, nas palavras de uma de suas participantes. A essa mesma hora, Ángel T. P. se apresentava nos tribunais da cidade para verificar se a solicitação de adiamento do despejo de sua moradia havia sido aceita. A ordem de despejo era para as 12h30 daquela mesma manhã, de modo que, não tendo encontrado uma resposta, ele foi, com poucas esperanças, pedir ajuda ao posto de informação permanente que o 15-M instalou na praça da Prefeitura. Graças às redes sociais e à coincidência com o protesto que estava ocorrendo naquele mesmo momento, apenas uma hora mais tarde umas 40 pessoas ocupavam as escadas e a porta de entrada de seu edifício para, pela primeira vez em Astúrias, impedir um despejo. Leer más


Mónica G. Prieto · (Beirut) / Tradução de Janaína Marcoantonio
  • A comunidade GLBT, que participa das revoluções sociais como qualquer outra agrupação, vê uma oportunidade na “primavera árabe”.
  • Apesar disso, a homossexualidade é castigada com prisão em boa parte da região, quando não com pena de morte.
  • No Líbano, o país mais tolerante, mas não mais permissivo, várias ONGs lutam em nome de toda a comunidade regional.

Teddy, um bissexual libanês profissional da dança do ventre, se prepara para sua atuação. (Osama Ayub/AP)

Em meio ao milagre da Plaza Tahrir, ocorreram vários avanços ofuscados pela magnitude do desafio social de lutar contra décadas de ditadura egípcia. Mulheres e homens protestando de mãos dadas, cristãos e muçulmanos, laicos e fundamentalistas, direitas e esquerdas… Mas, sem dúvida, um dos fenômenos mais desconhecidos foi a inesperada aliança de homossexuais com os Irmãos Muçulmanos. Eles contam que compartilharam não só sonhos revolucionários, como também o espaço físico das tendas de campanha que surgiram em Tahrir, algo totalmente novo para uma organização fundamentalista como a Irmandade. E que a convivência durou exatamente o que durou a revolução.

“Depois, os mesmos homossexuais foram atacados pelos membros mais homofóbicos dos Irmãos Muçulmanos, que se negaram a trabalhar com eles. Isso não nos surpreendeu: nas agendas políticas, os homossexuais são sempre oprimidos de uma forma ou de outra”, explica Anthony Rizk, membro da Helem, a organização mais visível e ativa que defende os direitos da comunidade GLBT – Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais – no Líbano.

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Carmen Rengel · Ramala (Cisjordânia, Palestina) / Tradução de Mariana Marcoantonio

  • Casais mistos de Jerusalém Oriental e Cisjordânia apostam seus vistos e gastam além da conta para viverem juntos em terra de ninguém
  • O risco de perder a residência ou as permissões de mobilidade os leva a comprar casas em solo muito caro, perto do muro, sem serviços nem proteção alguma
  • Mais de 60 mil árabes de Jerusalém ficaram do outro lado do muro de concreto, pelo traçado de segurança imposto por Israel

Tawfik and Samia, in their home close to the Qalandia checkpoint (West Bank)

O cerco da Palestina complica até os amores. Um cidadão da Cisjordânia, com absoluta limitação de movimentos, que não pode ir a Gaza e que só excepcionalmente e por tempo muito limitado tem visto para cruzar a Jerusalém Oriental, se vê quase forçado a encontrar a companheira na sua cidade, no máximo no vilarejo vizinho. Não há mistura, não há integração: háendogamia, e cada dia mais limitadora. Reduzem-se os laços de sangue e de amizade entre as comunidades palestinas históricas. Reforçam-se os compartimentos estanques. Resta namorar o vizinho. Não há outra. Isso ou o exílio, ou o drama. Há alguns anos, antes de levantarem 700 quilômetros de muro para isolar a Cisjordânia do resto de Israel, antes de bloquearem Gaza pelo triunfo eleitoral de Hamás, os casais palestinos de origem mista eram algo normal. As relações comerciais, a universidade, os transportes públicos, os bares ou as praças serviam para o encontro. Agora, são a exceção. A separação de um povo que cala até nas novas formas de família e, evidentemente, na sensação de unidade, de aliança e pertença ao grupo. Os palestinos dos Territórios e os da capital de Jerusalém são cada vez mais primos que irmãos.

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