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Mónica G. Prieto (Beirut)/ Traducão Pablo Moronta e Janaina Marcoantonio

  • A juventude árabe luta por romper os tabus a respeito da sexualidade, numa sociedade cada vez mais tradicional e religiosa.
  • Os casamentos por prazer, uma forma de prostituição encoberta, aumentam entre a nova geração, para satisfazer suas necessidades.
  • Proximamente, publicaremos uma reportagem sobre a situação da homossexualidade no mundo árabe.

Um casal muçulmano passa em frente uma loja de lingerie, em Beirute. (Mónica G. Prieto)

Quando a libanesa Randa Mirza começou sua pesquisa junto à italiana Giulia Guadagnoli, sobre o impacto de imagens do corpo humano nu e a percepção sexual na juventude árabe, o primeiro problema que encontraram foi que as palavras faltavam. Pelo menos, palavras em árabe. “Alguém disse que achava embaraçoso falar de sexualidade em árabe, e portanto optamos pelo inglês”. Aconteceu a mesma coisa com a doutora Brigitte Khoury, diretora do Centro Árabe Regional de Pesquisas e Treinamento em Saúde Mental, e sua assistente Sarah Tabbarah, quando lançaram o primeiro estudo pan-árabe sobre comportamentos sexuais: “Não falamos dessas coisas em árabe”, comentou um dos participantes.

É o motivo pelo qual, em público, escreve-se (e fala-se) sobre a sexualidade árabe em inglês, o idioma que começa controlar a nova geração, presa entre os clichês culturais conservadores, a repressão religiosa e as leis restritivas, mistura dos anteriores, que castigam a expressão sexual. O idioma é apena um símbolo da tentativa de ocultar – por pecaminosa – uma sexualidade tão latente como em qualquer outra sociedade, em que somente uns poucos se atrevem a desafiar todo um contexto social de limitações cuja transgressão implica duros castigos, como os impostos às jovens detidas pelas autoridades ou espancadas por suas famílias por conversar com garotos, ou aquelas lapidadas no Irã, no Iraque, na Arábia Saudita ou no Afeganistão, por manter relações sexuais extraconjugais, reais ou imaginadas, com seus vizinhos.

“Quando as mulheres se emancipam, sua moralidade é questionada”, garantia o professor Samir Khalaf, diretor do Centro de Pesquisas de Comportamento da Universidade Americana de Beirute, no seminário Juventude, Sexualidade e Auto-expressão no mundo árabe, convocado pelo Instituto de Assuntos Internacionais Issam Fares e pelo Instituto Goethe, realizado na primeira semana de abril de 2011, em Beirute. Cada vez mais mulheres se emancipam no âmbito laboral, inclusive no conservador contexto árabe, onde as mulheres já dispõem do mesmo nível educacional que os homens – ou até mesmo superior – e isso implica uma independência emocional e sexual. Algo intolerável no caso das mulheres.

Casal árabe tira fotografias de um aquário, em Dubai. (M.G.P.)

Segundo a já mencionada Brigitte Khoury, “embora a religião condene o sexo pré-conjugal, a sociedade o consente, mas só no caso dos homens”. Essa hipocrisia é a que exaspera Joumana Haddad. “Maha era uma jovem jordana de 24 anos. Ficou grávida após ser violada por um vizinho, seu irmão a espancou e a matou a facadas. Foi condenado a seis meses de prisão. O tribunal justificou suas ações alegando que ele tinha agido dessa forma diante do vergonhoso comportamento da irmã”, lembra a transgressora escritora libanesa. Cerca de cinco mil mulheres são vítimas de crimes de honra – uma forma de violência sexista com o agravante de ser aceito socialmente – a cada ano. E é um crime que só afeta as mulheres. “Dentre os homens, é considerado que quanto mais experiência sexual, melhor. Delas, no entanto, se espera que entreguem suas vaginas imaculadas na hora do matrimônio. Seus corpos são meras aquisições”, agrega Haddad.

