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	<title>Jornalismo Humano -   As melhores reportagens de periodismohumano.com</title>
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	<description>Otro blog más de Periodismo Humano</description>
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		<title>O gosto de escravidão do pepino espanhol</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Jan 2012 12:52:31 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[General]]></category>
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		<description><![CDATA[By Patricia Simón / Photos: Javier Bauluz 
Translation: Mariana Marcoantonio

 


A crise provocada pelas autoridades alemãs ao apontar o pepino de Almeria como origem da epidemia de E. Coli desatou uma onda de indignação e patriotismo na sociedade esanhola e especialmente em alguns meios de comunicação.
Um vegetal que, como a maioria nessa província, é cultivado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;"><strong><span style="color: #000000;">By <a href="http://periodismohumano.com/autor/patriciasimon">Patricia Simón</a> / Photos:<a href="http://periodismohumano.com/autor/javierbauluz"> Javier Bauluz </a></span></strong></div>
<div style="text-align: right;"><span style="color: #000000;">Translation: Mariana Marcoantonio</span></div>
<div style="text-align: right;">
<p><span style="color: #808080;"> </span></p>
<p style="font-weight: bold; text-align: left;">
<ul>
<li style="text-align: left;"><strong><span style="color: #808080;">A crise provocada pelas autoridades alemãs ao apontar o pepino de Almeria como origem da epidemia de E. Coli desatou uma onda de indignação e patriotismo na sociedade esanhola e especialmente em alguns meios de comunicação.</span></strong></li>
<li style="text-align: left;"><strong><span style="color: #808080;">Um vegetal que, como a maioria nessa província, é cultivado por imigrantes que trabalham, em muitos casos, em condições de escravidão moderna.</span></strong></li>
</ul>
</div>
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<div id="attachment_119" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3047-600x600.jpg"><img class="size-full wp-image-119" title="IMG_3047-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3047-600x600.jpg" alt="" width="600" height="600" /></a><p class="wp-caption-text">Barraco no meio das estufas almerienses (Javier Bauluz / Piraván) Fotografias tiradas com Hipstamatic for iPhone, Lens: John S Flash: Off Film: Claunch 72 Monochrome</p></div>
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<div>
<p>Milhares de quilômetros de caminhos de terra ladeados por muros de plástico que deixam passar a luz suficiente para cultivar um negócio de 2000 milhões de euros anuais e que, por sua vez, ocultam a exploração de milhares de pessoas que tornam isso possível. Quarenta graus sob um sol escaldante, podendo superar os 50 dentro desse mar de toldos que cobre boa parte da província de Almeria – mais de 50 quilômetros quadrados – e que converteu essa fronteira sul da Europa em um laboratório industrial, econômico e social.</p>
<div id="attachment_120" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/Imagen-19-600x250.png"><img class="size-full wp-image-120" title="Imagen-19-600x250" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/Imagen-19-600x250.png" alt="" width="600" height="250" /></a><p class="wp-caption-text">Captura de tela do Google Maps que mostra parte da província de Almeria coberta por estufas</p></div>
<div>O pó levantado pelo carro se junta às camadas que vão escurecendo o plástico e que, com o efeito destrutivo do sol, obriga esses homens que vemos em cima de escadas e vigas, entre os quais ainda se emprega algum espanhol, a trocá-los anualmente. Os únicos letreiros que salpicam o caminho são os que anunciam “beringela Shakira. Eficaz, rendimento elevado e homogêneo” ou “pimentão Califórnia de maturação vermelha para transplante tardio”, algumas das novas variedades da temporada. Nessa colmeia, as ruas não têm nomes nem sinalizações decifráveis para os olhos de um visitante, mas estão infestadas deles para os seus habitantes. Por exemplo, ao dobrar uma esquina, um montinho de lixo putrefato atravessado por um córrego esverdeado procedente de um barracão de madeira anuncia que chegamos a um dos mais de cem núcleos de favela da província, onde vivem os trabalhadores em situação mais miserável. Hakim é um deles. Sai para nos receber junto com outros homens marroquinos que, durante os últimos três anos, foram construindo seus refúgios com paletes e restos do onipresente plástico de alguns cultivos que produzem 2 milhões e meio de toneladas de resíduos por ano. Dessa altura, a vista se perde em um horizonte que em algum ponto desemboca no mar Mediterrâneo, o que os separa uns 200 quilômetros de seu país, enquanto eles mergulham nesse outro oceano sob o qual desfalecem para conseguir seu sustento.</div>
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<div id="attachment_121" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/Imagen-131.png"><img class="size-medium wp-image-121" title="Imagen-131" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/Imagen-131-300x159.png" alt="" width="300" height="159" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: Conselho de Agricultura e Pesca da Junta de Andaluzia</p></div>
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<div>Cumprimentam cordiais, mas sérios. São onze da manhã e não estão trabalhando. Não é pouco comum. A crise iniciada no fim de maio com a acusação das autoridades alemãs, que indicavam a origem da epidemia sanitária da <a href="http://www.rtve.es/noticias/20110610/todo-hay-saber-crisis-pepinos/435576.shtml">bactéria E. Coli em Almeria</a>, e que custou a vida de mais de 30 pessoas e 3 mil afetados, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, afundou as exportações almerienses. A isso é preciso somar o fim da temporada de cultivos como o tomate e a melancia, dos mais importantes nesta época na região.</div>
<div>Hakim viajou do Tânger a Barcelona na carroceria de um caminhão quando tinha 19 anos. Mais ou menos dois dias de viagem, resistindo ao próprio peso, ao terrível calor do motor e ao medo de cair e morrer atropelado. Isso só para citar alguns dos pensamentos que passaram pela cabeça deste jovem e de centenas de outros que chegaram assim à península. Alguns morreram na viagem.</div>
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<div id="attachment_122" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3085-600x600.jpg"><img class="size-full wp-image-122" title="IMG_3085-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3085-600x600.jpg" alt="" width="600" height="600" /></a><p class="wp-caption-text">Hakim no barraco que divide com o primo e um amigo (Javier Bauluz / Piraván)</p></div>
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<p>Agora Hakim tem 22 anos, um sorriso que protege um discurso azedo e se abre em forma de riso nos momentos de maior gravidade. “Meu pai me dizia para ficar, mas eu tinha visto muitos amigos que vinham e voltavam para o Marrocos com carro, dinheiro, casa&#8230; E eu queria isso. Nós escutamos que as coisas estão ruins aqui, mas só queremos a Espanha.”</p>
</div>
<div>Estamos dentro do quartinho que Hakim divide com um primo e outro amigo. O chão é a própria terra que os cultivos das estufas em Almeria apenas roçam. As paredes, os paletes e plásticos descartados. O zumbido de algumas moscas chatas que quase nem se abalam diante dos tapas eletrifica o ambiente abafado. Quando precisa de trabalhadores, o chefe vem e pega as pessoas que quer. Cinco ou seis pessoas. Vamos à estufa e é trabalhar, trabalhar e trabalhar. Colhemos melancias, tomates, arrancamos as ervas&#8230; Todo o trabalho da estufa durante oito horas. No fim do dia pagam 20, 25 euros. Não tem contrato, não tem nada”.</div>
<div>
<div id="attachment_123" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3086-600x600.jpg"><img class="size-full wp-image-123" title="IMG_3086-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3086-600x600.jpg" alt="" width="600" height="600" /></a><p class="wp-caption-text">Ao cair da tarde os caminhos de Almeria se enchem de bicicletas. É o transporte mais utilizado pelos trabalhadores. O que vemos no fundo é a cozinha do barraco de Hakim (Javier Bauluz /Piraván)</p></div>
</div>
<p>E aí começa um dos becos sem saída que mantém milhares de pessoas na clandestinidade e na vulnerabilidade. Hakim não tem um contrato e, por isso, não pode solicitar a permissão de residência, apesar de que já poderia se amparar no período dos três anos de permanência estabelecido por lei. Por sua vez, sem permissão de residência, não pode aspirar mais que à clandestinidade e ao medo paralisante e contínuo de ser deportado depois de tantos anos de sofrimento, e à exploração praticada por alguns empresários agrícolas. O último convênio assinado entre estes e os sindicatos fixava em 44 euros o salário mínimo para uma jornada de oito horas. Mas, entre os trabalhadores com os quais pudemos falar, os mais bem pagos são os romenos, com um salário médio de 35 euros. E, segundo Hakim e outras fontes, os mais mal pagos são os subsaarianos, a quem, em certa medida, percebem como competição desleal. “Os negros trabalham por 10 ou 15 euros. Mas, quando o tomate vale muito dinheiro, paga-se 70 ou 80 centavos o quilo. O chefe ganha entre 5 mil e 7 mil euros por um caminhão; nós levamos entre duas e três horas para colher um caminhão e ele nos paga uns 9 euros.” Cifras que vão se encaixando em um quadrante no qual as margens de lucro vão aumentando exponencialmente até chegar à mesa do consumidor, onde nas grandes cidades pode-se chegar a pagar mais de 1,50 euro por um quilo de tomate.</p>
<a href="http://portugues.periodismohumano.com/2012/01/08/o-gosto-de-escravidao-do-pepino-espanhol/"><p><em>Click here to view the embedded video.</em></p></a>
<p>As autoridades públicas e as organizações de empresários agrícolas afirmam que em Almeria há tantos trabalhadores não contratados quanto em qualquer outra região. Mas a crise do pepino acabou de revelar as contradições entre o discurso e os valores oficiais. A comparação dos dados é impiedosa com as posturas oficiais. A Espanha é o segundo exportador de frutas, verduras e hortaliças do mundo, e Almeria, a terceira província com maior peso nesse setor, depois de Múrcia e Valência: 18,3% do total exportado pelo país. Segundo dados das cooperativas, em 2010 exportaram-se 3,7 milhões de toneladas, por um valor de 3.640 milhões de euros. No caso concreto dos pepinos frescos e em conserva, dos quais 87% procedem dessa província, foram 450 mil toneladas as que se dirigiram à União Europeia em 2010, majoritariamente à Alemanha, segundo dados de alfândegas no mesmo ano. Um setor estratégico da economia espanhola que, segundo a Federação Espanhola de Associações de Produtores Exportadores de Frutas e Hortaliças, sofreu algumas perdas semanais de 200 milhões de euros durante a crise do pepino.</p>
<div id="attachment_124" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/Imagen-91.png"><img class="size-medium wp-image-124" title="Imagen-91" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/Imagen-91-300x143.png" alt="" width="300" height="143" /></a><p class="wp-caption-text">Produção agrícola. Fonte: Conselho de Agricultura e Pesca da Junta de Andaluzia</p></div>
<div>Em consequência de tudo isso, o sindicato majoritário, UGT-Federação de Indústria e Trabalhadores Agrários (FITG),<a href="http://www.abc.es/agencias/noticia.asp?noticia=850364"> lamentava que 50 mil trabalhadores espanhóis</a> tenham sido afetados pela crise. Mas os dados publicados pelo Ministério do Trabalho e Interior sobre junho de 2011 revelam que o desemprego agrícola nesse mês só aumentou em 390 pessoas com relação ao mês anterior. E se o ampliarmos ao setor de serviços, que abrange tarefas como a manipulação ou o transporte dos alimentos, o aumento foi de 1.162 trabalhadores desempregados.</div>
<div>
<div id="attachment_125" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3118-600x600.jpg"><img class="size-full wp-image-125" title="IMG_3118-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3118-600x600.jpg" alt="" width="600" height="600" /></a><p class="wp-caption-text">Barracos em uma nave industrial abandonada (Javier Bauluz /Piraván)</p></div>
<p>Ambas as cifras são menores que as de junho de 2010, um mês em que as temporadas importantes acabaram, motivo pelo qual o desemprego costuma aumentar. Mas é mais: este ano havia mil afiliados a mais na Previdência Social no regime especial agrário, passando de 40.800 a 41.900 trabalhadores nesse setor. Alguns dados que dificilmente podem corresponder a um revés econômico que, com efeito, fez com que duas toneladas de vegetais terminassem diariamente no lixo e que, somado às constatações sobre o terreno e às denúncias feitas há anos por ONGs e sindicatos como o <a href="http://socalmeria.wordpress.com/">Obrero del Campo</a>, inevitavelmente nos levam a calcular que milhares de pessoas devem estar trabalhando sem contrato nessa província.</p>
<div id="attachment_126" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/Imagen-81.png"><img class="size-medium wp-image-126" title="Imagen-81" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/Imagen-81-300x201.png" alt="" width="300" height="201" /></a><p class="wp-caption-text">Contratos de obras e serviços temporários por produção. Fonte: Conselho de Agricultura e Pesca da Junta de Andaluzia</p></div>
</div>
<div>Algumas conclusões que terminam de se apoiar nos resultados do último censo de 2010: o número de estrangeiros registrados na província almeriense se multiplicou por nove na última década. Dos 15 mil habitantes de 1999 aos 170 mil novos habitantes de 2010, 128 mil eram estrangeiros. Deles, 65 mil procedem de países da União Europeia (28 mil deles da Romênia), e a outra metade do Marrocos (38 mil), da América Latina (19 mil), da África subsaariana (13 mil) e de países europeus não comunitários (5.200), nessa ordem. Ou seja, Almeria aumentou sua população com uns 90 mil estrangeiros procedentes de países empobrecidos, sendo que, destes, de 65% a 75% são homens. Mas o número de afiliados ao regime especial agrário é de apenas 41 mil pessoas, incluindo os espanhóis.</div>
<div>Para contrastar essas informações com as três principais associações de empresários agrícolas almerienses, nos colocamos em contato com a Associação de Jovens Agricultores de Almeria (ASAJA), a<a href="http://upaalmeria.es/"> União de Pequenos Agricultores</a> (UPA) e a <a href="http://www.coexphal.es/">Associação de Organizações de Produtores de Frutas e Hortaliças de Almeria</a> (COEXPHAL). Só a primeira respondeu às nossas perguntas através de sua assessoria de imprensa. Quando questionadas sobre quantas pessoas elas calculam que trabalham sem contrato na província de Almeria, a resposta é contundente: “Minha resposta tem que ser zero.” Sobre quanto estão pagando pela jornada de trabalho, a porta-voz de ASAJA afirma que estão pagando mais que os 44 euros estipulados por convênio “porque, em algumas ocasiões, oferecem alojamento, comida, bebida&#8230; serviços que não estão contabilizados”.</div>
<div>
<div id="attachment_127" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3172-600x600.jpg"><img class="size-full wp-image-127" title="IMG_3172-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3172-600x600.jpg" alt="" width="600" height="600" /></a><p class="wp-caption-text">Spitou Mendy em uma sede do SOC (J. B. /Piraván)</p></div>
</div>
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<p>Spitou Mendy, um senegalês formado em Filologia hispânica e professor de espanhol em seu país que emigrou para a Europa “como todos, porque somos refugiados econômicos”, se converteu em um rosto conhecido nos últimos anos. Como porta-voz do Sindicato de Obreros del Campo (SOC), deu cara e voz à organização mais combativa contra a violação dos direitos básicos desses trabalhadores. Após ver e sentir a miséria terceiro-mundista na qual essas pessoas vivem como se fosse um submundo invisível ou escandalosamente ignorado pela administração, mas também pelo rosto rico e desenvolvimentista que o rodeia, seu discurso combativo e sem rodeios parece ser um dos poucos que faz eco da miséria que assola esses trabalhadores. “Que o delegado de agricultura da Junta de Andaluzia diga que aqui não há mais trabalhadores indocumentados ou sem contrato que em outros lugares da Europa é&#8230; Acontece que essa mão-de-obra não tem custo agregado. E isso se chama roubo. A Administração está ajudando a afundar este país. E que eu, um cidadão estrangeiro, saiba explicar e dizer, lhes parece mentira. Parece impossível que um imigrante seja capaz de fazer uma análise da situação social.”</p>
