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Mónica G. Prieto · (Beirut) / Tradução de Janaína Marcoantonio
  • A comunidade GLBT, que participa das revoluções sociais como qualquer outra agrupação, vê uma oportunidade na “primavera árabe”.
  • Apesar disso, a homossexualidade é castigada com prisão em boa parte da região, quando não com pena de morte.
  • No Líbano, o país mais tolerante, mas não mais permissivo, várias ONGs lutam em nome de toda a comunidade regional.

Teddy, um bissexual libanês profissional da dança do ventre, se prepara para sua atuação. (Osama Ayub/AP)

Em meio ao milagre da Plaza Tahrir, ocorreram vários avanços ofuscados pela magnitude do desafio social de lutar contra décadas de ditadura egípcia. Mulheres e homens protestando de mãos dadas, cristãos e muçulmanos, laicos e fundamentalistas, direitas e esquerdas… Mas, sem dúvida, um dos fenômenos mais desconhecidos foi a inesperada aliança de homossexuais com os Irmãos Muçulmanos. Eles contam que compartilharam não só sonhos revolucionários, como também o espaço físico das tendas de campanha que surgiram em Tahrir, algo totalmente novo para uma organização fundamentalista como a Irmandade. E que a convivência durou exatamente o que durou a revolução.

“Depois, os mesmos homossexuais foram atacados pelos membros mais homofóbicos dos Irmãos Muçulmanos, que se negaram a trabalhar com eles. Isso não nos surpreendeu: nas agendas políticas, os homossexuais são sempre oprimidos de uma forma ou de outra”, explica Anthony Rizk, membro da Helem, a organização mais visível e ativa que defende os direitos da comunidade GLBT – Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais – no Líbano.

Apesar disso, o fato de que a comunidade GLBT do Egito tenha saído à luz devido à insurreição social dá esperanças aos homossexuais, bissexuais e transexuais do Oriente Médio. Em primeiro lugar, porque eles venceram um medo múltiplo: o temor à ditadura e à repressão de um Estado policial, e também à estigmatização social, tão comum na sociedade local.

Manifestação do orgulho gay em Beirute. (Hussein Malla/AP)

Isso leva a pensar que a primavera árabe só pode ser positiva para a comunidade mais discriminada e castigada do Oriente Médio e do Norte da África, que luta há anos por visibilidade e pelo mero direito a existir. Gays, lésbicas, bissexuais e transexuais árabes fartos de que seus governantes neguem sua simples presença, de que seus familiares os considerem uma vergonha e de que sua comunidade os trate como seres inferiores. “Não podemos antecipar mudanças, mas as revoluções favorecem a aparição de diferentes ideias, de diferentes partidos, do ativismo de todo tipo. E isso só pode ser positivo. É melhor que a estratégia do silêncio”, pondera Hiba Abbani, presidenta da Helem, a ONG mais ativa e visível da região.

Os ares de liberdade deram energia ao grupo, apesar da discriminação de que são vítimas, apesar dos tabus ancestrais que continuam a marcá-los e apesar da debilidade de sua posição. Um bom exemplo é a mais nova plataforma online da comunidade GLBT árabe, Ahwaa, um fórum de discussão onde seus membros podem compartilhar inquietudes e encontrar apoio, compreensão e conselhos baseados na experiência. Como dizer à família, como enfrentar colegas homofóbicos no trabalho ou na escola, como explicar sua condição sexual aos amigos de sempre… “Pode ser muito difícil – pelo menos, para mim, é – ver a si mesmo como um gay orgulhoso e um muçulmano praticante. Como lidar com isso?”, perguntava um usuário. É uma pergunta tão frequente no grupo quanto impossível de formular fora do mesmo.

Certamente, o diálogo, a informação e a aceitação são as coisas mais desejadas entre a comunidade GLBT árabe. Os mais privilegiados são, sem dúvida, os libaneses. Na sede da Helem, situada no belo edifício de Zico, uma residência de artistas perto do parque de Saadnayel, duas garotas se beijam em uma espécie de salão onde horas mais tarde será exibido o filme “Cisne Negro”. Alguns cômodos mais adiante, três jovens trabalham em seus computadores e atendem telefonemas.

Charbel Maydaa, responsável por programas da Helem, na sede da ONG. (Mónica G. Prieto)

Trata-se do coração dessa ONG, uma referência no Oriente Médio e no Norte da África, certamente por ser a única da região em situação legal, embora a homossexualidade – com efeito, “praticar atos contra a natureza” – seja considerada um delito no país do Cedro. O artigo 534 penaliza tais condutas com até um ano de cadeia, e é evocado por não poucos policiais para deter jovens nos fins de semana. Às vezes, estes são golpeados e logo liberados; outras vezes, vão presos. “A cada semana, temos duas ou três detenções, especialmente em Trípoli, só para que os policiais se divirtam”, explica Charbel Maydaa, responsável por programas da Helem. Trípoli, a segunda cidade do Líbano e foco do extremismo religioso sunita, é um lugar conservador demais para que os jovens possam apresentar de forma aberta um comportamento sexual diferente. “O baixo nível educativo e a situação econômica ruim os deixa ainda mais indefesos diante dos abusos policiais. Se você não conhece seus direitos, é mais vulnerável”.

