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Carmen Rengel · Jerusalém / Tradução de Mariana Marcoantonio
  • Um relatório da ONU revela a exploração de cerca de mil mulheres: pobreza, patriarcado e violência levam-nas à prostituição
  • A maioria é vendida pelos próprios familiares, os primeiros abusadores. Quase a metade já estava casada aos 14 anos e 60% foi estuprada na primeira vez
  • A falta de legislação nos Territórios Palestinos leva a uma total impunidade dos cafetões e das máfia

Randa, prostituta durante 21 anos, posa oculta por um kiqab emprestado. Agora trabalha em uma loja.

Dizem os evangelhos que Jesus curou Maria, a pecadora, de sete demônios que a atormentavam. Foi lá em Magdala, uma vila ao pé do lago Tiberíades, há mais de dois mil anos. A uma longa hora do povoado de Madalena (que agora, segundo os mapas, se chama Migdal e é território de Israel), hoje vive Randa, 38 anos, dois filhos, palestina, muçulmana, prostituta. Nela ainda vivem seus sete demônios: pobreza, analfabetismo, violência doméstica, abusos sexuais, tráfico de pessoas, repúdio familiar, doenças venéreas… para citar sete. O que conta dá a entender que é rodeada por vários outros demônios. Seu caso é um dos que serviram de base para a UN Women (a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres), cujos especialistas redigiram o primeiro relatório sobre prostituição e aids nos Territórios Palestinos e Jerusalém Oriental, com cerca de 250 testemunhos de trabalhadoras do sexo, cafetões, clientes e agentes de saúde. É a radiografia de um desastre duplo: o da exploração feminina, oculta sob patriarcados, dominação e fome, e o da doença, desconhecida, silenciada, ignorada por opressores que põem seu prazer acima da segurança e da dignidade da mulher.

Segundo dados das principais ONGs palestinas de ajuda às mulheres, pelo menos mil delas exercem a prostituição de forma constante na Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Como explicam em SAWA (All the women together today and tomorrow), “a necessidade é o melhor afrodisíaco, e a Palestina, com níveis de pobreza superiores a 20% no melhor dos casos, não é uma exceção”. Para elas, não há emprego: apenas 15,5% das palestinas com idade para trabalhar o fazem, diante de 67% dos homens (são dados médios; na Faixa de Gaza, por exemplo, o desemprego supera os 45%). Esses números, confirmam o Palestinian Central Bureau of Estatistics (PCBS), estão estancados há uma década, então mais uma vez a necessidade se converte no melhor caldo de cultivo da exploração: famílias com sete membros em média, um salário baixíssimo (cerca de 180 euros por mês), refugiados, com os movimentos limitados pela “força ocupante” israelita… “Isso faz com que em grande parte sejam as próprias famílias que cedam suas filhas, sabendo que um desconhecido vai destroçá-las”, mas precisam do punhado de notas, indica o relatório.

É o que aconteceu com Randa (nome fictício), que teve que sair de casa aos 15 anos, diretamente para o bordel. Foi seu pai quem decidiu vendê-la. Não sabe por quanto. Fez isso “por necessidade”, seis filhos e uma esposa para manter com o salário de pedreiro, mas não houve dor na sua decisão. Em 36,5% dos casos, são os pais que iniciam as filhas na prostituição e em 38,1%, os próprios maridos. O cinismo dos clientes é brutal quando, na pesquisa, mais da metade sustenta que estão convencidos de que as mulheres atuam “livremente”, de que são elas que se organizam e se administram e decidem se prostituir. Os mesmo homens que dão o primeiro passo no tráfico de brancas, inclusive do seu próprio sangue. Randa trabalha agora como vendedora em uma loja da Cisjordânia, cerca de três anos após sair da prostituição. Teve sorte: conseguiu escapar porque nos últimos tempos não trabalhava em um prostíbulo, mas para um cafetão particular, e este morreu de câncer. Não devia nada a ninguém. Ninguém lhe pediu contas de seu patrão. Fez as malas e se foi para outra cidade, e para outra, e para outra. Agora se sente segura. Seus filhos são sua luz diária. Nenhum dos dois nasceu do carinho, mas de violações de clientes. Saber quem são os pais é impossível. Ela não os vê como uma desgraça. Apoia-se neles, filhos ilegítimos tão repudiados pela sociedade quanto ela mesma. Dois garotos que hoje têm suas primeiras namoradinhas, às quais respeitam e cuidam. “As pessoas pensam que sou a viúva de um gazeu, tenho meu trabalho e meus filhos estudam. Mas há quem faça muitas perguntas…”, afirma, protegida pelo pessoal da ONG que a ajudou a empreender sua nova vida.