</div>
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<div id="attachment_128" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/Imagen-42.png"><img class="size-medium wp-image-128" title="Imagen-42" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/Imagen-42-300x166.png" alt="" width="300" height="166" /></a><p class="wp-caption-text">Dados básicos de Andaluzia 2010 Fonte: Conselho de Agricultura e Pesca da Junta de Andaluzia</p></div>
<p>Do lado dos empregadores, dos empresários agrícolas, é preciso contar com as peculiaridades da agricultura intensiva. Juan Miralles, presidente de <a href="http://www.almeria.acoge.org/">Almeria Acoge</a>, reúne as dificuldades administrativas que esse coletivo encontra para fazer contratos: “O convênio para o setor estabelece que os contratos devem ter um ano de duração. E a agricultura aqui é sazonal e com picos de trabalhos pontuais muito importantes. Além do mais, pode haver imprevistos, como uma epidemia ou o que aconteceu com a E. Coli, que não haja trabalho, e o empresário é penalizado por manter o trabalhador contratado mesmo quando não tem receita. Os agricultores não estão interessados em não contratar formalmente as pessoas e se expor a multas de 60 mil euros, mas o marco legal não se adéqua à realidade desses cultivos.”</p>
</div>
<div>Isso mesmo nos conta um agricultor que espera uma quadrilha de homens e mulheres romenos para colher um caminhão de beringelas perfeitas e quase idênticas. É jovem e tem uma musculatura de academia. É filho de agricultores, formado em Informática, que acabou se encarregando do negócio familiar “porque, no fim das contas, garante o sustento”. A terra, perfeitamente traçada em fileiras de plantas do mesmo tamanho, compactadas e de cor chumbo, mostra que não se fertiliza mais com adubo natural. A agricultura intensiva se tornou significativamente mais complexa na última década, e a província não soube acompanhar, segundo esse agricultor: “É incrível que não haja uma só empresa de capital local que comercialize sementes, fertilizantes, ou uma só conserveira para embalar os tomates machucados que vão a Múrcia ou Valência para se transformar em tomate frito.” Miguel Ángel tem claro que as perdas ocasionadas pela acusação das autoridades alemãs não serão recuperadas, mas acrescenta que esse não é o único problema. “Tem vez que os preços são tão baixos que não vale a pena vender. Por exemplo, pelo quilo de beringela pagam 10, 15 ou 20 centavos. Então eu as deixo no acostamento do caminho – não por muito tempo porque multam –, para quem quiser pegar.”</div>
<div>Em um <a href="http://gustavoduch.wordpress.com/2011/06/01/pepinos-riesgos-para-muchos-beneficios-para-pocos/">artigo publicado </a>pelo membro do Conselho Científico de <a href="http://www.attac.es/">ATTAC</a>, Gustavo Duch, sobre a epidemia da E. Coli, afirmava: “O sistema em questão foi projetado para produzir algo parecido com alimentos, a custos muito baixos, tanto econômicos e sociais quanto ecológicos; mas que possam produzir grandes benefícios àqueles que se dedicam à sua comercialização. Os alimentos, longe de serem considerados uma necessidade e um direito, são entendidos como uma simples mercadoria.” E, para seguir essa máxima, a margem de lucro deve ser a maior possível. No caso do pepino, Duch calcula que “os esforços para cultivar, regar e colher um pepino representarão para o agricultor ou agricultora 0,17 euro por quilo vendido. A população consumidora pagará 1,63 euro por quilo. Ou seja, um lucro superior a 800%”.</div>
<div>
<div id="attachment_129" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3201-600x600.jpg"><img class="size-full wp-image-129" title="IMG_3201-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3201-600x600.jpg" alt="" width="600" height="600" /></a><p class="wp-caption-text">Uma jovem romena colhe beringelas na estufa de Miguel Ángel (Javier Bauluz / Piraván)</p></div>
</div>
<div>
<p>Há três formas de comercializar as colheitas: vendê-las a distribuidoras como Carrefour ou Aldi – que controlam 60% do comércio da UE –, diretamente aos comércios ou a cooperativas. Miguel Ángel venderá a uma distribuidora com a qual já tem o preço combinado antes de plantar. É mais baixo que o que obteria se, por exemplo, estivesse associado a uma cooperativa, mas é mais estável e assegurado antecipadamente: 30 centavos o quilo. Nos supermercados, será vendido a uma média de um euro o quilo. Três mulheres e um homem romenos colhem com o agricultor o caminhão de beringelas. “Eu lhes pago 35 euros pela jornada de 8 horas. Aqui trabalham hoje, recebem hoje.”</p>
</div>
<div>Dos 210 milhões de euros de ajudas aprovadas pela UE após a crise do surto de E. Coli, 37 serão destinados aos empresários espanhóis afetados – embora o governo espanhol tenha pedido 71 – e que não receberam subvenções previamente pela Política Agrária Comum (PAC), uns <a href="http://www.teleprensa.es/murcia-noticia-207556-almeria-sera-la-provincia-andaluza-que-menos-ayudas-agrarias-de-la-pac-reciba.html">6.500 agricultores que receberam 7 milhões de euros este ano</a>. Segundo o porta-voz da ASAJA, os empresários agrícolas já começaram a receber as resoluções das cifras que cada um receberá. À pergunta se os trabalhadores receberão parte dessas ajudas, responde: “Não, os trabalhadores têm outras vias para receber indenizações.” No entanto, os milhares de trabalhadores indocumentados e sem contrato que não puderam trabalhar esses dias, que, portanto, não receberam nenhum pagamento e que em muitos casos tiveram que ser atendidos e alimentados pela Cruz Vermelha e outras organizações humanitárias, não se beneficiarão de forma alguma dessas grandes cifras. Quantidades que em muitos casos serão recebidas por empresários que utilizam “mão-de-obra escrava”, como foi catalogada pela afamada instituição <a href="http://www.antislavery.org/spanish/default.aspx">Internacional Anti-Escravidão</a>, e que se esses jornalistas encontraram sem nenhuma dificuldade, é questionável que o Ministério do Trabalho, por exemplo, não encontre.</p>
<div id="attachment_130" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3120-600x600.jpg"><img class="size-medium wp-image-130" title="IMG_3120-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3120-600x600-300x300.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Telhado dos barracos construídos em uma nave industrial mal conservada (J. B. /Piraván)</p></div>
<p>Esse é o caso de um grupo de homens subsaarianos que vivem ao lado do barraco de Hakim. Dividem uma casa e enquanto um deles cozinha, o resto espera sentado em alguns sofás com a napa quase transparente de tão desgastada e outros sentados junto à porta. Continuamos rodeados de estufas, perto de um reservatório de água que o proprietário dessa casa deixa eles utilizarem para beber e tomar banho, mas não é potável, motivo pelo qual tanto eles como Hakim e seus vizinhos têm que gastar uma importante parte de seus salários para comprar galões de água engarrafada.</p>
</div>
<div>Não querem falar, estão há tempos sem trabalhar e não veem luz no fim do túnel. Não conhecem companheiros que puderam regularizar sua situação, sua comida costuma ser composta das verduras que encontram nos acostamentos ou que alguns de seus empregadores lhes dão, como agora, uma grande refogado de pimentão com cebola e tomate, e mal podem enviar dinheiro às suas famílias. Faz muito calor nesta sala escura, estão cansados de não ter trabalho e do racismo. Na escala social, eles são os últimos.</div>
<div>O sindicalista Spitou nos recebe em um porão convertido no centro do SOC, em um bairro da periferia de El Ejido, a localidade onde um surto de xenofobia no ano 2000 chamou a atenção dos meios nacionais e internacionais após o assassinato de uma jovem pelas mãos de um imigrante marroquino com problemas psicológicos; conhecidos já haviam alertado sobre seu estado clínico e solicitado que ele recebesse tratamento ou fosse internado, o que nunca ocorreu. O caso fez com que parte da população local espanhola <a href="http://www.ub.edu/penal/historia/ejido/principal.htm">se lançasse à caça do imigrante</a>: dezenas de casas e comércios foram incendiados e, durante dias, muitos deles não saíram à rua por medo de serem atacados.</p>
<div id="attachment_131" class="wp-caption alignright" style="width: 260px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/bauluz4.jpg"><img class="size-full wp-image-131" title="bauluz4" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/bauluz4.jpg" alt="" width="250" height="178" /></a><p class="wp-caption-text">Imigrantes em uma assembleia, escondidos entre as estufas de El Ejido em 2000 (J. B. / Piraván)</p></div>
</div>
<div>Seu prefeito, Juan Enciso, então do Partido Popular, teve um papel fundamental não apenas por ter sido omisso em sua obrigação de assegurar a seguridade cidadã, como também por ter feito <a href="http://books.google.es/books?id=RatqUwxJQeUC&amp;pg=PA111&amp;lpg=PA111&amp;dq=juan+enciso+racismo&amp;source=bl&amp;ots=7jfVvdmZ96&amp;sig=t_MZCZIjoQAyC6hRoFr7zwj_BTU&amp;hl=es&amp;ei=Mpl0TqnWKYSVswbdtIS0Cw&amp;sa=X&amp;oi=book_result&amp;ct=result&amp;resnum=3&amp;sqi=2&amp;ved=0CCsQ6AEwAg#v=onepage&amp;q=juan%20enciso%20racismo&amp;f=false">declarações constantes nas quais justificava a reação racista</a> com o ambiente de insegurança supostamente criado pela imigração. O então presidente do governo, <a href="http://www.revistafusion.com/2001/abril/entrev91.htm">José María Aznar, lhe apoiou declarando</a> “que era muito fácil criticar quando não se estava ali”, mas o ministro de Trabalho e Assuntos Sociais, Manuel Pimentel, pediu que se trabalhasse pela integração e criticou a atração dos imigrantes como mão-de-obra e a posterior negação de seus direitos como pessoas.</div>
<div>O resultado dessa desavença foi a demissão de Pimentel e a continuação de Enciso como prefeito, inclusive depois que este foi expulso do PP e montou seu próprio partido, o PAL, conservando seu posto como secretário de El Ejido durante os 8 meses que passou na <a href="http://www.elalmeria.es/article/almeria/545995/prision/sin/fianza/para/juan/enciso/jose/aleman/y/ambrosio/cuevas.html">prisão</a> por cinco graves causas que continuam pendentes, vinculadas a uma importante trama de corrupção. O prefeito que soltava a quem lhe</p>
<div id="attachment_132" class="wp-caption alignleft" style="width: 260px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/bauluz3.jpg"><img class="size-full wp-image-132" title="bauluz3" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/bauluz3.jpg" alt="" width="250" height="178" /></a><p class="wp-caption-text">A Polícia detém um imigrante por protestar contra os ataques xenófobos em El Ejido em 2000 (Javier Bauluz / Piraván)</p></div>
</div>
<div>perguntasse, sem pudor, que “às oito da manhã todos os imigrantes são poucos, às oito da noite sobram todos”, governou El Ejido durante 20 anos, exemplo vigoroso de um desenvolvimento insustentável que arrasa Almeria.</div>
<div><a href="http://portugues.periodismohumano.com/2012/01/08/o-gosto-de-escravidao-do-pepino-espanhol/"><p><em>Click here to view the embedded video.</em></p></a></div>
<div>Spitou viveu esta última década, histórica por umeconômico sem comparação, como trabalhador e sindicalista. E não viu nenhuma evolução. “Estou há dez anos em Almeria e sempre ganhei o mesmo. Quando cheguei, o imigrante tinha um valor, o empresário tinha que sair em busca de mão-de-obra. Hoje a precarização é uma grande bolsa de mão-de-obra indocumentada destinada a baratear os custos de produção. E assim retrocedemos a séculos atrás, em vez de avançar. Essas pessoas que vêm tornar possível o único sistema que pode nos salvar da crise, porque as pessoas continuam comendo, a agricultura continua e todo o mundo compra de Almeria. No entanto, os que conseguiram a permissão de residência ou a nacionalidade foram buscar uma vida melhor na Suíça ou na França, fazer o mesmo mas recebendo o dobro que aqui. Almeria não integra, não forma, não educa. Almeria explora.”<br />
“A única coisa que pensam de nós é que somos força de trabalho, não temos história, nem direito de sermos pessoas com dignidade. Mas eu venho de um país com cultura, tenho formação e muitos imigrantes como eu temos formação universitária, mas somos refugiados econômicos. Muitos companheiros jogaram a toalha. Depois de tantos obstáculos acabaram acreditando que não valem nada. Mas é preciso ajudá-los a recuperar a autoestima. Se não, nos matam vivos. Estão fazendo isso, a exploração ao máximo e a mensagem de ‘você não tem que saber nada, só render’. E os que temos voz para dizê-lo não somos amigos, precisamos nos unir.”</div>
<div>Spitou parece cansado. E está. Acaba de passar dois dias mostrando o subdesenvolvimento que habita em Almeria a uma equipe de jornalistas do norte da Europa que vieram fazer um documentário. Mas não é cansaço físico o que debilita Spitou, é o que os defensores de direitos humanos carregam onde são poucos os que se atrevem a levantar a voz e onde a resposta imediata é o assédio ou o isolamento. Teve de enfrentá-los quando acompanhou e figurou em uma reportagem do prestigioso jornal britânico The Guardian, intitulado <a href="http://www.guardian.co.uk/business/2011/feb/07/spain-salad-growers-slaves-charities">“Os cultivadores das saladas da Espanha são escravos modernos, segundo as ONGs”.</a> A imprensa e as autoridades locais trataram de desmentir o conteúdo da notícia, e a acusar Spitou e o SOC de prejudicar a imagem da província. “É uma vergonha que uma sociedade civilizada, moderna, se comporte assim hoje. Se tem gente que está reclamando algo tão básico como que as pessoas que trabalham das oito da manhã às nove da noite não ganhem menos que 37 euros, e os convênios dizem que precisam ganhar no mínimo 44&#8230; Mas ninguém quer pagar isso aos imigrantes. Claro que há espanhóis que ganham isso, como há espanhóis que ganham o seguro desemprego graças ao trabalho do imigrante que não está contratado. Pensamos que somos escravos porque nos obrigam. Essa é a base da servidão e é preciso aceitar para poder comer.”</div>
<div><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3138-600x600.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-133" title="IMG_3138-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3138-600x600.jpg" alt="" width="600" height="600" /></a></div>
<div>ASAJA defende que definir essas condições de trabalho como escravidão “é descabido. É um trabalho duro, tanto que houve etapas nas quais os espanhóis não quiseram fazer porque é sacrificado”.</div>
<div>Mas a rede de “servidão”, como chama Spitou, de “exploração trabalhista”, como catalogam outras organizações e sindicatos, ou de “escravidão moderna”, como denomina a ONG Internacional Anti-escravidão, não se limita aos trabalhadores das estufas. O disparatado crescimento econômico almeriense se tornou visível não só em número de carros licenciados anualmente – 20 mil carros de passeio entre 2004 e 2007, diante da queda a só 12 mil em 2008, com a chegada da crise –, ou nos “surtos verdes” em forma de chamativos jardins nas muitas novas rotatórias de El Ejido, como também os numerosos prostíbulos se multiplicaram nas estradas. E nos ângulos mortos de vias, estufas e barracos, também as bicicletas descansam estacionadas diante de quartinhos descascados. É o lar das escravas dos escravos.</div>
<div><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3102-600x600.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-134" title="IMG_3102-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2012/01/IMG_3102-600x600.jpg" alt="" width="600" height="600" /></a></div>
</div>
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		<title>Procurando a palavra ‘sexo’ em árabe</title>
		<link>http://portugues.periodismohumano.com/2011/12/12/procurando-a-palavra-%e2%80%98sexo%e2%80%99-em-arabe/</link>
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		<pubDate>Mon, 12 Dec 2011 17:14:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>periodismohumano</dc:creator>
				<category><![CDATA[General]]></category>
		<category><![CDATA[juventude arabe]]></category>
		<category><![CDATA[prostituicão encoberta]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[tabus]]></category>

