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Carmen Rengel · Ramala (Cisjordânia, Palestina) / Tradução de Mariana Marcoantonio

  • Casais mistos de Jerusalém Oriental e Cisjordânia apostam seus vistos e gastam além da conta para viverem juntos em terra de ninguém
  • O risco de perder a residência ou as permissões de mobilidade os leva a comprar casas em solo muito caro, perto do muro, sem serviços nem proteção alguma
  • Mais de 60 mil árabes de Jerusalém ficaram do outro lado do muro de concreto, pelo traçado de segurança imposto por Israel

Tawfik and Samia, in their home close to the Qalandia checkpoint (West Bank)

O cerco da Palestina complica até os amores. Um cidadão da Cisjordânia, com absoluta limitação de movimentos, que não pode ir a Gaza e que só excepcionalmente e por tempo muito limitado tem visto para cruzar a Jerusalém Oriental, se vê quase forçado a encontrar a companheira na sua cidade, no máximo no vilarejo vizinho. Não há mistura, não há integração: háendogamia, e cada dia mais limitadora. Reduzem-se os laços de sangue e de amizade entre as comunidades palestinas históricas. Reforçam-se os compartimentos estanques. Resta namorar o vizinho. Não há outra. Isso ou o exílio, ou o drama. Há alguns anos, antes de levantarem 700 quilômetros de muro para isolar a Cisjordânia do resto de Israel, antes de bloquearem Gaza pelo triunfo eleitoral de Hamás, os casais palestinos de origem mista eram algo normal. As relações comerciais, a universidade, os transportes públicos, os bares ou as praças serviam para o encontro. Agora, são a exceção. A separação de um povo que cala até nas novas formas de família e, evidentemente, na sensação de unidade, de aliança e pertença ao grupo. Os palestinos dos Territórios e os da capital de Jerusalém são cada vez mais primos que irmãos.

Mas há quem resista, ainda que entre a cruz e a espada, ainda quando sua aliança de anos atrás não serve para viver em paz onde eles escolherem. Como SamiaTawfik. Ela é de Kuber. Ele, de Jerusalém Oriental. São casados há 27 anos. Cada um em seu padrão e com direitos tão diferentes. Vivem em Semiramis, um bairro muito próximo ao posto de controle de Qalandia, o mais importante da Cisjordânia.Estão do lado palestino do muro. No entanto, o solo que habitam é de Jerusalém. O formato perturbador da cerca de cimento deixou 60 mil árabes do outro lado, desconectados da cidade, pagando seus impostos como um cidadão do centro e sem receber nenhum serviço. São dados da ONU. Precisaram buscar esse canto empobrecido, esquecido por todos, onde a ANP – Autoridade Nacional Palestina – não tem poder para intervir, para que não os separem: Tawfik tem o status de residente em Jerusalém e, se não declara que tem uma casa e alguns gastos na cidade, perde sua identificação e os direitos que ela implica(saúde, educação e vistos de viagem, essencialmente). Samia, por ser cisjordaniana, não consegue permissão para viver em Jerusalém Oriental, porque as reagrupações familiares são a exceção entre as exceções. Então também não pode cruzar para viver do outro lado. Ainda que tecnicamente resida em Jerusalém, fisicamente está em um subúrbio de Ramala, entre os muros. Uma zona de ninguém onde todos cumprem as exigências delirantes, um bairro onde residem, segundo as Nações Unidas, cerca de 15 mil pessoas, em sua maioria famílias mistas que só querem se amar e viver na mesma casa.

O problema é ter uma casa do nível de Jerusalém com o salário de um cisjordaniano. É preciso pagar água, luz, telefone e impostos municipais (como o temido arnona, o imposto da casa, altíssimo em Israel). O problema, explica Samia, é que às vezes não há nem água, nem luz, nem telefone, nem serviços municipais. Nem autoridade à qual reclamar, porque nenhum funcionário ousa cruzar Qalandia para atender os vizinhos. Como Tawfik não pode viver em outro lugar que não seja reconhecido como “Jerusalém”, é preciso pagar esse preço e “o que os construtores pedirem”. Uma casa de 180 metros quadrados com três quartos grandes em uma zona normal de Ramala custa 150 dólares por mês. Por uma casa com metade do tamanho, esse casal está pagando 600 dólares, mais um mínimo mensal de 120 em impostos. “Um disparate”, o preço de cumprir com a burocracia. E olha que são afortunados, porque os dois trabalham e estão em uma “condição suportável”: ela é diretora de administração e finanças da PACA (The Palestinian Association for Contemporary Arts) e ele, chefe de departamento na Universidade de Birzeit.

