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Por Patricia Simón · Fotos: Javier Bauluz
Tradução de Janaína Marcoantonio

  • Menos de duas horas. Esse foi o tempo que um grupo de cidadãos asturianos precisou para impedir um despejo desde o momento em que souberam de sua existência.
  • Nas últimas semanas, a Plataforma de Afetados pelas Hipotecas e o 15-M evitaram que mais de 60 famílias perdessem suas casas.

Porta do edifício afetado pelo despejo enquanto a polícia tenta entrar no local (Javier Bauluz / Piraván)

Na manhã de 7 de julho, o movimento 15-M de Gijón havia convocado uma manifestação diante de alguns bancos da cidade para protestar por sua “avareza e responsabilidade na crise em que vivemos”, nas palavras de uma de suas participantes. A essa mesma hora, Ángel T. P. se apresentava nos tribunais da cidade para verificar se a solicitação de adiamento do despejo de sua moradia havia sido aceita. A ordem de despejo era para as 12h30 daquela mesma manhã, de modo que, não tendo encontrado uma resposta, ele foi, com poucas esperanças, pedir ajuda ao posto de informação permanente que o 15-M instalou na praça da Prefeitura. Graças às redes sociais e à coincidência com o protesto que estava ocorrendo naquele mesmo momento, apenas uma hora mais tarde umas 40 pessoas ocupavam as escadas e a porta de entrada de seu edifício para, pela primeira vez em Astúrias, impedir um despejo.

Ángel T. P. vive com a mulher e os dois filhos de 10 e 19 anos na residência reclamada pelo Banco Pastor. Ele conta que os problemas econômicos começaram há um ano, quando ficou sem trabalho e começou a não ter condições de pagar algumas das parcelas do financiamento imobiliário de 108 mil euros que havia contratado e que, com os gastos, terminaram se convertendo em 180 mil. Sua residência foi para leilão, mas, como tantas dezenas de milhares no país, foi assumida pelo banco diante da falta de comprador. No entanto, sem entrar em mais detalhes, Ángel explica que nas últimas duas semanas conseguiu juntar parte do dinheiro devido e depositá-lo em sua conta, mas que o banco não está mais interessado em paralisar o despejo.

Dois membros do 15-M de Gijón escutam o representante do Banco Pastor e o porta-voz da polícia local (Javier Bauluz /Piraván)

Tanto o representante da entidade bancária, como o serralheiro -contratado para trocar a fechadura após a expulsão – e os policiais locais que o acompanhavam pareciam surpresos ao ver a comitiva que o esperava no edifício. Pouco depois chegavam vários furgões com alguns policiais federais, bem como mais agentes da polícia local.

Depois de vários minutos de negociação com o porta-voz da polícia local, que pedia para subir à residência a fim de conversar com os proprietários, finalmente foi Ángel T.P. que, a uma distância de um metro e meio, escutou o policial quando este lhe comunicou que o desalojo seria suspenso “por hoje, mas que os problemas continuariam”. E acrescentou: “vamos ver se encontram um sistema melhor para solucionar este assunto”. Os aplausos retumbavam pelo eco da escada e os abraços atenuavam a incredulidade dos participantes diante da aparente facilidade com que o problema havia sido solucionado.

Esses homens e mulheres começam a reconhecer uns aos outros depois de tantas manifestações e concentrações. Mas vêm de profissões, áreas de interesse e, inclusive, cidades distintas. Agora conversam entre si, despedem-se carinhosamente e combinam de se encontrar no despejo seguinte. Porque também repetem em coro: “O próximo, vamos impedir”.
Miguel Ángel, encarregado dos despejos do 15-M de Gijón desde essa mesma manhã, explica, visivelmente consternado após o cancelamento temporário da ordem judicial, que eles já haviam planejado impedir outro despejo que acontecerá nas próximas semanas. “Trata-se de um caso muito distinto, de mobbing imobiliário. Uma senhora e sua filha, as últimas inquilinas que restam em um edifício adquirido por uma construtora que pretende expulsá-las para derrubar o imóvel e construir um novo.” Enquanto conversa conosco, recebe telefonemas de jornalistas de vários meios e suspira tentando acreditar que uma família continua tendo um teto sob o qual viver. Pelo menos por mais um dia.
O mês da rebelião contra os despejos