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		<description><![CDATA[A juventude árabe luta por romper os tabus a respeito da sexualidade, numa sociedade cada vez mais tradicional e religiosa.

Os casamentos por prazer, uma forma de prostituição encoberta, aumentam entre a nova geração, para satisfazer suas necessidades.

Proximamente, publicaremos uma reportagem sobre a situação da homossexualidade no mundo árabe. ]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="subtitles">
<p style="text-align: right;"><a href="http://periodismohumano.com/autor/monicagp">Mónica G. Prieto</a> (Beirut)/ Traducão Pablo Moronta e Janaina Marcoantonio</p>
<ul>
<li><strong>A juventude árabe luta por romper os tabus a respeito da sexualidade, numa sociedade cada vez mais tradicional e religiosa.</strong></li>
<li><strong>Os  casamentos por prazer, uma forma de prostituição encoberta, aumentam  entre a nova geração, para satisfazer suas necessidades.</strong></li>
<li><strong>Proximamente, publicaremos uma reportagem sobre a situação da homossexualidade no mundo árabe.</strong></li>
</ul>
<div id="attachment_107" class="wp-caption aligncenter" style="width: 650px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC00161.jpg"><img class="size-full wp-image-107" title="DSC00161" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC00161.jpg" alt="" width="640" height="445" /></a><p class="wp-caption-text">Um casal muçulmano passa em frente uma loja de lingerie, em Beirute. (Mónica G. Prieto) </p></div>
<p>Quando  a libanesa Randa Mirza começou sua pesquisa junto à italiana Giulia  Guadagnoli, sobre o impacto de imagens do corpo humano nu e a percepção  sexual na juventude árabe, o primeiro problema que encontraram foi que  as palavras faltavam. Pelo menos, palavras em árabe. “Alguém disse que  achava embaraçoso falar de sexualidade em árabe, e portanto optamos pelo  inglês”.  Aconteceu a mesma coisa com a doutora Brigitte Khoury,  diretora do Centro Árabe Regional de Pesquisas e Treinamento em Saúde  Mental, e sua assistente Sarah Tabbarah, quando lançaram o primeiro  estudo pan-árabe sobre comportamentos sexuais: “Não falamos dessas  coisas em árabe”, comentou um dos participantes.</p>
<p>É o motivo pelo  qual, em público, escreve-se (e fala-se) sobre a sexualidade árabe em  inglês, o idioma que começa controlar a nova geração, presa entre os  clichês culturais conservadores, a repressão religiosa e as leis  restritivas, mistura dos anteriores, que castigam a expressão sexual. O  idioma é apena um símbolo da tentativa de ocultar – por pecaminosa – uma  sexualidade tão latente como em qualquer outra sociedade, em que  somente uns poucos se atrevem a desafiar todo um contexto social de  limitações cuja transgressão implica duros castigos, como os impostos às  jovens detidas pelas autoridades ou espancadas por suas famílias por  conversar com garotos, ou aquelas lapidadas no Irã, no Iraque, na Arábia  Saudita ou no Afeganistão, por manter relações sexuais extraconjugais,  reais ou imaginadas, com seus vizinhos.</p>
<p>“Quando as mulheres se  emancipam, sua moralidade é questionada”, garantia o professor Samir  Khalaf, diretor do Centro de Pesquisas de Comportamento da Universidade  Americana de Beirute, no seminário Juventude, Sexualidade e  Auto-expressão no mundo árabe, convocado pelo Instituto de Assuntos  Internacionais Issam Fares e pelo Instituto Goethe, realizado na  primeira semana de abril de 2011, em Beirute. Cada vez mais mulheres se  emancipam no âmbito laboral, inclusive no conservador contexto árabe,  onde as mulheres já dispõem do mesmo nível educacional que os homens –  ou até mesmo superior – e isso implica uma independência emocional e  sexual. Algo intolerável no caso das mulheres.</p>
<div id="attachment_102" class="wp-caption aligncenter" style="width: 650px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC_6814.jpg"><img class="size-full wp-image-102" title="DSC_6814" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC_6814.jpg" alt="" width="640" height="425" /></a><p class="wp-caption-text">Casal árabe tira fotografias de um aquário, em Dubai. (M.G.P.) </p></div>
<p>Segundo  a já mencionada Brigitte Khoury, “embora a religião condene o sexo  pré-conjugal, a sociedade o consente, mas só no caso dos homens”. Essa  hipocrisia é a que exaspera Joumana Haddad. “Maha era uma jovem jordana  de 24 anos. Ficou grávida após ser violada por um vizinho, seu irmão a  espancou e a matou a facadas. Foi condenado a seis meses de prisão. O  tribunal justificou suas ações alegando que ele tinha agido dessa forma  diante do vergonhoso comportamento da irmã”, lembra a transgressora  escritora libanesa. Cerca de cinco mil mulheres são vítimas de crimes de  honra – uma forma de violência sexista com o agravante de ser aceito  socialmente – a cada ano. E é um crime que só afeta as mulheres. “Dentre  os homens, é considerado que quanto mais experiência sexual, melhor.  Delas, no entanto, se espera que entreguem suas vaginas imaculadas na  hora do matrimônio. Seus corpos são meras aquisições”, agrega Haddad.</p>
<p>Luta-se  pouco por mudar essa realidade. Crimes de honra, casamentos arranjados,  em sua maioria carentes de sentimentos, leis de família que só  beneficiam os homens&#8230; Os problemas das uniões árabes são conhecidos,  mas há muita ignorância sobre o sexo pré-matrimonial, pecaminoso e  ilegal e, no entanto, praticado. O que é feito com toda essa energia  sexual da juventude, à qual é negado a possibilidade de satisfazer suas  necessidades até casar? Há dois caminhos: praticar sexo  clandestinamente, que implica riscos – os celulares conectados via  Bluetooth viraram o recurso favorito da juventude árabe para paquerar  esquivando-se dos olhares indiscretos e da polícia religiosa – ou se  refugiar nas fórmulas oferecidas pelos religiosos, uniões de prazer que  nada têm a ver com a concepção, a intimidade ou o amor, mas só com o  desejo deles, já que elas mal possuem direitos nessas uniões, das quais  em muitos casos ignoram até mesmo a duração.</p>
<div id="attachment_110" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC_6865-600x398.jpg"><img class="size-full wp-image-110 " title="DSC_6865-600x398" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC_6865-600x398.jpg" alt="" width="600" height="398" /></a><p class="wp-caption-text">Jovens emiradenses checam seus celulares. (M. G. P.)  </p></div>
<p>“Para a classe média, os casamentos temporários são a única forma de  encontrar prazer”, ressalta Zainab Amery, libanesa, professora de  Sociologia da Universidade de Otawa. Segundo a professora, em um número  cada vez maior de mesquitas ocidentais os jovens são instados a procurar  por esse tipo de acordo para evitar que se envolvam em relações sexuais  com pessoas não muçulmanas. “Se antes eram exceções, agora são uma moda  aceitável em lugares como Emirados, Omã, Arábia Saudita ou Kuwait”. E  não estamos falando apenas do casamento temporário mais tradicional – a  muta’a, no caso dos xiitas, ou o urfi no caso dos sunitas, uniões que se  dissolvem quando o prazo acaba – mas de uniões como o misyar – não  implica viver sob o mesmo teto e,  portanto, resulta uma ótima  alternativa para jovens sem recursos –, o misyaf, ou casamento  temporário de verão – uma</p>
<p>forma de comprar uma amante sazonal sem  cair em pecado – ou o mityar, quando o casamento é realizado durante  uma viagem de trabalho e dura o que esta durar.</p>
<p>Segundo a  professora Amery, a chave para que estas uniões tão questionáveis  estejam em alta radica em vários fatores – desemprego e custo de vida  elevado, entre outros, o que torna difícil custear as caríssimas bodas  árabes – mas são “uma opção de sexo extramatrimonial” cada vez mais  utilizada entre jovens universitários religiosos, que assim cobrem suas  necessidades sexuais sem sentir remorsos. As mulheres que costumam  aceitar essas uniões são, em sua maioria, divorciadas ou viúvas com  necessidades econômicas – o homem sempre paga um dote à noiva – mas  carecem de direito algum e, além do mais, perdem o apoio de suas  famílias após se submeter a esse tipo de casamento. Em muitos casos, são  pais de classes baixas que vendem suas filhas nesse tipo de união para  conseguir dinheiro. Nessas situações, trata-se de uma forma de  prostituição encoberta e legal “cada vez mais difundida no Oriente  Próximo”.</p>
<div id="attachment_104" class="wp-caption aligncenter" style="width: 650px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC00259.jpg"><img class="size-full wp-image-104" title="DSC00259" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC00259.jpg" alt="" width="640" height="480" /></a><p class="wp-caption-text">Desfile de lingerie celebrado em pista de esqui em Faraya, Líbano. (M. G. P.) </p></div>
<p>Uma alternativa proscrita a essas uniões fomentadas pelos religiosos  são os prostíbulos, outro assunto apaixonante na cultura árabe. Em  muitos países, as prostitutas – muito poucas árabes, a maioria  procedente de países do Leste Europeu – não vendem o corpo, mas viram  uma espécie de psicólogas, como explicava Lenka Benova, responsável por  um estudo sobre as mulheres empregadas em clubes noturnos de Amã. “Não  vendem sexo. Falam com os clientes, brincam o jogo dos homens e eles vão  ali para ser autênticos, mudar de ambiente e se sentir livres. Para  elas, a chave está em postergar ao máximo o desfecho e aumentar, dessa  forma, suas comissões por bebidas”. As garotas,</p>
<p>completa Benova,  chamam a si mesmas de terapeutas. Sua situação é muito diferente da das  profissionais que trabalham no Líbano ou na Turquia, onde os prostíbulos  são exatamente isso. Na Síria e na Jordânia, por outro lado, os clubes  cuidam muito de que as profissionais não sejam pegas mantendo contatos  sexuais, já que isso implicaria ter de fechar o negócio.</p>
<p>Hipocrisia.  Em árabe, existem 99 palavras para se referir a Alá e 100 para se  referir ao “amor” – al hab – mas ninguém utiliza os termos vagina,  clitóris ou pênis. Explica com certo humor tingido de desânimo a  escritora Joumana Haddad, diretora da revista Jasad, a única do Oriente  Próximo que versa exclusivamente sobre erotismo e é escrita em árabe.  “Na literatura árabe, os peitos são montes ou montanhas, dependendo do  tamanho; o clitóris é a flor do paraíso ou os bordes do céu, ou, se é  particularmente talentoso, a porta do vulcão, e sobram metáforas  fálicas. A metáfora deveria ser uma eleição e não uma imposição.” Sua  crítica nua e crua à repressão sexual – assunto de “Eu matei Sherazade”,  seu último livro traduzido ao português, lhe valeu inclusive ameaças de  morte por parte de radicais, mas isso não implica que tenha refreado  suas denúncias. “A liberdade não é monopólio do Ocidente. O sexo não é  mau, mas sim o duplo discurso. O imoral não é o sexo, mas nossa  hipocrisia”.</p>
<div id="attachment_105" class="wp-caption aligncenter" style="width: 650px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC_6913.jpg"><img class="size-full wp-image-105 " title="DSC_6913" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC_6913.jpg" alt="" width="640" height="425" /></a><p class="wp-caption-text">Jovens emiradenses paquerando com garotos de sua idade num shopping de Dubai. (M. G. P.) </p></div>
<p>A juventude árabe ainda tem um longo caminho a percorrer no que  concerne à liberação sexual. Os dados apresentados pela professora  egípcia Ghada Barsoum chamam a atenção. No Egito, onde 62% da população  tem menos de 30 anos, 86% dos jovens se consideram religiosos e 90% das  mulheres usam hijab. 94% dos que se consideram religiosos admitem que  somente casariam com uma mulher velada, e somente 26% da população –  eles e elas – consideram que a sociedade deve respeitar uma mulher que  não cubra o cabelo. Somente 27% dos homens pensam que as tarefas do lar  devem ser repartidas, 71% acredita que as mulheres devem obedecer e 61%  que o dinheiro delas deve ser adminstrado por eles. Mas o que mais chama  a atenção é que 41% das mulheres opinam que devem compartir tarefas  domésticas, 49% quer obedecer e 37% entrega voluntariamente seu  dinheiro.</p>
<p>A professora Shereen el Feki iniciou uma pesquisa junto  a Barsoum acerca da juventude egípcia que fornece dados esclarecedores.  81% das mulheres e 40% dos homens se casam entre 25 e 29 anos. O  restante dos homens se casa mais velho, com mulheres mais jovens que  eles. O objetivo do primeiro ano é a reprodução: 90% dá à luz nos  primeiros 12 meses de união. 70% deles e delas ficam felizes por  finalmente manter relações sexuais. 70% dos divórcios são motivados por  infidelidade masculina, mas somente um terço dos homens consideram uma  divorciada – e, portanto, não virgem – respeitável. 85% considera que  deve bater na mulher por falar com outro homem; um terço admite que  infringiria lesões na mulher, se esta se recusasse a ter sexo com ele.</p>
<div id="attachment_111" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC_5004-600x398.jpg"><img class="size-full wp-image-111" title="DSC_5004-600x398" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/12/DSC_5004-600x398.jpg" alt="" width="600" height="398" /></a><p class="wp-caption-text">Jóvenes libaneses durante una fiesta celebrada en Byblos, el pasado verano. (M. G. P.)</p></div>
<p>Outra investigação, a cargo das mencionadas Khoury e Tabbarah, trata  de dividir a sexualidade árabe. Está sendo difundido por Nasawiya, o  ativo coletivo feminista árabe, mediante as redes sociais, mas somente  300 pessoas responderam as 159 perguntas de um questionário sobre  hábitos sexuais. “Não é uma prioridade neste contexto de mudanças”,  justifica-se Khoury. Das respostas coletadas, infere-se que 50% das  mulheres e 35,9% dos homens se aventuram em sua primeira relação sexual  por amor; 37,8% deles e 18,6% delas por prazer. Noventa e oito por cento  dos homens e 86% das mulheres admitem se masturbar, e a maioria delas  faz isso para “relaxar”.</p>
<p>O dado mais relevante é que 79% dos que  responderam são libaneses, considerados os mais liberais do Oriente  Próximo, embora isso também seja questionável. Isso explicaria que 56%  das mulheres e 50% dos homens envolvidos na pesquisa consideram a  virgindade nada mais um membrana, enquanto 20% delas e 17% deles gostam  de pensar nela como um “presente” para a pessoa amada. Na realidade, a  virgindade é considerada sagrada nos matrimônios árabes, e isso explica o  auge da himenoplastia ou cirurgia de reconstrução do hímen, em voga no  Oriente Próximo. “O mais intolerável é como elas aceitam tal  humilhação”, lamenta Haddad.</p>
<p>As únicas que estão a salvo do  estereótipo imposto pelos religiosos – recatadas, submissas, veladas –  são as libanesas: maquiadas, decotadas, sinuosas e voluptuosas&#8230; e no  fim das contas, tão recatadas como as demais. “Sempre que vêm  estrangeiros, perguntam: de onde vem a erotização das libanesas? Eu  tento explicar que é só uma mensagem: elas são atraentes, mas estão  condenadas a não ser sexualmente ativas, porque quando o são, são  desprezadas socialmente.”, explicava Samir Khalaf. Isso é comum a  muçulmanas e cristãs no Oriente Próximo. “A religião é onipresente e a  educação sexual é um conceito distante”, conclui Khoury.</p>
</div>
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		<title>“Transformemos a ocupação em um movimento civil em defesa do direito à moradia”</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Sep 2011 22:04:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jesussanjurjo</dc:creator>
				<category><![CDATA[General]]></category>
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		<category><![CDATA[plataforma afetada pelo Mortgage]]></category>
		<category><![CDATA[Rafael Mayoral]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Patricia Simón · Tradução de Janaína Marcoantonio
     