A Helem lançou um programa, financiado pela Embaixada da Noruega, para formar ativistas em 28 localidades libanesas dedicados a auxiliar a comunidade GLBT em educação – “tem gente que telefona perguntando se podem fazer exame de urina conosco para saber se são gays” – e também para que conheçam seus direitos. “Os nascidos em Beirute são mais tolerantes com as pessoas diferentes. Nas outras regiões, as coisas não são tão fáceis. É importante o apoio da família, porque se a família te protege, a comunidade te respeita. Mas poucas famílias nas províncias vão defender um filho homossexual, e não pela religião, mas sim pela tradição cultural”, lamenta Maydaa. “Não existe educação sexual nas escolas que possa mudar essa cultura”.

E a cultura árabe pode chegar a representar um risco de morte para suas ovelhas negras. Os crimes de honra que se cometem contra as mulheres também afetam gays, lésbicas e transexuais, e todos aqueles cujo comportamento manche a suposta honra da família. “Desde 2004, tiramos duas pessoas do país porque sua vida estava em perigo”, prossegue Charbel. “O último, faz três meses, recebeu asilo na Bélgica após sofrer várias tentativas de assassinato nas mãos do tio, um alto oficial da Segurança libanesa”. O agressor em questão era um intocável, mas ainda que não ele fosse parte da máquina do Estado, a denúncia está fora do alcance de gays e lésbicas. “Não se pode recorrer a denunciar uma agressão na polícia, porque eles te prendem”, continua Hiba. “Especialmente nas zonas rurais, onde as tribos aplicam suas vinganças de forma mais autônoma. Tudo o que é relacionado com as famílias é tabu no Líbano”. O que ocorre dentro de quatro paredes fica entre quatro paredes.

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O risco enfrentado por gays, lésbicas, bissexuais e transexuais não é só existencial. Suas vidas se convertem em uma eterna corrida de obstáculos. “No colégio há bullying contra o garoto afeminado ou a garota masculinizada, e os professores costumam ser homofóbicos, o que encoraja os agressores. Mais tarde, existe a dificuldade de conseguir um emprego se sua aparência não é de um heterossexual. E, quando conseguimos, somos submetidos a salários mais baixos, a trabalhar mais horas que os demais, a qualquer coisa. Ameaçam nos mandar embora e impedir que sejamos contratados novamente”, prossegue Hiba.

Hiba e Anthony recordam em voz alta a última demissão de um jovem a quem sua empresa obrigou a fazer um exame de diagnóstico de Aids. Quanto a Charbel Maydaa, poucas coisas ainda a surpreendem no Oriente Médio. Ele trabalhou durante cinco anos com o programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, estudando a discriminação dos homossexuais em uma investigação que o levou a Egito, Iêmen, Iraque, Tunísia, Argélia… Cinco anos nos quais constatou o quão difícil continua sendo a sexualidade do indivíduo quando não se prende à heterossexualidade em uma sociedade arcaica e tribal como a árabe.

“O pior lugar é, sem dúvida, o Iraque”, reflete Charbel, interrogado sobre o ranking dos piores lugares para nascer homossexual. “O segundo lugar é o Iêmen, e o terceiro, com certeza o Egito”. Embora, no Egito, a homossexualidade não seja exatamente ilegal: o que é ilegal é a conduta obscena, a prática de perversões e o exibicionismo, e graças a isso há centenas de pessoas presas por suas preferências sexuais. No Iêmen, está vigente a pena de morte contra gays e lésbicas, tal como ocorre na Arábia Saudita. Tal pena é aplicada em poucos casos, mas é comum, no reino wahhabi, que os homossexuais sejam condenados a penas de prisão e a receber até 2 mil chicotadas. Na Palestina, a pressão social discrimina e empurra os homossexuais para Israel, onde são, com frequência, obrigados a se converter em informantes em troca de que sua identidade sexual não seja revelada. Nos Emirados Árabes, os detidos podem chegar a receber hormônios masculinos para “ser curados”, e na Síria a repressão social à comunidade GLBT é total. A aceitação é inconcebível. E, no Iraque, a guerra civil foi seguida de uma verdadeira campanha de limpeza sexual, durante a qual cerca de 500 homossexuais foram assassinados, muitas vezes pela própria polícia.