Batida policial em Jerusalém Oriental, em janeiro. A maioria das detidas era árabe e do Leste Europeu. / Polícia Local de Jerusalém

Seu caso é prototípico, casa bem com as pinceladas fundamentais do relatório da ONU: sofreu maltrato em casa, como 96,3% das prostitutas palestinas, especialmente por parte do pai; seu tio mais velho tentou abusar dela em várias ocasiões, mas sempre chegava alguma testemunha que impedia seus planos e ele só a tocou – os ataques sexuais de familiares são outro mal comum, sofrido por quase oito em cada dez prostitutas –; como 74% delas, Randa não terminou nem a educação básica, parou de ir à escola aos 11 anos para ajudar a mãe a costurar em casa; sua entrada no mundo da prostituição foi claramente forçada (como em 64,3% dos casos). “Na realidade, o percentual restante é de mulheres que escolhem o sexo por uma necessidade evidente; assim, ainda que o primeiro passo seja dado por elas, está longe de ser uma vontade”, esclarece o estudo.

A maioria das prostitutas da Palestina é proveniente da própria região, traficada entre Qalqilia, Hebrón, Tulkarem, Belém, Ramala e Jerusalém, principalmente. Antes do bloqueio, também chegavam de Gaza. Há exceções, como a escassa centena de garotas do Leste Europeu chegadas a Israel e levadas depois aos Territórios Palestinos. Ainda que a pressão social e a conotação religiosa façam do ofício um tabu absoluto, a ONU tem encontrado “provas claras de serviços de acompanhantes, casas privadas, bordéis e apartamentos supostamente familiares”; o mais comum, dizem, é que as garotas trabalhem em bordéis gerenciados por uma cafetina. “Uma tirana que nos dava de comer pão esmigalhado em leite uma vez por dia”, denuncia Randa, recordando sua primeira exploradora, que foi cúmplice de seu pai. Para se esconder de olhos curiosos, algumas máfias chegam a comprar casas em colônias judias da Cisjordânia, nas menos vigiadas, e aí planejam os encontros. Se há “urgência”, os edifícios abandonados ou em construção servem à função.

A maioria das garotas é solteira ou divorciada, captada por seu círculo mais próximo (família ou vizinhos). 43% das prostitutas casadas contraíram matrimônio quando tinham menos de 14 anos de idade e, para 58,3%, a primeira vez não foi consentida. “É nesses casamentos abençoados pela sociedade que, desde o princípio, ocorrem relações forçadas, agravadas pelo desconhecimento entre marido e mulher, as limitações da idade, o desconhecimento de seus corpos, sua dignidade e suas obrigações, o risco da submissão…”, indicam os especialistas. Muitas dessas adolescentes, já crescidas na humilhação, foram companheiras de Randa em vários bordéis da Cisjordânia. “A maioria se prostituía porque o marido exigia, para que lhe pagasse suas dívidas de jogo ou de drogas”, relata. É uma espiral quase irrompível: “Primeiro, seu marido te maltrata; depois, te oferece aos amigos dele em troca de dinheiro e por fim às pessoas às quais deve dinheiro ou ao traficante de quem quer droga. Às vezes acaba em um apartamento com uma cafetina e às vezes você mesma acaba se viciando em droga, e então, ainda que seu marido não esteja ou não exija, continua no sexo para pagar o vício”, acrescenta. A UN Women encontrou mulheres viúvas, iniciadas no mundo das drogas por causa de seus maridos, que depois de ficarem sozinhas continuaram oferecendo seu corpo em campos de refugiados como o de Shufat. Às vezes se conformavam com 20 shekels (uns 4 euros). Dinheiro, comida, roupa, créditos para o celular… qualquer coisa para respirar ou levar fundos à casa. “Encontramos mulheres entre 15 e 20 anos que são as mais velhas da casa e assim recebem para os menores. Há outras que vivem em zonas como Hebron, onde toda a indústria foi destroçada, e são as únicas que ganham um salário. Há aquelas cujos maridos estão presos por motivos políticos e as que ninguém quer contratar porque os soldados israelenses podem buscá-las e causar problemas. Há ainda a que recorreu ao sexo vendido para pagar a matrícula na universidade, como uma tentativa de ter outras oportunidades no mundo”, explica o relatório. Na maioria dos casos, elas não recolhem o dinheiro nem o administram senão por mediação dos cafetões, de forma que nem sempre conseguem tapar buracos. É ainda pior se as obrigam a buscar clientes em bares e restaurantes, porque são elas que precisam pagar o consumo. Calcula-se que apenas um terço dos serviços acaba em mãos das garotas. Foram documentados casos como o de uma jovem de Gaza que oferecia seus serviços em troca de um sanduíche. As que se queixam têm como represálias as surras ou as ameaças contra seus filhos. “São prisioneiras”, resumem os especialistas. E não denunciam por medo de perder suas crianças, de sofrer abusos ainda mais brutais ou de morrer.