 
 
 


    

    


A Plataforma de Afetados pela Hipoteca lança uma campanha para a ocupação de imóveis esvaziados por despejos
&#8220;Estão pagando os despejos com nossos impostos para jogar as pessoas na rua a fim de que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;"><strong>Por <a href="http://periodismohumano.com/autor/patriciasimon/">Patricia Simón</a> · Tradução de Janaína Marcoantonio</strong><strong><span style="font-weight: normal;"><strong><strong></p>
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<li><strong>A Plataforma de Afetados pela Hipoteca lança uma campanha para a ocupação de imóveis esvaziados por despejos</strong></li>
<li><strong>&#8220;Estão pagando os despejos com nossos impostos para jogar as pessoas na rua a fim de que os bancos fiquem com os imóveis vazios”, sentencia Rafael Mayoral, advogado da PAH</strong></li>
<li><strong>José Coy, co-fundador da PAH em Múrcia, anuncia um outono quente. &#8220;Temos que ir atrás deles porque eles vão continuar indo contra nós”</strong></li>
</ul>
<p>José Coy é um nome conhecido e respeitado em círculos de ativismo que, até agora, haviam permanecido em mundos paralelos para muitas pessoas. É bem conhecido por alguns dos sindicalistas veteranos de mineradoras e estaleiros asturianos desde a década de 1980, quando, junto com outros sindicalistas, viajou de Múrcia a Astúrias para levar comida e apoio aos familiares dos trabalhadores em greve de fome; é lembrado por aqueles que estiveram em Múrcia em 2001, quando quatrocentos imigrantes centro-americanos se trancaram em igrejas diante da reforma da Lei de Estrangeiros do então ministro do Interior, Jaime Mayor Oreja, que abriu as portas ao que na época era impensável e que hoje é uma <a href="http://madrilonia.org/?p=4976">realidade cotidiana</a>: a deportação dos imigrantes sem documentos. Centenas de trabalhadores se trancaram porque temiam ser deportados depois de anos trabalhando como escravos no campo murciano, sem nenhuma forma de renda, porque também se perseguia o emprego de pessoas sem papéis, ao mesmo tempo que terminavam seus últimos pacotes de arroz e feijão. Os que viveram essa crise humanitária relatam o incansável trabalho de José Coy, convertido em porta-voz da Plataforma de Imigrantes de Molina de Segura, acompanhando-os no protesto, falando com os meios de comunicação, coordenando a coleta de comida, enquanto continuava viajando pelos povoados murcianos vendendo roupa. Fazendo frente a essa luta, está o governo de Aznar e sua política para estrangeiros, que muitos defensores de direitos humanos definiram como “a caça ao imigrante”. Por ela, centenas de imigrantes passaram fome na Espanha, uma luta que Coy relembra agora como “a rebelião das lágrimas, porque há lutas que não se travam com golpes, mas sim com choro”.</p>
<div id="attachment_91" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/My-HipstaPrint-0-1-600x600.jpeg"><img class="size-full wp-image-91" title="My-HipstaPrint-0-1-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/My-HipstaPrint-0-1-600x600.jpeg" alt="" width="600" height="600" /></a><p class="wp-caption-text">José Coy na barraca do 15-M Gijón na Semana Negra (Javier Bauluz / Piraván)</p></div>
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<p style="text-align: left;">E agora, uma década depois, Coy é um dos fundadores da <a href="http://afectadoshipotecaregionmurcia.blogspot.com/2010/06/una-familia-murciana-pierde-su-vivienda.html">Plataforma de Afetados pelas Hipotecas (PAH) em Múrcia</a>, e não porque seu trabalho ou vocação seja criar organizações, mas sim porque este “sindicalista sem sindicato”, como ele se define, além de um cidadão ativo durante toda sua vida, é mais uma vítima dos desalojamentos, da crise financeira mundial e do papel que os bancos da Espanha vêm exercendo durante esses anos, como ele mesmo explicou em uma conversa na barraca que o <a href="http://www.gijontomalacalle.net/category/semana-negra-2011/">15-M de Gijón ocupou no festival cultural Semana Negra</a>, celebrado no fim de julho.</p>
<p style="text-align: left;">José Coy trabalhou nos setores mais representativos do levante espanhol: no campo, na indústria de conservas e finalmente no setor têxtil, até que o trabalho acabou. “Eu não falo da crise porque ouvi falar nela, mas sim porque estou em crise, dentro de todas as estatísticas: maior de 45 anos, sem prestações, sem direito sequer a passar pelo filtro de uma entrevista de trabalho&#8230; Vivi o que realmente é a globalização, que a indústria vá para a China porque lá os trabalhadores não têm direitos, nem é preciso lhes pagar dignamente&#8230; Assim, a primeira coisa que você faz quando fica sem trabalho é sofrer as respectivas depressões, vai à administração e tudo o que te oferecem é um comprimidinho”. Assim começa José Coy sua intervenção na barraca do 15-M, sem meias palavras.</p>
<p>Diante de umas trinta pessoas, a maioria integrantes do movimento 15-M de Gijón, expectantes, entregues a uma experiência que eles, como coletivo, acabam de viver pela primeira vez: o primeiro despejo interrompido em Astúrias com apenas quarenta pessoas ocupando a entrada do edifício, como<a href="http://periodismohumano.com/economia/dos-horas-y-40-personas-para-parar-un-desahucio.html"> contamos em jornalismohumano</a>. Quando um policial comunicou ao hipotecado a postergação do despejo, os participantes se abraçaram, comovidos pelo triunfo que enchia de conteúdo político palpável muitas noites e dias de acampamento. Agora estão diante das pessoas que lhes deram as chaves sobre como atuar, os que têm mais experiência naquele que se converteu em um dos sinais mais reconhecíveis do 15-M, desde que em 15 de junho <a href="http://periodismohumano.com/economia/la-rebelion-de-los-hipotecados-ante-los-desahucios-se-extiende.html">centenas de pessoas se concentraram em Madri</a> para evitar que Anuan e sua família perdessem a casa, e que deu à Plataforma de Afetados pela Hipotecas um empurrão impensável sem a aparição desse movimento ou, como define Coy, “um presente caído do céu”.</p>
<div id="attachment_92" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/My-HipstaPrint-0-600x600.jpeg"><img class="size-full wp-image-92" title="My-HipstaPrint-0-600x600" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/My-HipstaPrint-0-600x600.jpeg" alt="" width="600" height="600" /></a><p class="wp-caption-text">José Coy e Rafael Mayoral, da PAH, no 15-M Gijón (Javier Bauluz / Piraván) </p></div>
<p>Ao lado de Coy, está Rafael Mayoral, advogado da PAH, com o qual viajou de carro até Astúrias, como vêm fazendo há semanas a distintos lugares da Espanha para compartilhar seus conhecimentos, cobrindo os gastos com a venda de bilhetes de um sorteio de produtos ecológicos murcianos. Mayorga, que começou sua trajetória social no âmbito da imigração, prende a atenção da audiência, cada vez mais numerosa, com seu discurso contundente e esclarecedor sobre o processo pelo qual 204 mil famílias foram desalojadas de suas casas de janeiro de 2008 a junho de 2011. “Os bancos estão dando um preço absolutamente artificial aos imóveis para condenar a população trabalhadora a hipotecas impagáveis, sabendo que muitas delas não iam poder pagar. Desde o início, houve planos sistemáticos de roubo com base na compra e venda de casas que sempre vinham acompanhadas de contratos de empréstimos hipotecários, que eram agrupados e negociados no mercado internacional. E por isso era fundamental que os preços dos imóveis continuassem subindo. Uma condenação a uma dívida perpétua mediante um procedimento obscuro de execução hipotecária que a imensa maioria desconhecia. Quando alguém assume um contrato de empréstimo hipotecário por um imóvel avaliado em 240 mil euros, recebendo 180 mil euros de financiamento, jamais vai pensar que ainda ficará com uma dívida se o imóvel for confiscado”. E vai fazendo números, em um discorrer claustrofóbico, mas simples, condenatório. “No procedimento de execução hipotecária, você só tem duas opções: pagar ou pagar. E além das parcelas devidas, vão te exigir os juros, que são uma barbaridade, e às vezes, inclusive, os custos judiciais. Impagável. Quando leiloam o imóvel, como normalmente ninguém faz ofertas por ele, o banco costuma adquirir por 60% do valor estipulado. Então, se tua casa havia sido avaliada em 240 mil, você continua devendo mais de 100 mil euros”.</p>
<p>A Plataforma de Afetados pelas Hipotecas tem quatro propostas fundamentais: a regulamentação da doação em pagamento, isto é,  que a entrega da moradia suponha a quitação da dívida contraída com o banco; a moratória do pagamento das parcelas enquanto não se possua renda ou não se alcance o salário mínimo da profissão, e que depois não se cobrem juros; a substituição por um aluguel a um preço acessível no próprio imóvel; e a conversão das hipotecas referentes ao primeiro imóvel em alugueis sociais. A doação em pagamento, um termo praticamente desconhecido até a irrupção dos despejos paralisados pela Plataforma nos meios de comunicação, chegou a ser debatida no Congresso, mas os dois partidos majoritários, PSOE e PP, <a href="http://www.publico.es/dinero/362704/psoe-y-pp-en-contra-del-piso-por-hipoteca">votaram contra</a>. Apesar disso, o debate já está instalado na sociedade, um dos triunfos mais significativos da PAH e do 15M.</p>