Em 15 de junho, o movimento que havia nascido exatamente um mês antes se unia à Plataforma de Afetados pelas Hipotecas (PAH) para impedir, pela primeira vez, um despejo em Madri, como parte de sua estratégia de expansão após se retirar da Puerta del Sol. Centenas de pessoas se concentraram nas escadas, na porta e na rua do edifício de Anuar, um cidadão de origem libanesa que tivera de fechar sua padaria em consequência da crise, e terminara encurralado entre a hipoteca e o empréstimo que o banco lhe havia oferecido e ele havia aceitado. O despejo foi proposto, e tinha início e o fenômeno de impedir pacificamente essas ações.

Cidadãos participantes da ação contra o despejo em Gijón (Javier Bauluz / Piraván)

Vinte dias depois, Anuar ainda não havia recebido nenhuma comunicação de seu banco. Tanto ele como Chema Ruiz, membro da PAH de Madri, confiam que antes do fim do verão a ordem de despejo não será emitida novamente. Enquanto isso, o recurso interposto por Anuar contra a vontade do banco segue seu curso, ao mesmo tempo que trabalham para conseguir que os Serviços Sociais coloquem à sua disposição uma moradia de proteção oficial. Anuar suspira emocionado quando, por telefone, recorda o que sentiu ao ver que centenas de pessoas se interpunham entre seu lar e aqueles que vinham executar a ordem de tomá-lo. “Antes desse dia, eu estava muito mal… mas é graças a todos eles que continuamos em nossa casa. Vamos ver se mais gente se anima a nos pedir ajuda [à Plataforma] e se conseguimos dar uma solução justa para este problema.” Anuar participa ativamente dos atos contra outros despejos organizados pela PAH.

O número de famílias que perderam sua moradia por procedimentos de despejo marcou um recorde histórico nos três primeiros meses deste ano. Mais de 15 mil famílias perderam seu lar, cerca de 36,3% mais que no mesmo período do ano anterior. Em periodismohumano, contamos como surgiu o movimento em Barcelona, por iniciativa de um grupo de cidadãos que compreendia que um dos efeitos mais notórios da crise financeira mundial e trabalhista na Espanha – alcançando a cifra de 5 milhões de desempregados – é que milhões de cidadãos estavam impossibilitados de pagar as caríssimas hipotecas que eles haviam contratado durante os anos da bolha urbanística.

Até o dia 15 de junho, a Plataforma de Afetados pelas Hipotecas havia conseguido paralisar uma dúzia de despejos na Catalunha. Desde que assumiram esta batalha como própria por parte do 15-M, já são meia centena os despejos evitados, mais de dois por dia. E não só de hipotecados, mas também de vítimas do “mobbing” imobiliário (proprietários ou construtoras que pressionam para expulsar inquilinos com aluguel defasado), ou , inclusive, famílias que ocuparam moradias de proteção oficial desabitadas, tal como ocorreu esta semana em uma localidade sevilhana.

A doação em pagamento e a substituição das parcelas da hipoteca por aluguéis de valor acessível são duas das propostas que a Plataforma defende desde o início, e que foram aceitas nos dois últimos despejos impedidos em Madri. Ao mesmo tempo, o presidente do Tribunal Superior de Justiça de Madri, Francisco Javier Vieira, declarou que está preocupado e que “é preciso buscar mecanismos para evitar que as sentenças não sejam cumpridas”. Mas admitiu: “precisamos encontrar fórmulas que sejam capazes de oferecer amparo e diminuir as injustiças.” Várias pessoas envolvidas na luta contra os despejos se mostraram preocupadas com a política que poderá vir a ser adotada contra suas ações a partir de setembro.

Enquanto isso, a cada dia há mais despejos a ser impedidos, anunciados na página web da Plataforma. O método empregado e praticamente infalível até o momento: bloquear o acesso à moradia com a mera presença física e de maneira pacífica. Como se demonstrou no caso de Gijón, até agora nem sequer foi preciso um grande número de participantes, nem tempo para organização, nem coordenação com outras plataformas. Apenas estar presentes e se apertar uns contra os outros quando há um pedido de ajuda.

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