A técnica do engano também funciona nessa terra: 15% das garotas acabam se prostituindo depois de receber papéis falsos para cruzar o Ramala ou Jerusalém Oriental, supostamente com o fim de trabalhar como faxineiras. As máfias também publicam ofertas de trabalho com salários entre 2.500 e 3.500 shekels (entre 500 e 700 euros, uma boa quantia) e, quando a garota se apresenta, perguntam-lhe sobre o dinheiro que sua família tem, se é casada, se tem doenças. “Se não for muito bonita ou estiver um pouco gorda, é dispensada na hora. Claramente, não buscavam nem empregadas domésticas nem secretárias nem vendedoras”, como os anúncios indicavam.

Uma mulher descansa em um aterro sanitário em Gaza. “A pobreza é o principal afrodisíaco”, constatam os especialistas.

A submissão dessas escravas – insiste o relatório – é mais intensa que em outras regiões do planeta por porvir de ambientes nos quais a voz da mulher não importa a mínima. O patriarcado leva as palestinas a terem um papel secundário, a uma dependência forçosa, “à vulnerabilidade e à exploração”. De fato, as poucas denúncias que existem são feitas por europeias, informa a Polícia Local de Jerusalém. A isso se soma o sofrimento de anos suportando golpes e abusos: segundo o PCBS, 61,9% das casadas sofrem maltrato psicológico na Palestina atual, sendo um terço físico e 11% sexual. A violência doméstica é um assunto privado, que não é divulgado nem denunciado por vergonha ou pelo dano à honra, essa que no último ano levou a vida de nove garotas, das quais ao menos duas estavam grávidas de seus próprios irmãos ou pais.

O divórcio não é uma opção, porque nem sempre as famílias abrem suas portas de volta para a mulher. Sem marido nem casa, chega-se à prostituição em um curto prazo de intenso desespero. Tudo vai se acumulando até formar a alma forçosamente submissa dessas mulheres que, além do mais, por cultura e desconhecimento, entendem o sexo como serviço absoluto ao homem, “que não é homem para alguma delas se não bate e se impõe”. “A isso se somam os problemas próprios da ocupação israelita, que se reflete nas casas e nos bordéis. Os homens que se sentem inseguros ou fracos podem escolher a violência para exercer controle sobre suas famílias, para recuperar a sensação de poder. Se você for humilhado em um posto de controle, é possível que depois vá para casa bater na sua mulher e ainda mais em uma prostituta, a qual é tratada com total impunidade”, assinala o estudo.

A Palestina, relativamente autônoma e no mínimo a alguns meses de se tornar independente, não tem leis que penalizem esses comportamentos, de forma que os vícios nunca são corrigidos. Há alguns restos de regulamentos do Egito e da Jordânia, as potências que controlavam alguns territórios antes da guerra de 1967, e em Jerusalém Oriental são aplicadas as leis de Israel, mas as dúvidas sobre qual texto é válido fazem que, no final, tudo vire água. Várias leis já estão sendo revisadas (maltratos, crimes de honra, divórcio…), mas o obstáculo continua: por exemplo, nos casos de estupro, fazem distinção entre vítimas virgens e não virgens, e se o delito for sobre as segundas, a pena é mínima (dois meses a dois anos de cadeia); não há pena nem multa se o estuprador concordar em se casar com a vítima e também não existem referências legais aos estupros dentro do casamento, como indica a legislação jordaniana de 1960. Ter um bordel pode levar a seis meses de prisão, e a pena para os cafetões é de seis meses a dois anos, ainda que a pena média nunca exceda um ano. É muito barato explorar a mulher. No caso puro da prostituição, as leis não a vinculam ao tráfico de seres humanos, por isso nunca se investiga essa outra “esfera delitiva indissociável”. Como se meter uma adolescente de Jenin em um caminhão e mandá-la com um visto falso ao bairro de At Tur (Jerusalém Oriental) não fosse comércio puro.