<p>“Os bancos elegeram como objetivo os recursos da população vulnerável, permitiram autênticas estafas – tais como pessoas sem recursos que serviam de garantia mutuamente – e continuam na mais absoluta impunidade. E depois vem o despejo, pelo qual um juiz ordena à força pública o desalojo forçado de população vulnerável, que em muitíssimas ocasiões não tem outro lugar onde morar, o que desrespeita tratados internacionais firmados pela Espanha. Assim, quando a sociedade civil impede um despejo, está impedindo uma violação dos direitos humanos, o que é um dever frente à violência sistemática dos bancos com a cumplicidade da Administração Pública. Algum dia eles terão de pagar por isso”.</p>
<p>Coy fuma a seu lado, quase acendendo um cigarro com o anterior. É a história de centenas de milhares de pessoas neste país, é também a sua história. E começa: “Se não se pode pagar as parcelas, é porque não há trabalho. Eu não quero a doação em pagamento para minha casa. Eu solicitei que, enquanto não tivesse trabalho, não fosse para leilão. Como não me responderam, eu fiz greve de fome, e no quarto dia representantes do banco vieram à igreja onde eu estava trancado. Por enquanto, o leilão foi adiado”. Mas Coy acaba de participar da tentativa de paralisação de um despejo em Coronil, Sevilla, onde as tropas de choque conseguiram desalojar a família. “Os vizinhos do bairro avisaram que essa casa não será comprada por ninguém. Estamos pensando em criar sinais que estigmatizem esses imóveis, para dissuadir possíveis compradores”. E adverte sobre o sul da Espanha: “Há 400 mil pessoas abaixo da linha da pobreza, trabalhando sem descanso por 15 ou 20 euros, sem relação com a empresa porque são empregados por empresas de trabalho temporário… Em Lorca, tem gente pagando hipotecas de casas destruídas pelo terremoto. O sul não vai resistir”.</p>
<a href="http://portugues.periodismohumano.com/2011/09/21/%e2%80%9ctransformemos-a-ocupacao-em-um-movimento-civil-em-defesa-do-direito-a-moradia%e2%80%9d/"><p><em>Click here to view the embedded video.</em></p></a>
<p>Em Múrcia, onde começaram três e já são mais de trezentas famílias as que integram a PAH, já são mais de trinta os despejos impedidos pela plataforma. Mas diante das últimas intervenções das forças públicas nas tentativas de despejo, e das multas impostas a manifestantes valencianos por se reunirem mais de vinte pessoas na frente da porta de um banco, a PAH suspeita que a partir do outono se usará a violência</p>
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<p style="text-align: right;">Transformar a ocupação em um movimento da população civil para a defesa do direito à moradia</p>
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<p>necessária à efetiva execução dos despejos. Por isso, a PAH já lançou uma campanha de reocupação de imóveis vazios por execuções hipotecárias. Mayoral explicava já em julho a dimensão legal dessa proposta. “A questão é que já há famílias às quais não resta outro remédio senão enfiar-se em uma casa para morar, mas até agora isso não tem tido apoio social nem um sentido coletivo. A questão é transformar a ocupação em um movimento da população civil para a defesa do direito à moradia, em uma via para sua descriminalização com base no estado de necessidade. É como o furto famélico, ninguém pode ser penalizado por roubar algumas salsichas para sobreviver”.</p>
<a href="http://portugues.periodismohumano.com/2011/09/21/%e2%80%9ctransformemos-a-ocupacao-em-um-movimento-civil-em-defesa-do-direito-a-moradia%e2%80%9d/"><p><em>Click here to view the embedded video.</em></p></a>
<p>A PAH tem a consistência própria de um movimento que foi amadurecendo durante os anos desta crise que se tardou em admitir e da qual supostamente estamos saindo há meses. Começou em 2009, impulsionada por Coy como um movimento de desempregados, “mas foi muito complicado porque o que as pessoas queriam era trabalho, e nós não tínhamos como lhes dar isso. Conseguimos influenciar na gestão do Plano E, propondo que os mais necessitados fossem contratados prioritariamente. Mas começaram a surgir líderes e, como sempre, os políticos os compraram.” Foi nesse momento que se deram conta de que muitos deles, além da falta de trabalho, estavam sendo encurralados pelas hipotecas. Quando foram denunciar o primeiro caso de um casal que enfrentava um despejo executado pela Caja del Mediterráneo (CAM), se depararam com jornalistas que lhes diziam que não podiam divulgar a história porque essa entidade investia muito dinheiro em publicidade em sua publicação. “Aí nos demos conta de que estávamos mexendo com o poder”. E aí começou sua batalha contra os bancos – como salientam, e não contra os proprietários privados. Dentro dos marcos da legalidade e da não-violência.</p>
<div id="attachment_93" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/Imagen-26-600x287.png"><img class="size-full wp-image-93" title="Imagen-26-600x287" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/Imagen-26-600x287.png" alt="" width="600" height="287" /></a><p class="wp-caption-text">Captura de tela na qual vemos Coy no despejo deitado diante da grade da casa do Coronil</p></div>
<p>“A imagem das tropas de choque expulsando as famílias para a rua não é uma imagem cômoda para os juízes nem para os políticos, porque tornou visível a violência implicada na expulsão de uma família para a desocupação de um imóvel. Mas se não formos capazes de ampliar o movimento, eles vão nos reprimir, vão nos multar e vão nos esmagar. Por isso, em Múrcia conseguimos que cada bairro tenha seu próprio piquete cidadão, de umas cinquenta pessoas. A ocupação tem que servir para meter o dedo no olho do banco, como elemento de denúncia pública, mas também como medida de sobrevivência, porque tem gente que precisa escolher entre pagar o aluguel e comer“, explica Coy.</p>
<p>“A Constituição diz que a propriedade tem de cumprir sua função social e as casas são para que as pessoas morem, e não para que os bancos especulem. Se a ocupação se converter em um movimento de milhões, eles não poderão nos impedir”, conclui Mayoral. “Os despejos estão sendo pagos com o dinheiro de nossos impostos. Enquanto isso, não vimos nenhuma detenção de nenhum conselho de administração, nem nenhum procedimento judicial contra os principais responsáveis pela crise. E é preciso lembrar que quando os bancos não eram capazes de vender os títulos das hipotecas, foi o Estado espanhol que os comprou. E boa parte da dívida que está ameaçando os centros de educação e de saúde, tem relação com esse gasto e, portanto, é absolutamente ilegítima, e temos o direito de pedir que não seja paga. Para começar, nem um centavo público a entidades que não respeitem os direitos humanos”.</p>
<p>Coy, por sua experiência na PAH, mas também como desempregado, está convencido de que é preciso criar um novo modelo em que “haja justiça social, porque o da igualdade de oportunidades é mentira. Estamos investigando projetos de Economia Social, comunidades autofinanciadas, cooperativas, empréstimos solidários… porque como desempregados, se pedirmos aos bancos, eles não vão nos emprestar nada”.</p>
<p>E as mãos vão se erguendo, muitos para se oferecer como voluntários, outros para saber sua opinião sobre a resposta pacífica às agressões policiais, sobre o papel que vêm exercendo os sindicatos, o acesso ao aluguel&#8230; Perguntas às quais Coy e Mayoral vão respondendo e que podem ser escutadas no áudio de sua conversa que estão disponíveis ao final deste texto. Preocupações políticas, mas também histórias pessoais, que em nenhum momento se desvinculam totalmente, dramáticas, e que vão se somando ao burburinho das ações e manifestações convocadas para o outono: 25 de setembro em toda a Espanha, convocada pela PAH pelo direito à moradia, 15 de outubro manifestações em todo o mundo convocadas pela Democracia Real Já…</p>
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<p style="text-align: right;">Para chegar ao coração e à cabeça das pessoas, é preciso trabalhar muito</p>
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<p>E, caderneta em mãos, muitos dos presentes vão anotando datas com a certeza de que a maioria voltará a se encontrar em praças e marchas. Muitos carregam o mesmo prognóstico cinza de Coy. “Não se pode tolerar que Botín tenha um processo judicial pelo dinheiro escondido na Suíça, ou que o IBEX 35 esteja ganhando mundos de dinheiro… Temos que ir atrás deles, porque eles vão continuar indo contra nós. De fato, eu acredito que os distúrbios que vimos na Grécia vão chegar aqui. O problema é que tenho experiência de cenários de choque muito violentos e logo as pessoas votam nos carrascos. Como o relatório divulgado pela FAES, que prevê una guerra social pela quantidade de greves que vão ocorrer em 2012. Mas para chegar ao coração e à cabeça das pessoas, é preciso trabalhar muito. Acredito que a primeira vez que as tropas de choque avançaram sobre a Praça da Catalunha o fizeram dessa forma tão selvagem porque queriam que a resposta fosse queimar carros. Mas as pessoas levantaram as mãos e as praças voltaram a se encher quando começavam a esvaziar. Temos que trabalhar com a cabeça. Mas vejam bem, sei de uma pessoa que era muito pacífica, até que foi duramente espancada. Eu, por enquanto, prefiro que me prendam e me agridam. Depois, não sei”.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>O Chile sai às ruas novamente</title>
		<link>http://portugues.periodismohumano.com/2011/09/20/o-chile-sai-as-ruas-novamente/</link>
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		<pubDate>Tue, 20 Sep 2011 22:28:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jesussanjurjo</dc:creator>
				<category><![CDATA[General]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
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		<category><![CDATA[manifestações]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Yasna Mussa · (Santiago do Chile) · Tradução de Janaína Marcoantonio