Campanha em Beirute contra o artigo 534, referente à homossexualidade. (Hussein Malla/AP)

Os únicos países da região onde a comunidade vive em relativa tranquilidade – muito relativa – são a Jordânia e o Líbano, considerado o paraíso dos homossexuais árabes graças à abertura relativa dos habitantes locais à comunidade GLBT e ao eco que eles têm tido na imprensa internacional. Seus lugares mais emblemáticos são bares como Wolf ou Bardo, em pleno Hamra; Life Bar, no setor cristão de Ashrafiyeh; ou Acid, a única discoteca gay do mundo árabe, que resiste aberta apesar das denúncias de vizinhos que, em mais de uma ocasião, provocaram o fechamento de suas instalações.

“Acreditamos que é nocivo que Beirute seja apresentada com a falsa imagem de refúgio de homossexuais”, insistem Anthony e Hiba. “Há uma boa situação para os que têm recursos econômicos, especialmente para os gays, mas a discriminação é um fato. Além disso, todo homossexual árabe que tenta se refugiar no Líbano é tratado como outro refugiado, e portanto tende a parar na prisão”. Foi o caso de Randa, a transexual argelina que relatou sua experiência a Periodismo Humano.

Graças ao trabalho da Helem, que tem advogados assessorando os mais de mil simpatizantes no Líbano, há cada vez mais ajuda ao refugiado que busca nesse país a aceitação que não encontra em seu lugar de origem. As coisas mudaram muito desde que a Helem foi legalizada quase por casualidade, mediante um vazio legal que a converteu na primeira ONG dedicada à comunidade GLBT do Oriente Médio. Em 2004, os responsáveis pela Himaya Lubnaniya lil Mithliyin, ou Proteção Libanesa para os Homossexuais, enviaram ao Ministério do Interior sua documentação para que a ONG fosse registrada. E não receberam resposta, nem positiva nem negativa. “Segundo a legislação, o fato de que pagamos e recebemos um comprovante do registro implica, perante um tribunal, uma prova de que o Estado nos reconhece”, explicava há quatro anos o então presidente da Helem, Georges Azzi.

Desde aquele silêncio administrativo, muitas coisas se passaram. Surgiram outras associações como a Meem – para lésbicas, bissexuais e transexuais -, e se consolidaram publicações como a Bekhsoos, uma revista semanal feita por e para a comunidade GLBT. Agora, a Helem trabalha em colaboração com o Ministério do Interior e também com o de Saúde, com quem elaborou o estudo “Homofobia nos serviços clínicos do Líbano”, o primeiro informe sobre como os médicos tratam todo comportamento sexual que não seja hetero.

Hiba Abbani, presidenta da Helem, na sede da ONG. (Mónica G. Prieto)

Os resultados são desoladores. A mostra inclui 72 médicos – tanto obstetras e ginecologistas como especialistas em Medicina Interna –, em sua maioria homens e casados: 60% deles define a homossexualidade como uma doença que precisa de atenção médica, e 72,9% consideram que requer atenção psicológica. Do total, 27,9% admitem conhecer homossexuais, e destes 63,2% consideram que a homossexualidade é uma opção pessoal. Para 72,1%, que acreditam não conhecer homossexuais, trata-se de uma doença mental ou física. Apenas 6,9% dos consultados receberam formação específica para atender a comunidade GLBT.

Esses dados se referem aos médicos libaneses, profissionais formados na Europa e nos Estados Unidos. É de temer que no resto da região a elite seja um mero reflexo de uma sociedade homofóbica e intolerante com todo comportamento que saia do tradicionalmente aceito. Isso, apesar da tradição homossexual em torno da História árabe, com poetas gays famosos como Abu Nuwas – um dos grandes clássicos árabes, do século VIII – a quem se dedicam avenidas em toda a região, ou o cantor Tuwais. E da dupla moral: a segregação sexual imposta pela interpretação do Islã resulta em demonstrações de afeto entre garotos e garotas que são chocantes para os ocidentais. Os jovens do mesmo sexo costumam andar de mãos dadas e se cumprimentam com beijos nas bochechas, se acariciam e se abraçam, algo completamente aceito.

“O problema não é ter relações homossexuais, e sim manter um relacionamento afetivo homossexual”, explica Abdi, pseudônimo de um muçulmano libanês que convive com seu companheiro em Beirute. Uma vez mais, o que ocorre da porta para dentro fica entre as quatro paredes. Por isso, muitos homossexuais árabes optam por sobreviver integrando-se à hipocrisia local. “Muitas lésbicas se casam com gays para manter as aparências e prosseguir com suas relações fora do alcance dos olhares”, admite Hiba. É o mais fácil: o contrário supõe viver em constante desafio para defender o mero direito de existir.

Já as lésbicas se consideram o estamento discriminado da comunidade GLBT. “Ser lésbica te desacredita inclusive perante outras mulheres. Acumulamos todos os estigmas da mulher, que na sociedade árabe já desempenha um papel secundário”, suspira a presidenta da Helem, que no entanto optou por lutar para mudar as coisas. E, como ela, muitas outras o fazem. A sua é não só a revolução pendente, é também a revolução inabarcável.

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