Luta-se pouco por mudar essa realidade. Crimes de honra, casamentos arranjados, em sua maioria carentes de sentimentos, leis de família que só beneficiam os homens… Os problemas das uniões árabes são conhecidos, mas há muita ignorância sobre o sexo pré-matrimonial, pecaminoso e ilegal e, no entanto, praticado. O que é feito com toda essa energia sexual da juventude, à qual é negado a possibilidade de satisfazer suas necessidades até casar? Há dois caminhos: praticar sexo clandestinamente, que implica riscos – os celulares conectados via Bluetooth viraram o recurso favorito da juventude árabe para paquerar esquivando-se dos olhares indiscretos e da polícia religiosa – ou se refugiar nas fórmulas oferecidas pelos religiosos, uniões de prazer que nada têm a ver com a concepção, a intimidade ou o amor, mas só com o desejo deles, já que elas mal possuem direitos nessas uniões, das quais em muitos casos ignoram até mesmo a duração.

Jovens emiradenses checam seus celulares. (M. G. P.)

“Para a classe média, os casamentos temporários são a única forma de encontrar prazer”, ressalta Zainab Amery, libanesa, professora de Sociologia da Universidade de Otawa. Segundo a professora, em um número cada vez maior de mesquitas ocidentais os jovens são instados a procurar por esse tipo de acordo para evitar que se envolvam em relações sexuais com pessoas não muçulmanas. “Se antes eram exceções, agora são uma moda aceitável em lugares como Emirados, Omã, Arábia Saudita ou Kuwait”. E não estamos falando apenas do casamento temporário mais tradicional – a muta’a, no caso dos xiitas, ou o urfi no caso dos sunitas, uniões que se dissolvem quando o prazo acaba – mas de uniões como o misyar – não implica viver sob o mesmo teto e, portanto, resulta uma ótima alternativa para jovens sem recursos –, o misyaf, ou casamento temporário de verão – uma

forma de comprar uma amante sazonal sem cair em pecado – ou o mityar, quando o casamento é realizado durante uma viagem de trabalho e dura o que esta durar.

Segundo a professora Amery, a chave para que estas uniões tão questionáveis estejam em alta radica em vários fatores – desemprego e custo de vida elevado, entre outros, o que torna difícil custear as caríssimas bodas árabes – mas são “uma opção de sexo extramatrimonial” cada vez mais utilizada entre jovens universitários religiosos, que assim cobrem suas necessidades sexuais sem sentir remorsos. As mulheres que costumam aceitar essas uniões são, em sua maioria, divorciadas ou viúvas com necessidades econômicas – o homem sempre paga um dote à noiva – mas carecem de direito algum e, além do mais, perdem o apoio de suas famílias após se submeter a esse tipo de casamento. Em muitos casos, são pais de classes baixas que vendem suas filhas nesse tipo de união para conseguir dinheiro. Nessas situações, trata-se de uma forma de prostituição encoberta e legal “cada vez mais difundida no Oriente Próximo”.

Desfile de lingerie celebrado em pista de esqui em Faraya, Líbano. (M. G. P.)

Uma alternativa proscrita a essas uniões fomentadas pelos religiosos são os prostíbulos, outro assunto apaixonante na cultura árabe. Em muitos países, as prostitutas – muito poucas árabes, a maioria procedente de países do Leste Europeu – não vendem o corpo, mas viram uma espécie de psicólogas, como explicava Lenka Benova, responsável por um estudo sobre as mulheres empregadas em clubes noturnos de Amã. “Não vendem sexo. Falam com os clientes, brincam o jogo dos homens e eles vão ali para ser autênticos, mudar de ambiente e se sentir livres. Para elas, a chave está em postergar ao máximo o desfecho e aumentar, dessa forma, suas comissões por bebidas”. As garotas,

completa Benova, chamam a si mesmas de terapeutas. Sua situação é muito diferente da das profissionais que trabalham no Líbano ou na Turquia, onde os prostíbulos são exatamente isso. Na Síria e na Jordânia, por outro lado, os clubes cuidam muito de que as profissionais não sejam pegas mantendo contatos sexuais, já que isso implicaria ter de fechar o negócio.

Hipocrisia. Em árabe, existem 99 palavras para se referir a Alá e 100 para se referir ao “amor” – al hab – mas ninguém utiliza os termos vagina, clitóris ou pênis. Explica com certo humor tingido de desânimo a escritora Joumana Haddad, diretora da revista Jasad, a única do Oriente Próximo que versa exclusivamente sobre erotismo e é escrita em árabe. “Na literatura árabe, os peitos são montes ou montanhas, dependendo do tamanho; o clitóris é a flor do paraíso ou os bordes do céu, ou, se é particularmente talentoso, a porta do vulcão, e sobram metáforas fálicas. A metáfora deveria ser uma eleição e não uma imposição.” Sua crítica nua e crua à repressão sexual – assunto de “Eu matei Sherazade”, seu último livro traduzido ao português, lhe valeu inclusive ameaças de morte por parte de radicais, mas isso não implica que tenha refreado suas denúncias. “A liberdade não é monopólio do Ocidente. O sexo não é mau, mas sim o duplo discurso. O imoral não é o sexo, mas nossa hipocrisia”.