Desde a década de 1980, em plena ditadura de Augusto Pinochet, não se viam tantas pessoas marchando pelas principais ruas chilenas.
Todas as quintas-feiras de junho, mais de 200 mil chilenos em Santiago e uns 400 mil no resto do país se manifestaram durante horas sob um mesmo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;"><strong><strong>Por <a href="http://periodismohumano.com/autor/yasnamussa/">Yasna Mussa</a> · (Santiago do Chile) · Tradução de Janaína Marcoantonio</strong></strong></div>
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<li><strong>Desde a década de 1980, em plena ditadura de Augusto Pinochet, não se viam tantas pessoas marchando pelas principais ruas chilenas.</strong></li>
<li><strong>Todas as quintas-feiras de junho, mais de 200 mil chilenos em Santiago e uns 400 mil no resto do país se manifestaram durante horas sob um mesmo lema: recuperar a educação como um direito gratuito e de qualidade.</strong></li>
</ul>
<div id="attachment_67" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/estudiantes-chile-ap.png"><img class="size-full wp-image-67" title="estudiantes-chile-ap" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/estudiantes-chile-ap.png" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Manifestação de estudantes, professores e pais em prol da educação. 16 de junho de 2011, Santiago do Chile (AP Photo/Roberto Candia)</p></div>
<p>Desde a década de 1980, em plena ditadura de Augusto Pinochet, não se viam tantas pessoas marchando pelas principais ruas chilenas. Todas as quintas-feiras de junho, mais de 200 mil chilenos em Santiago e uns 400 mil no resto do país se manifestaram durante horas sob um mesmo lema: recuperar a educação como um direito gratuito e de qualidade.</p>
<p>Em 30 de junho, realizou-se uma grande manifestação em prol da educação, em que diretores, professores, estudantes e pais marcharam pelas mesmas demandas que haviam levado à ocupação de cerca de quinhentas escolas públicas e privadas, à paralisação da maioria das universidades e, recentemente, à ocupação estudantil das sedes de dois partidos políticos emblemáticos.</p>
<p><span id="more-66"></span></p>
<p>Ricardo estuda sociologia na Universidade do Chile. Para poder estudar, precisou se candidatar a um crédito solidário que a universidade oferece, mas que, em seu caso, o percentual subsidiado não é suficiente para cobrir o total da mensalidade. Para completar seu saldo, precisou pedir um crédito aos bancos privados, que estabelecem os juros livremente, aumentando sua dívida em quase 200 por cento. Essa é a realidade da maioria dos estudantes chilenos e a principal motivação para sair às ruas.</p>
<div id="attachment_70" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto10.jpeg"><img class="size-full wp-image-70" title="foto10" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto10.jpeg" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Marcha do dia 16 de junho pelas ruas da Alameda de Santiago do Chile (Y. M.)</p></div>
<p>Há cinco anos, surgiu a chamada “revolução dos pinguins”, um movimento liderado pelos estudantes de ensino médio que se caracterizou pela clareza de suas demandas, pela quantidade de líderes jovens que mobilizaram seus colegas de maneira independente e apartidária, e por haver acabado com a Lei Orgânica Constitucional Estudantil (Loce), a última herança de Pinochet antes que este deixasse o poder.</p>
<div id="attachment_68" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto3.jpeg"><img class="size-full wp-image-68" title="foto3" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto3.jpeg" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">  Marcha do dia 16 de junho nas ruas da Alameda de Santiago do Chile (Y. M.) </p></div>
<p>Essa mesma geração que resolveu agir após anos de passividade social devido ao trauma pós-ditadura é a que hoje volta às ruas reivindicando as mesmas demandas e incluindo outras que não foram contempladas pela Lei Geral de Educação que substituiu a antiga Loce. Agora, querem mudanças substanciais e de fundo: colocar fim ao lucro na educação e garantir o financiamento de universidades gratuitas e de qualidade.</p>
<p>Ao contrário do que mostra a imprensa nacional, os estudantes de ensino médio que participam ativamente do processo contam com o apoio das Associações de Pais e Encarregados de Educação, que elaboraram suas próprias petições e apoiam seus filhos política e moralmente, levando comida e abrigo aos estabelecimentos ocupados.</p>
<p>“Nossas demandas partiram das dos estudantes. Estamos neste caminho comum de lutar pela recuperação da educação pública e isso leva a propor mudanças profundas nesta sociedade, que têm que ver com a carta fundamental, mais que com qualquer lei ou artigo. Esta deve ser uma mudança profunda, e tal mudança não se consegue somente graças aos estudantes ou seus tutores. Passa pelos trabalhadores do Chile e pela sociedade como um todo”, explicou Dafne Concha, presidenta da Associação de Pais e Encarregados de Educação (tutores legais) do Liceu de Aplicação de Santiago.</p>
<div id="attachment_73" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto15.jpeg"><img class="size-full wp-image-73" title="foto15" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto15.jpeg" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Dafne Concha, presidenta da Associação de Pais e Encarregados de Educação do Liceu de Aplicação de Santiago (Y. M.)</p></div>
<p>Concha denunciou o papel dos carabineiros do Chile. Entende que a repressão é uma arma que foi utilizada pelo governo e pelo Estado para manter o status quo. “Para eles, é conveniente que existam pobres, porque há ricos. Lamentavelmente, grande parte deste país vive com um salário mínimo. As pessoas se cansaram. Creio que o que vimos com <a href="http://periodismohumano.com/sociedad/medio-ambiente/endesa-le-hinca-el-diente-a-la-patagonia.html">Hidroaysén</a>, com as marchas pela educação, significa uma mudança de mentalidade na população chilena. Estamos recuperando esse sentido democrático que deve nos levar a recuperar o caminho que perdemos após 17 anos de ditadura”, sentenciou.</p>
<p>Mas não só na educação secundária se propõem essas análises. Segundo <a href="http://www.facebook.com/pages/Camila-Vallejo-Dowling/170911349635410">Camila Vallejo</a>, estudante da Universidade do Chile, presidenta da <a href="http://fech.cl/blog/2011/04/20/petitorio-confech-principios-para-una-reforma-a-la-educacion-superior/">Confederação de Estudantes do Chile</a> (CONFECH) e já toda uma personagem pública, as mobilizações continuarão até que se consiga uma reforma mais profunda e sistêmica. “Necessitamos que o Governo tenha uma política de Estado, que coloque como eixo central a educação pública e também a regulamentação da indústria privada da educação, que hoje em dia lucra com os estudantes mais pobres e com milhares de famílias”, disse a líder estudantil.</p>
<p>O lucro com a educação tem sido um dos temas mais controversos. Embora a lei proíba que se use a educação como negócio, o certo é que no Chile as universidades tradicionais e privadas cobram mensalidades milionárias, que aumentam devido aos juros estabelecidos pelos bancos privados, o que termina triplicando e muitas vezes quintuplicando a dívida inicial. Assim, um universitário terminará sua carreira devendo um valor equivalente ou superior ao de uma moradia de 25 milhões de pesos (cerca de 36.800 euros).</p>
<p>Além das altas mensalidades, o sistema de educação marca a brecha desigual entre classes desde o início da etapa escolar, já que nas escolas públicas 85% dos alunos provêm dos 60% mais pobres, ao passo que nas escolas privadas mais de 60% pertencem à faixa 20% mais rica da sociedade.</p>
<a href="http://portugues.periodismohumano.com/2011/09/20/o-chile-sai-as-ruas-novamente/"><p><em>Click here to view the embedded video.</em></p></a>
<p>É por isso que as petições apresentadas pela CONFECH ao ministro de educação, Joaquín Lavín, incluem o acesso com equidade, qualidade, integração e heterogeneidade social na matrícula. Os estudantes rechaçam a Prova de Seleção Universitária (PSU) por considerá-la retrógrada e elitista, e propõem a criação de mecanismos complementares de acesso que considerem a nivelação e o amparo (acadêmico e econômico) para que exista igualdade de oportunidades no acesso, assim como de fundos estatais que permitam financiar tais mecanismos.<a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/chile-2.png"><img class="alignright size-full wp-image-75" title="chile-2" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/chile-2.png" alt="Mais de 100 mil estudantes se manifestam pela reforma da educação em Santiago, Chile, 30 de junho de 2011.(AP Photo/Luis Hidalgo)" width="401" height="573" /></a></p>
<p>É por isso que as petições apresentadas pela CONFECH ao ministro de educação, Joaquín Lavín, incluem o acesso com equidade, qualidade, integração e heterogeneidade social na matrícula. Os estudantes rechaçam a Prova de Seleção Universitária (PSU) por considerá-la retrógrada e elitista, e propõem a criação de mecanismos complementares de acesso que considerem a nivelação e o amparo (acadêmico e econômico) para que exista igualdade de oportunidades no acesso, assim como de fundos estatais que permitam financiar tais mecanismos.</p>
<p><strong>Paga-se para estudar, estuda-se para pagar</strong></p>
<p>O círculo vicioso no qual entra todo estudante chileno é parte essencial do problema. Além dos baixos padrões na qualidade da educação e da marcada brecha social, somam-se as altas mensalidades que os estudantes têm de pagar. Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), o Chile fica em sexto lugar no ranking de tarifas de admissão mais caras do mundo, e, segundo a mesma fonte, é o segundo sistema educativo com maiores desigualdades na qualidade. A diferença com os outros cinco países é que aqui existe o pior sistema de bolsas de estudo e não há nenhuma universidade de reputação internacional.</p>
<p>As demandas, compartilhadas por reitores, diretores, associação de professores e estudantes, têm um mesmo objetivo: educação gratuita e de qualidade. Uma mudança de fundo que deve começar com um aumento dos recursos investidos pelo Estado chileno em educação. A realidade é que no Chile apenas 56% da verba destinada a educação vem do Estado, enquanto 44% depende das famílias chilenas. Em países da OCDE, o Estado contribui, em média, com 85%, e as famílias com aproximadamente 15%.</p>
<div id="attachment_69" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto7.jpeg"><img class="size-full wp-image-69 " title="foto7" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto7.jpeg" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Marcha pela educação pública em Santiago do Chile (Y. M.)</p></div>
<p>A ditadura militar é considerada a grande responsável por essa crise, pois reduziu o gasto público em educação de 7% do PIB a 3%. Algo que poderia ser solucionado, por exemplo, renacionalizando o cobre e destinando esses fundos diretamente à educação. Para Camila Vallejo, a crise na educação é parte de um problema ainda maior e de fundo que vem se arrastando desde o retorno à democracia. “Nós esperamos respostas, queremos avançar, mas se eles não podem responder devido a seus conflitos de interesse, porque hoje em dia o poder público e o poder econômico estão entrelaçados, que seja a cidadania a que realmente responda, que decida se quer um sistema nacional de educação público de qualidade e gratuito; se quer renacionalizar os recursos naturais, se quer que as grandes empresas paguem impostos e financiem a educação e a saúde; e se quer uma assembleia constituinte; que se faça um plebiscito e que se acate sua decisão”, expressou a presidenta da FECH.</p>
<div id="attachment_72" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto14.jpeg"><img class="size-full wp-image-72" title="foto14" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto14.jpeg" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Fachada da Universidade do Chile, tomada e em greve (Y. M.)</p></div>
<p>Além disso, Vallejo questionou a capacidade do ministro Lavin para resolver o conflito que já leva mais de um mês sem solução alguma, e cujo final ainda parece distante. “Ele deveria se afastar, pois não apresentou uma saída para o conflito. Faz muito tempo que estamos mobilizados e, além do mais, há conflitos de interesses. O ministro deve renunciar. Creio que deveria antecipar suas férias”, disse a líder estudantil, este último comentário em referência à medida adotada pelo ministro de antecipar as férias de inverno como solução para desarticular o movimento estudantil.</p>
<div id="attachment_74" class="wp-caption aligncenter" style="width: 572px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/Imagen-13.png"><img class="size-full wp-image-74" title="Imagen-13" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/Imagen-13.png" alt="" width="562" height="367" /></a><p class="wp-caption-text">Grafite com rosto do ministro de Educação, Joaquín Lavín (Y. M.)</p></div>
<p>Mas o ministro de Educação, Joaquín Lavín, não só tem sido questionado por seu desempenho político, como também pelos vínculos que possui com a Universidade do Desenvolvimento, instituição privada fundada em 1990 com quatro sócios e cuja sede foi construída pela imobiliária Ainavillo Limitada, da qual Lavín Infante possuía 16,6% de participação. Embora Lavín tenha deixado a empresa para assumir o ministério, ele admitiu, no programa de televisão chileno Tolerancia Cero, que havia recuperado seu investimento na imobiliária, o que colocou em dúvida sua participação como interlocutor válido nas negociações.</p>
<p>O ambiente de protesto é sentido em cada esquina de Santiago, cujas ruas, cheias de cartazes, grafites e lenços coloridos, refletem um consenso massivo, entre a população, de apoio ao protesto. Após duas décadas nas quais não se observaram atos tão multitudinários, a emoção foi contagiando, e ninguém quer ficar de fora desse processo histórico.</p>
<p>Marcel Claude, economista da Universidade do Chile, não é exceção, e se somou ao movimento percorrendo várias faculdades em greve para, em uma sala de aula ou na própria rua, dar conferências que visam responder uma única pergunta: é possível a educação gratuita no Chile? Para Claude, houve, sim, uma mudança negativa que destruiu o sistema educacional chileno: a privatização da educação, “que não significou custos mais baixos, porque é uma das mais caras do mundo e da América Latina em particular, nem tampouco uma educação de melhor qualidade, porque estamos longe dos padrões internacionais e regionais.”</p>
<p>“A presença dos estudantes no setor público vem caindo de maneira sistemática desde 1981. Hoje em dia, os estudantes que estão em escolas públicas são menos da metade, e cresceu um setor privado ao qual se permite o objetivo de lucro, isto é, o Chile é o único país no planeta que permite lucrar com fundos públicos”, assegurou o economista.</p>
<p>Para Claude, a solução passa pela renacionalização do cobre, já que os lucros das mineradoras equivalem a três vezes o orçamento destinado à educação, e hoje o Chile é sete vezes mais rico que nos anos 1960, quando financiava a educação pública. Além disso, o país tem o maior orçamento em gasto militar da América Latina: enquanto investe 0,3% do PIB em educação superior, gasta 3,6% em defesa. Os sindicatos e trabalhadores organizados das minas do Chile se somaram a esse chamado e também veem a renacionalização do cobre como a principal solução para financiar um sistema gratuito de educação que também inclua escolas profissionalizantes e de formação técnica.</p>
<div id="attachment_71" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto12.jpeg"><img class="size-full wp-image-71" title="foto12" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/09/foto12.jpeg" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Performance &quot;Funeral da educação pública&quot; na manifestação de 16 de junho (Y. M.)</p></div>
<p>Embora o governo tenha apresentado sua proposta, tanto os estudantes universitários e de ensino médio quanto a Associação de Professores rechaçaram a iniciativa, alegando que não satisfaz minimamente as exigências, ainda que continuem abertos ao intercâmbio e visem uma mesa de diálogo ampliada que inclua também os representantes dos pais e encarregados de educação e o poder legislativo.</p>
<p>Enquanto isso, a cada dia amanhecem novos centros educativos tomados, e mais estudantes, professores e pais se unem ao movimento.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>A xenofobia ganha espaço nos parlamentos da Europa</title>
		<link>http://portugues.periodismohumano.com/2011/08/31/a-xenofobia-ganha-espaco-nos-parlamentos-da-europa/</link>
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		<pubDate>Wed, 31 Aug 2011 15:54:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jesussanjurjo</dc:creator>
				<category><![CDATA[General]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Luna Bolívar · Tradução de Mariana Marcoantonio