(AP Photo/Farzana Wahidy)

A polícia não é de grande ajuda: faltam meios, formação e sensibilidade, denunciam os autores do estudo. 94,1% das meretrizes não acreditam que os agentes a defenderiam se fosse necessário. Houve casos de garotas que buscaram proteção e, na hora, foram arrastadas para fora da delegacia por “uma centena” de familiares, clamando por vingança contra a puta que está manchando sua honra. Podem ser inclusive os mesmos que a iniciaram no ofício e a estupraram desde menina. “O mais doloroso é ver como a mulher perde totalmente sua capacidade de tomar decisões: controlam sua maneira de se vestir e lhe dizem como buscar um companheiro, precisam de um homem para abrir uma conta no banco, e depois são exploradas sem consequência legal alguma. O medo da reputação, as normas sociais, as tradições, a forma de entender o sexo e a violência calada alimentam esse caldo de cultivo de sofrimento”, conclui o documento. As que estão sob legislação israelita não estão em melhor condição, umas porque estão em Jerusalém Oriental de forma irregular, outras porque por motivos políticos temem recorrer aos agentes “inimigos”. O resultado é o mesmo: o desamparo absoluto. Vários médicos confessam à ONU que tentaram ajudar essas mulheres e encontraram respostas do tipo: “Não é assunto seu. Você é só um médico. Não meta o nariz onde não é chamado”. Quem recebeu semelhante freada acaba de atender uma menina de nove anos que era estuprada por vários familiares e que estava “à disposição” de quem quisesse, mediante pagamento.

O relatório conta com testemunhos de clientes que, sem rodeios, justificam a exploração sexual das mulheres. “Nossa sociedade é fechada e se você não for casado não há como conseguir sexo de outra forma”. “Vou pelo desejo ou para encontrar mais variedade sexual”. “Sabemos que há cafetinas para quem ligamos e que te mandam uma menina para casa quando você quiser”. “São uma boa maneira de nos iniciar no sexo”. “Fazem o que têm que fazer porque lhes dizemos para fazer”. A maioria dos clientes é composta de homens casados (58%), ou solteiros que não “aguentam” esperar até o casamento (32,8%). Há taxistas, comerciantes, advogados, professores e até algum estrangeiro dos muitos que se movem pelos Territórios Palestinos. Cada vez mais, acrescenta a ONU, os adolescentes entram nessa rede desumana. Na Palestina, existe a figura do teacher, o professor, um homem que leva bandos inteiros de meninos para tomar bebidas alcoólicas, drogas e, depois, “visitar as prostitutas”.

A prepotência dos clientes e a desinformação são os causadores da falta de proteção com que essas prostitutas enfrentam a aids. Segundo a UN Women, o limitado acesso a folhetos, conselhos, terapias e outras orientações sanitária as impede de escolher entre sua segurança e as ordens do explorador. Não podem negociar. Não é só questão de vontade, é que muitas não sabem o que é a aids, nem como se contagia: 39% delas admitem não conhecer seus riscos, diante de 1,6% dos clientes. Eles sabem, sim, mas enfrentam da superioridade (“Isso não pode acontecer comigo”): 81,2% dos homens acreditam não serem vulneráveis ao HIV; elas, quando conhecem e compreendem, confessam que se veem, sim, absolutamente expostas (78%). “Não há aids no Oriente Médio, os preservativos reduzem o prazer e além do mais aqui nosso ambiente é sadio. Eu faço com garotas jovens e limpas, elas com certeza não têm aids”. Com frases como essas, 64% dos clientes se negam a usar preservativos. É o que as moças dizem. Eles negam, só 14% deles confessam que nunca usam. O percentual pode ser ainda maior, suspeitam os especialistas, porque em não poucas ocasiões as jovens são usadas depois de terem sido narcotizadas. “Não sabem bem o que fazem com elas”. Os homens não usam preservativo, meio profilático básico para prevenir o contágio do HIV, porque “sentem menos prazer”, “é mais natural sem ele”, “custam muito dinheiro”, “causam infertilidade” ou, simplesmente, porque não querem. O risco aumenta então pelas secreções e pela possibilidade de troca de sangue, devido às feridas que podem surgir nas mulheres durante essas sessões de sexo brutal. As garotas que também consumem drogas sustentam que a troca de seringas é comum nos locais de programas.