Jovens emiradenses paquerando com garotos de sua idade num shopping de Dubai. (M. G. P.)

A juventude árabe ainda tem um longo caminho a percorrer no que concerne à liberação sexual. Os dados apresentados pela professora egípcia Ghada Barsoum chamam a atenção. No Egito, onde 62% da população tem menos de 30 anos, 86% dos jovens se consideram religiosos e 90% das mulheres usam hijab. 94% dos que se consideram religiosos admitem que somente casariam com uma mulher velada, e somente 26% da população – eles e elas – consideram que a sociedade deve respeitar uma mulher que não cubra o cabelo. Somente 27% dos homens pensam que as tarefas do lar devem ser repartidas, 71% acredita que as mulheres devem obedecer e 61% que o dinheiro delas deve ser adminstrado por eles. Mas o que mais chama a atenção é que 41% das mulheres opinam que devem compartir tarefas domésticas, 49% quer obedecer e 37% entrega voluntariamente seu dinheiro.

A professora Shereen el Feki iniciou uma pesquisa junto a Barsoum acerca da juventude egípcia que fornece dados esclarecedores. 81% das mulheres e 40% dos homens se casam entre 25 e 29 anos. O restante dos homens se casa mais velho, com mulheres mais jovens que eles. O objetivo do primeiro ano é a reprodução: 90% dá à luz nos primeiros 12 meses de união. 70% deles e delas ficam felizes por finalmente manter relações sexuais. 70% dos divórcios são motivados por infidelidade masculina, mas somente um terço dos homens consideram uma divorciada – e, portanto, não virgem – respeitável. 85% considera que deve bater na mulher por falar com outro homem; um terço admite que infringiria lesões na mulher, se esta se recusasse a ter sexo com ele.

Jóvenes libaneses durante una fiesta celebrada en Byblos, el pasado verano. (M. G. P.)

Outra investigação, a cargo das mencionadas Khoury e Tabbarah, trata de dividir a sexualidade árabe. Está sendo difundido por Nasawiya, o ativo coletivo feminista árabe, mediante as redes sociais, mas somente 300 pessoas responderam as 159 perguntas de um questionário sobre hábitos sexuais. “Não é uma prioridade neste contexto de mudanças”, justifica-se Khoury. Das respostas coletadas, infere-se que 50% das mulheres e 35,9% dos homens se aventuram em sua primeira relação sexual por amor; 37,8% deles e 18,6% delas por prazer. Noventa e oito por cento dos homens e 86% das mulheres admitem se masturbar, e a maioria delas faz isso para “relaxar”.

O dado mais relevante é que 79% dos que responderam são libaneses, considerados os mais liberais do Oriente Próximo, embora isso também seja questionável. Isso explicaria que 56% das mulheres e 50% dos homens envolvidos na pesquisa consideram a virgindade nada mais um membrana, enquanto 20% delas e 17% deles gostam de pensar nela como um “presente” para a pessoa amada. Na realidade, a virgindade é considerada sagrada nos matrimônios árabes, e isso explica o auge da himenoplastia ou cirurgia de reconstrução do hímen, em voga no Oriente Próximo. “O mais intolerável é como elas aceitam tal humilhação”, lamenta Haddad.

As únicas que estão a salvo do estereótipo imposto pelos religiosos – recatadas, submissas, veladas – são as libanesas: maquiadas, decotadas, sinuosas e voluptuosas… e no fim das contas, tão recatadas como as demais. “Sempre que vêm estrangeiros, perguntam: de onde vem a erotização das libanesas? Eu tento explicar que é só uma mensagem: elas são atraentes, mas estão condenadas a não ser sexualmente ativas, porque quando o são, são desprezadas socialmente.”, explicava Samir Khalaf. Isso é comum a muçulmanas e cristãs no Oriente Próximo. “A religião é onipresente e a educação sexual é um conceito distante”, conclui Khoury.

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