“Quando o insatisfeito não encontra a quem se dirigir, busca seus próprios representantes”
“Os populistas dinamarqueses combinam o discurso anti-imigração com o chauvinismo caricato”
Propostas como “a liquidação dos ciganos” não são pouco frequentes na Europa Oriental

Dificilmente 50 policiais adicionais representarão um verdadeiro perigo à livre circulação dentro da União Europeia. É [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong>Por <a title="Entradas de Luna Bolívar" href="http://periodismohumano.com/autor/lunabolivar/">Luna Bolívar</a> · <strong>Tradução de <strong>Mariana</strong> Marcoantonio</strong></strong></p>
<ul>
<li><strong>“Quando o insatisfeito não encontra a quem se dirigir, busca seus próprios representantes”</strong></li>
<li><strong>“Os populistas dinamarqueses combinam o discurso anti-imigração com o chauvinismo caricato”</strong></li>
<li><strong>Propostas como “a liquidação dos ciganos” não são pouco frequentes na Europa Oriental</strong></li>
</ul>
<div id="attachment_61" class="wp-caption alignleft" style="width: 660px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/1-23.jpeg"><img class="size-full wp-image-61" title="1-23" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/1-23.jpeg" alt="" width="650" height="489" /></a><p class="wp-caption-text">  Siv Jensen, líder de um dos partidos populistas de direita mais fortes da Europa, o norueguês Partido do Progresso, vota em Oslo, em 2009. Nessas eleições, sua formação obteve 23% dos votos. (AP/ Scanpix, Erlend Aas) </p></div>
<p>Dificilmente 50 policiais adicionais representarão um verdadeiro perigo à livre circulação dentro da União Europeia. É claro que a nenhum cidadão europeu será negada sua entrada na Dinamarca. E, de fato, ninguém acha que os postos alfandegários que Copenhague mandou reabrir no começo de julho sirvam para combater o crime entre fronteiras.</p>
<p>Mas nada disso importa. A meia centena de agentes dinamarqueses tem outro valor, simbólico: diz a Bruxelas que os acordos comunitários podem ser cumpridos ou não, e aos cidadãos, que o governo está agindo. O efeito colateral é um golpe ao Estado de direito, porque o ato vem a demonstrar o que os especialistas constatam já faz algum tempo: <strong>a capacidade crescente dos partidos de extrema direita europeus de posicionar seus assuntos na agenda política</strong>.</p>
<p><span id="more-60"></span></p>
<p>O Partido Popular Dinamarquês (DF) – antieuropeu, xenófobo e, segundo algumas opiniões, até mesmo racista – conquistou 13,3% dos votos nas eleições de 2007. Esse resultado lhe rendeu 24 cadeiras confortáveis no <em>Folketing</em>, o Parlamento, e a possibilidade de impor exigências a um Executivo necessitado de seu apoio. A luta contra a delinquência que vem do exterior é uma delas. Se pudessem, obrigariam a frear completamente a imigração, porque <strong>permitir que se estabeleça em um país “um somali que não sabe fazer nada não pode ser”</strong>, dizia Pia Kjaersgaad.</p>
<p>“Quando Pia Kjaersgaad rompeu com o Partido do Progresso e fundou o DF, levou com ela parte do programa da antiga formação. Mas logo substituiu o neoliberalismo e a hostilidade aos impostos por princípios clássicos da socialdemocracia, aos quais uniu os sentimentos contrários à chegada de imigrantes”, explica o cientista político Jørgen Goul Andersen, que descreve a receita do sucesso: “<strong>Os populistas</strong><strong> dinamarqueses foram capazes de combinar o discurso anti-imigração com o chauvinismo caricato</strong>”.</p>
<p><strong>Hoje, o eleitorado do DF é mais trabalhador que o do próprio Partido Socialdemocrata</strong>. E esse caso não é único no Velho Continente. A globalização, o medo da decadência social, o individualismo traído pelas políticas neoliberais, os ressentimentos contra as minorias ou contra os estrangeiros&#8230; para essas vicissitudes do século XXI, parte da sociedade parece não receber resposta satisfatória da política tradicional, e “quando o insatisfeito não encontra a quem se dirigir no sistema de partidos”, adverte o professor alemão Richard Stöss, “busca seus próprios representantes”.</p>
<div id="attachment_62" class="wp-caption alignleft" style="width: 660px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/2-16.jpeg"><img class="size-full wp-image-62" title="2-16" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/2-16.jpeg" alt="" width="650" height="421" /></a><p class="wp-caption-text">  Por suas manifestações sobre o islã, Geert Wilders teve que responder diante dos tribunais em mais de uma ocasião. Na última, em 2010-2011, foi acusado de incitação ao ódio e ficou livre de todos os cargos. (AP/ Pool Koen van Weel)</p></div>
<p>Representantes como o holandês Geert Wilders: um “homem do povo” longe desses políticos que estão tão distanciados da rua; alguém a quem a correção não impede de “chamar as coisas pelo nome”; um personagem carismático que conhece os temores das pessoas e sabe dar a elas explicações simples, compreensíveis, quase sempre acabando em um culpado ou inimigo, que pode ser o islã.</p>
<p>List Pim Fortuyn foi o primeiro a descobrir e explorar para si a região muçulmana nos Países Baixos, à qual qualificava de “cultura atrasada” e “ameaça para a sociedade liberal”. <strong>“Antes de 2001-2003, o islã era um assunto do qual nenhum partido falava; isso fez com que </strong><strong>Fortuyn ganhasse seguidores”</strong>, comenta Paul Lucardie, cientista político da Universidade de Groninga, a mesma em que, na sua época, o sociólogo Fortuyn deu aulas.</p>
<p>Em janeiro de 2002, as pesquisas estimavam para Fortuyn 15% dos votos. Três meses depois, ele morria assassinado por um ecologista. O resultado final para o partido que levava seu nome, o LPF, foi de 17%: o melhor já alcançado por uma formação nova na Holanda. A isso se seguiram a participação no governo e a ruína: a coligação só durou 87 dias.</p>
<p>A LPF nunca se recuperou e o espaço vago no espectro do que Lucardie chama de “nacional-populismo” veio a ser ocupado por <strong>Wilders: predicando a proibição do <em>Alcorão</em> – livro que compara com <em>Mein Kampf</em>, de Adolf Hitler –, seu Partido pela Liberdade (PVV) conquistou 15,5% dos votos nas eleições antecipadas de 2010</strong>, foi elevado à terceira força e, como o DF dinamarquês, à agrupação que “tolera” a ação governamental e a influencia proporcionalmente.</p>
<p><a href="http://periodismohumano.com/sociedad/libertad-y-justicia/la-extrema-derecha-en-los-parlamentos-de-europa.html/attachment/3-12"></a></p>
<div id="attachment_63" class="wp-caption alignleft" style="width: 660px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/3-12.jpeg"><img class="size-full wp-image-63" title="3-12" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/3-12.jpeg" alt="" width="650" height="432" /></a><p class="wp-caption-text">Em 16 de janeiro de 2011, a advogada Marine Le Pen, filha de Jean-Marie Le Pen, foi eleita para suceder seu pai na direção da Frente Nacional francesa. (AP/ Lionel Cironneau)</p></div>
<p>“Os índices de mortalidade entre os partidos de nova criação são enormes”, diz Goul Andersen. “Muitos falecem antes de chegar a entrar em um Parlamento”, indica Lucardie. Outros são mortos ao assumir responsabilidades políticas, quando se trata de populistas de direita que de repente precisam pôr em prática promessas impossíveis. No entanto, na última década, um vento parece soprar a favor deles.</p>
<p>Segundo as pesquisas, a Frente Nacional, que agora é dirigida pela filha de Jean-Marie Le Pen, é a que mais apoia a UPM – União Para o Mediterrâneo – de Nicolas Sarkozy. <strong>As duras ações do governo francês contra a população cigana, do verão passado, são interpretadas como uma tentativa dos conservadores de encurtar distâncias com a direita</strong>: outra marcação do ritmo dos extremistas. No último mês de abril, os Verdadeiros Finlandeses subiram, com 19,1% dos votos, ao terceiro partido do país; não fazem parte do Executivo porque seu antieuropeísmo é incompatível com o bom visto dado por Helsinki ao resgate de Portugal. Nos comícios regionais de 2010, a Liga Norte de Umberto Bossi (12,8%) tornou-se a peça-chave da convulsa política italiana.</p>
<p>Também em 2010, pela primeira vez, os Democratas Suecos, autodesignados “defensores da cultura sueca” frente à imigração, à islamização e à globalização, foram representativos no <em>Riksdag</em> (5,7%). Em 2009, o norueguês Partido do Progresso – autoritário, etnocêntrico, antissistema e antissemita – teve o melhor resultado da sua história em eleições parlamentares (23%). Em 2007, os suíços da União Democrática de Centro foram os mais votados nos comícios federais, com 29%, e no ano passado <strong>sua proposta de proibir a construção de almádenas e acelerar a expulsão de estrangeiros que cometessem delitos foi aprovada via referendo</strong>.</p>
<p>E tudo isso sem se deter a fazer uma recontagem das eleições municipais, regionais ou europeias. Por seu caráter de “partidos de protesto”, essas agrupações costumam conseguir muitos votos com as urnas que os eleitores consideram “pouco importantes”. Assim, em 2009 chegou-se ao paradoxo de que, no Parlamento Europeu, aumentou o número de cadeiras ocupadas por antieuropeístas.</p>
<p><a href="http://periodismohumano.com/sociedad/libertad-y-justicia/la-extrema-derecha-en-los-parlamentos-de-europa.html/attachment/4-11"></a></p>
<div id="attachment_64" class="wp-caption aligncenter" style="width: 660px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/4-11.jpeg"><img class="size-full wp-image-64" title="4-11" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/4-11.jpeg" alt="" width="650" height="460" /></a><p class="wp-caption-text">Um seguidor de Ataka protesta contra a visita do primeiro-ministro turco à Bulgária. Esse grupo se opõe ao ingresso da Turquia na União Europeia e é fortemente anti-islamita. (AP/ Valentina Petrova)</p></div>
<p><strong>A parte oriental do continente também não escapa à tendência.</strong> Formações xenófobas, homofóbicas, nacionalistas e religiosamente intransigentes superam as porcentagens a partir das quais chegam às Câmaras, empurram os conservadores para a direita, radicalizam sociedades. Podem se chamar Ataka na Bulgária, Jobbik na Hungria ou o Partido da Grande Romênia: são feitos nos mesmos moldes e não se diferenciam tanto como seus irmãos ocidentais poderiam pensar. O palavrório contra o imigrante <strong>“é substituído aqui pelos ataques a ciganos ou a outras minorias”</strong>, explica Kai Arzheimer, professor no Instituto de Ciências Políticas de Mainz. Assim, <strong>propostas como “a liquidação dos ciganos” não são pouco frequentes.</strong></p>
<p>E a Espanha e a Alemanha? “Seguindo critérios puramente objetivos, também nesses países os partidos de extrema direita deveriam ter sucesso”, diz Arzheimer. A Sociedade Austríaca para o Assessoramento e o Desenvolvimento Políticos analisa que na Espanha – mas também na Grã-Bretanha – os partidos conservadores tradicionais cobrem suficientemente o âmbito da direita, de maneira que o eleitor não precisa buscar em outros lugares. <strong>“E, claro, no caso alemão, pesa a herança do nazismo, como também no espanhol, certamente, a sombra do franquismo”</strong>, acrescenta Lucardie.</p>
<p>“É provável que sim”, responde Arzheimer à pergunta de se daqui por diante veremos mais populistas de direita se sentarem nos parlamentos. As consequências para a democracia dependerão da capacidade de resposta do sistema, dos partidos estabelecidos, da possibilidade que as minorias e os excluídos encontrem de se organizarem e fazerem valer seus direitos. Mas, em qualquer caso, os especialistas tranquilizam: “não podemos esquecer que o potencial de voto também é limitado”, lembra Goul Andersen, “como o são as possibilidades de crescimento estrutural do nacional-populismo”, continua Lucardie, “que eu não acho que tenha muitas opções de superar a barreira dos 25%”.</p>
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		<title>Duas horas e 40 pessoas para impedir um despejo</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Aug 2011 16:46:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Patricia Simón</dc:creator>
				<category><![CDATA[General]]></category>
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		<category><![CDATA[Asturias]]></category>
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		<category><![CDATA[Plataforma de Afetados pelas Hipotecas]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Patricia Simón · Fotos: Javier Bauluz
Tradução de Janaína Marcoantonio