Por isso, suportam o cemitério de carros abandonados na esquina, sem controle, em que o menor perigo é se espetar com um ferro ao passar; a falta de luz na rua (ao cair do sol, é a boca do lobo); oscontêineres de lixo transbordantes; os encanamentos que se quebram. Agora mesmo a rua está destruída. Está assim há cinco dias. Alguns operários foram asfaltá-la. Até agora, era tudo terra e pedras. Os vizinhos duvidam que o trabalho termine: a ANP não tem competências para se encarregar da obra e dos custos, e portanto a iniciativa, um acesso de raiva da vizinhança, pode não dar em nada se as permissões e o dinheiro não chegarem. Essas condições são as que fazem que alguns vizinhos em melhor situação econômica decidam buscar uma casa em outro lugar da Cisjordânia ao mesmo tempo em que alugam uma moradia neste canto de ninguém, uma casa que visitam uma vez por semana para justificar o gasto de luz e água e assim apresentar os recibos à Prefeitura de Jerusalém. Não serve uma casa pequena e ponto, não. Precisa ter o tamanho que deveria ter para as pessoas que supostamente vivem ali, porque Israel revisa os mapas e, algumas vezes, faz até fotografias aéreas das casas. Outros recorrem ao truque de ter como endereço oficial a casa de um parente em Jerusalém Oriental (em Beit Hanina, em Anata, em Sheikh Jarrah…), enquanto vive do outro lado da barreira de concreto, ferro e espinho, na casa da pessoa amada, perto da família escolhida. Técnicas desobrevivência.

Não é só uma questão de residência. É a pura rotina alterada. Uma família dividida. Samia e Tawfik têm duas filhas, Miral e Tamara, de 24 e 22 anos. Uma estuda nos Emirados Árabes. A outra acabou de se formar em Ramala. A mais velha nasceu apenas um mês depois de sua mãe receber a residência, então as autoridades se negaram a registrá-la como “palestina” porque Samia “era palestina há muito pouco tempo”. Levou dois anos para tirar a pequena do limboadministrativo em que se encontrava. Miral nasceu em Ramala, e por isso não pode ir a Jerusalém, a cidade do pai, embora viva em seu solo. Sua irmã, Tamara, nasceu em Jerusalém, porque o ginecologista de Samia estava viajando e recomendou que ela consultasse uma colega na capital. Eram tempos em que ainda era simples cruzar a fronteira. A menina foi registrada em Jerusalém, como seu pai. Dois e dois; dois com certa liberdade de movimentos, dois com permissões contadas. Estão dispostos a pagar por seu canto, por essa casa da qual não gostam, para que elas não sofram: estão em pleno processo de universidade e pós-graduação e suas possibilidades de estudar fora ou de conseguir uma bolsa podem ser menores pelas permissões ou vistos de viagem, que às vezes são dados por um ano, ou por três, ou diretamente negadas. “Uma não pode ir à Jerusalém, e a outra, se não viver lá, perde a residência… Bom, se não deixam minha filha sair para estudar por ficar sem residência, eu me mato, me mato… Como não vamos fazer esse esforço? No caso do meu marido e da minha filha mais nova, sempre fica o medo de que lhes aconteça alguma coisa no controle, porque cada dia é imprevisível. Podem te tirar a permissão de residência sem explicações. Você vai passar pelo posto de controle e de repente um soldado jovem pega uma tesoura, corta seu documento de residente e te diz: ‘Você não mora mais em Jerusalém’. Sem mais. Esse risco é constante”, lamenta a mulher. Catorze mil palestinos perderam essa permissão desde a Guerra dos Seis Dias, segundo a ONU, um dado que um relatório interno das IDF israelitas eleva a 140 mil no período de 1967-1994, conforme foi revelado no último dia 11 de maio pelo jornal Haaretz.

Às vezes não é fácil se manter firme. Às vezes os princípios fraquejam. O casal confessa que, em certas ocasiões, ficam tentados a ir viver onde quiserem em Ramala, renunciando à residênciajerosolimitana de Tawfik e Tamara, evitando o gasto que têm agora, o nervoso, as complicações. Mas depois pensam que é direitodeles e que não vão renunciar. Além do mais, insistem, isso não pode supor a cessão implícita de Jerusalém Oriental, o território que a ANP reclama como futura capital do Estado Palestino. Não ter a residência em Jerusalém supõe ficar como um apátrida, porque não é simples conseguir os papéis de permanência do outro lado, na Cisjordânia.“Você deixa de existir legalmente, não pode nem renovar a licença do seu carro, e a ANP ainda não tem entidade para poder nos ajudar com isso. Assim, eles vão passando os dias, confiando na sorte e nas permissões temporárias, como a que Samia tem agora mesmo, por alguns meses. Sabem como seriam duras as consequências se decidissem violar a chamada “lei de infiltração”, que vigia quem vive onde. Após o bloqueio imposto a Gaza há quatro anos, um cidadão da Faixa que viver fora dela pode chegar a pagar até 7 mil dólares de sanção, salvo em casos de reagrupação familiar, que são contados. O tempo médio de espera para sua concessão é de cinco anos, segundo denunciam ONGs como a B´Tselem. Há caso de mães que, porque foram visitar algum parente ou levar algum recado, acabaram ficando presas em Gaza, e não voltaram a ver seus familiares na Cisjordânia ou em Jerusalém. Isso é o que consola Samia e Tawfik, que elespodem ficar juntos. À base de desgaste, impotência e dinheiro, mas juntos. Porque há amores que burlam até os muros.

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