O Ministério de Saúde da Autoridade Nacional Palestina registrou desde 1986 cerca de 19 casos de HIV assintomático (portadores) e 47 de aids desenvolvida, a maioria de homens jovens contaminados por relações heterossexuais. A OMS sustenta que essa estatística é muito questionável; também à saúde chega a desordem de uma má administração. Em todo o Oriente Médio e norte da África a epidemia está crescendo de forma constante, passando de 200 mil casos em 2001 a 310 mil em 2008. No mundo inteiro, calcula-se que há 33 milhões de pessoas com HIV. As prostitutas, por estarem mais expostas (más práticas, violência, trocas de parceiro), deveriam ter mais cuidado em sua prevenção, mas não é o caso: só 18,5% das mulheres fizeram o teste alguma vez, enquanto 81,5% nunca fizeram. Desconhecem totalmente que, se vão a um centro de saúde, têm direito a fazer o teste com absoluta confidencialidade. Têm mais medo da exposição que da doença em si.

Randa confirma o que as cifras da ONU narram. Chegou a ser submetida a nove homens em uma noite. A duras penas, recorda que já usou preservativo, e sempre que fez isso foi por exigência da patroa, não porque sua vontade tenha sido ouvida. Só fez um teste de aids em 21 anos, por exigência de um empresário alemão que se apaixonou por ela e foi seu cliente estável durante um tempo. Ficou sem trabalhar por dez dias depois que um cliente a estuprou repetidamente e bateu nela com um cassetete de borracha. Às vezes deixava seus filhos no bordel porque não tinha nem amigos nem dinheiro para garantir seus cuidados. Ainda se recupera da gonorreia que lhe provocou graves hemorragias. Fez se passar por mãe de umas prostitutas mais jovens para simular que iam às compras com permissão em Jerusalém. Aquelas moças ficaram na capital de forma clandestina e nunca mais se soube delas. Foi expulsa de um prostíbulo por se negar a recrutar garotas (“Não ia fazer com elas o que fizeram comigo”) e um dos sócios combinou de levá-la escondida em um carro a um povoado pequeno, onde a deixou vivendo nos arredores, no campo, uma zona inacessível, rodeada de um horto minúsculo e um poço, onde todas as noites os clientes lhe traziam algo para comer, para que ninguém a visse nem soubesse dela. Muita dor até que a morte do seu último patrão a libertou. Seu testemunho, tecido mais pelos voluntários do que por ela mesma, é cortante e cru. É o resultado das mãos que bateram nela, da força que a submeteu, da dor que a afundou. Agora tenta olhar para o futuro com seus filhos e seu emprego. Humilde e simples desejo de sobrevivência em paz. É o que deseja para suas antigas companheiras e para os 4,5 milhões de mulheres que hoje exercem a prostituição no mundo.

RECOMENDAÇÕES DO RELATÓRIO DA UN WOMEN

1) Redigir leis transitórias na Palestina para evitar a desproteção das mulheres prostitutas e sancionar os delitos a que são submetidas antes e durante sua exploração.

2) Fortalecer o papel da mulher no mercado de trabalho da Palestina, para impedir que se vejam forçadas a se prostituírem por necessidade. É preciso insistir em abrir várias vias em profissões tradicionalmente masculinas e áreas de inovação.

3) Treinar a polícia para dar assistência às vítimas e prevenir sua exploração e seu transporte ilegal.

4) Fixar um plano nacional contra a violência sexual e doméstica, a prostituição forçada e o tráfico de seres humanos.

5) Reforçar a educação igualitária e em valores para que não se repitam nos adultos os modelos de opressão e violência, com especial empenho em zonas rurais e áreas desestruturadas.

6) Facilitar o acesso à informação sobre o HIV e garantir testes privados e seguros.

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