Menos  de duas horas. Esse foi o tempo que um grupo de cidadãos asturianos  precisou para impedir um despejo desde o momento em que souberam de sua  existência.
Nas últimas semanas, a Plataforma de Afetados pelas Hipotecas e o 15-M  evitaram que mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong>Por<a href="http://periodismohumano.com/autor/patriciasimon/"> Patricia Simón</a> · Fotos: <a href="http://periodismohumano.com/autor/javierbauluz">Javier Bauluz</a><br />
Tradução de Janaína Marcoantonio</strong></p>
<ul>
<li>Menos  de duas horas. Esse foi o tempo que um grupo de cidadãos asturianos  precisou para impedir um despejo desde o momento em que souberam de sua  existência.</li>
<li>Nas últimas semanas, a Plataforma de Afetados pelas Hipotecas e o 15-M  evitaram que mais de 60 famílias perdessem suas casas.</li>
</ul>
<div id="attachment_50" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><img class="size-full wp-image-50" title="BN-600-DSC_0296" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/BN-600-DSC_0296.jpeg" alt="" width="600" height="399" /><p class="wp-caption-text">Porta do edifício afetado pelo despejo enquanto a polícia tenta entrar no local (Javier Bauluz / Piraván)</p></div>
<p>Na  manhã de 7 de julho, o movimento 15-M de Gijón havia convocado uma  manifestação diante de alguns bancos da cidade para protestar por sua  “avareza e responsabilidade na crise em que vivemos”, nas palavras de  uma de suas participantes. A essa mesma hora, Ángel T. P. se apresentava  nos tribunais da cidade para verificar se a solicitação de adiamento do  despejo de sua moradia havia sido aceita. A ordem de despejo era para  as 12h30 daquela mesma manhã, de modo que, não tendo encontrado uma  resposta, ele foi, com poucas esperanças, pedir ajuda ao posto de  informação permanente que o 15-M instalou na praça da Prefeitura. Graças  às redes sociais e à coincidência com o protesto que estava ocorrendo  naquele mesmo momento, apenas uma hora mais tarde umas 40 pessoas  ocupavam as escadas e a porta de entrada de seu edifício para, pela  primeira vez em Astúrias, impedir um despejo.<span id="more-49"></span></p>
<p>Ángel  T. P. vive com a mulher e os dois filhos de 10 e 19 anos na residência  reclamada pelo Banco Pastor. Ele conta que os problemas econômicos  começaram há um ano, quando ficou sem trabalho e começou a não ter  condições de pagar algumas das parcelas do financiamento imobiliário de  108 mil euros que havia contratado e que, com os gastos, terminaram se  convertendo em 180 mil. Sua residência foi para leilão, mas, como tantas  dezenas de milhares no país, foi assumida pelo banco diante da falta de  comprador. No entanto, sem entrar em mais detalhes, Ángel explica que  nas últimas duas semanas conseguiu juntar parte do dinheiro devido e  depositá-lo em sua conta, mas que o banco não está mais interessado em  paralisar o despejo.</p>
<div id="attachment_51" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/BN-600-DSC_0318.jpeg"><img class="size-full wp-image-51" title="BN-600-DSC_0318" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/BN-600-DSC_0318.jpeg" alt="" width="600" height="356" /></a><p class="wp-caption-text">Dois membros do 15-M de Gijón escutam o representante do Banco Pastor e o porta-voz da polícia local (Javier Bauluz /Piraván)</p></div>
<p>Tanto  o representante da entidade bancária, como o serralheiro -contratado  para trocar a fechadura após a expulsão – e os policiais locais que o  acompanhavam pareciam surpresos ao ver a comitiva que o esperava no  edifício. Pouco depois chegavam vários furgões com alguns policiais  federais, bem como mais agentes da polícia local.</p>
<a href="http://portugues.periodismohumano.com/2011/08/12/duas-horas-e-40-pessoas-para-impedir-um-despejo/"><p><em>Click here to view the embedded video.</em></p></a>
<p>Depois  de vários minutos de negociação com o porta-voz da polícia local, que  pedia para subir à residência a fim de conversar com os proprietários,  finalmente foi Ángel T.P. que, a uma distância de um metro e meio,  escutou o policial quando este lhe comunicou que o desalojo seria  suspenso “por hoje, mas que os problemas continuariam”. E acrescentou:  “vamos ver se encontram um sistema melhor para solucionar este assunto”.  Os aplausos retumbavam pelo eco da escada e os abraços atenuavam a  incredulidade dos participantes diante da aparente facilidade com que o  problema havia sido solucionado.</p>
<p>Esses  homens e mulheres começam a reconhecer uns aos outros depois de tantas  manifestações e concentrações. Mas vêm de profissões, áreas de interesse  e, inclusive, cidades distintas. Agora conversam entre si, despedem-se  carinhosamente e combinam de se encontrar no despejo seguinte. Porque  também repetem em coro: “O próximo, vamos impedir”.<br />
Miguel  Ángel, encarregado dos despejos do 15-M de Gijón desde essa mesma  manhã, explica, visivelmente consternado após o cancelamento temporário  da ordem judicial, que eles já haviam planejado impedir outro despejo  que acontecerá nas próximas semanas. “Trata-se de um caso muito  distinto, de mobbing  imobiliário. Uma senhora e sua filha, as últimas inquilinas que restam  em um edifício adquirido por uma construtora que pretende expulsá-las  para derrubar o imóvel e construir um novo.” Enquanto conversa conosco,  recebe telefonemas de jornalistas de vários meios e suspira tentando  acreditar que uma família continua tendo um teto sob o qual viver. Pelo  menos por mais um dia.<br />
<strong>O mês da rebelião contra os despejos</strong></p>
<p>Em 15 de junho, o movimento que havia nascido exatamente um mês antes se unia à <a href="http://afectadosporlahipoteca.wordpress.com/">Plataforma de Afetados pelas Hipotecas</a> (PAH) para impedir, pela primeira vez, um despejo em Madri, como parte  de sua estratégia de expansão após se retirar da Puerta del Sol. <a href="http://periodismohumano.com/economia/la-rebelion-de-los-hipotecados-ante-los-desahucios-se-extiende.html">Centenas de pessoas se concentraram</a> nas escadas, na porta e na rua do edifício de Anuar, um cidadão de  origem libanesa que tivera de fechar sua padaria em consequência da  crise, e terminara encurralado entre a hipoteca e o empréstimo que o  banco lhe havia oferecido e ele havia aceitado. O despejo foi proposto, e  tinha início e o fenômeno de impedir pacificamente essas ações.</p>
<div id="attachment_52" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/DESAHUCIO-BN-600-GIJÓN-BANCOS-CARTEL-15M-HipstaPrint-0-1.jpeg"><img class="size-full wp-image-52" title="DESAHUCIO-BN-600-GIJÓN-BANCOS-CARTEL-15M-HipstaPrint-0-1" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/DESAHUCIO-BN-600-GIJÓN-BANCOS-CARTEL-15M-HipstaPrint-0-1.jpeg" alt="" width="600" height="600" /></a><p class="wp-caption-text"> Cidadãos participantes da ação contra o despejo em Gijón (Javier Bauluz / Piraván)</p></div>
<p>Vinte  dias depois, Anuar ainda não havia recebido nenhuma comunicação de seu  banco. Tanto ele como Chema Ruiz, membro da PAH de Madri, confiam que  antes do fim do verão a ordem de despejo não será emitida novamente.  Enquanto isso, o recurso interposto por Anuar contra a vontade do banco  segue seu curso, ao mesmo tempo que trabalham para conseguir que os  Serviços Sociais coloquem à sua disposição uma moradia de proteção  oficial. Anuar suspira emocionado quando, por telefone, recorda o que  sentiu ao ver que centenas de pessoas se interpunham entre seu lar e  aqueles que vinham executar a ordem de tomá-lo. “Antes desse dia, eu  estava muito mal&#8230; mas é graças a todos eles que continuamos em nossa  casa. Vamos ver se mais gente se anima a nos pedir ajuda [à Plataforma] e  se conseguimos dar uma solução justa para este problema.” Anuar  participa ativamente dos atos contra outros despejos organizados pela  PAH.</p>
<p>O  número de famílias que perderam sua moradia por procedimentos de  despejo marcou um recorde histórico nos três primeiros meses deste ano.  Mais de 15 mil famílias perderam seu lar, cerca de 36,3% mais que no  mesmo período do ano anterior. <a href="http://periodismohumano.com/economia/la-rebelion-de-los-hipotecados-ante-los-desahucios-se-extiende.html">Em periodismohumano, contamos</a> como surgiu o movimento em Barcelona, por iniciativa de um grupo de  cidadãos que compreendia que um dos efeitos mais notórios da crise  financeira mundial e trabalhista na Espanha – alcançando a cifra de 5  milhões de desempregados – é que milhões de cidadãos estavam  impossibilitados de pagar as caríssimas hipotecas que eles haviam  contratado durante os anos da bolha urbanística.</p>
<p>Até  o dia 15 de junho, a Plataforma de Afetados pelas Hipotecas havia  conseguido paralisar uma dúzia de despejos na Catalunha. Desde que  assumiram esta batalha como própria por parte do 15-M, já são meia  centena os despejos evitados, mais de dois por dia. E não só de  hipotecados, mas também de vítimas do “mobbing”  imobiliário (proprietários ou construtoras que pressionam para expulsar  inquilinos com aluguel defasado), ou , inclusive, famílias que ocuparam  moradias de proteção oficial desabitadas, tal como<a href="http://www.andaluciainformacion.es/portada/?i=1&amp;a=185532&amp;f=0"> ocorreu esta semana em uma localidade sevilhana</a>.</p>
<p>A  doação em pagamento e a substituição das parcelas da hipoteca por  aluguéis de valor acessível são duas das propostas que a Plataforma  defende desde o início, e que foram aceitas nos dois últimos despejos  impedidos em Madri. Ao mesmo tempo, o presidente do Tribunal Superior de  Justiça de Madri, Francisco Javier Vieira, declarou que está preocupado  e que “é preciso buscar <a href="http://www.adn.es/local/madrid/20110707/NWS-1745-DESAHUCIOS-TRIBUNAL-JUSTICIA-HIPOTECAS.html">mecanismos para evitar que as sentenças não sejam cumpridas</a>”.  Mas admitiu: “precisamos encontrar fórmulas que sejam capazes de  oferecer amparo e diminuir as injustiças.” Várias pessoas envolvidas na  luta contra os despejos se mostraram preocupadas com a política que  poderá vir a ser adotada contra suas ações a partir de setembro.</p>
<p>Enquanto  isso, a cada dia há mais despejos a ser impedidos, anunciados na página  web da Plataforma. O método empregado e praticamente infalível até o  momento: bloquear o acesso à moradia com a mera presença física e de  maneira pacífica. Como se demonstrou no caso de Gijón, até agora nem  sequer foi preciso um grande número de participantes, nem tempo para  organização, nem coordenação com outras plataformas. Apenas estar  presentes e se apertar uns contra os outros quando há um pedido de  ajuda.</p>
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		<title>Homossexualidade árabe, a revolução pendente</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Aug 2011 09:36:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jesussanjurjo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mónica G. Prieto · (Beirut) / Tradução de Janaína Marcoantonio

A comunidade GLBT, que participa das revoluções sociais como qualquer outra agrupação, vê uma oportunidade na “primavera árabe”.
Apesar disso, a homossexualidade é castigada com prisão em boa parte da região, quando não com pena de morte.
No Líbano, o país mais tolerante, mas não mais permissivo, várias [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><strong><a href="http://periodismohumano.com/autor/monicagp/">Mónica G. Prieto</a> · (Beirut) / </strong><strong>Tradução de Janaína Marcoantonio</strong></div>
<ul>
<li><strong>A comunidade GLBT, que participa das revoluções sociais como qualquer outra agrupação, vê uma oportunidade na “primavera árabe”.</strong></li>
<li><strong>Apesar disso, a homossexualidade é castigada com prisão em boa parte da região, quando não com pena de morte.</strong></li>
<li><strong>No Líbano, o país mais tolerante, mas não mais permissivo, várias ONGs lutam em nome de toda a comunidade regional.</strong></li>
</ul>
<div id="attachment_40" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/arabs-fighting-prejudice.jpeg"><img class="size-full wp-image-40" title="arabs-fighting-prejudice" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/arabs-fighting-prejudice.jpeg" alt="" width="600" height="416" /></a><p class="wp-caption-text">Teddy, um bissexual libanês profissional da dança do ventre, se prepara para sua atuação. (Osama Ayub/AP)</p></div>
<p>Em meio ao milagre da Plaza Tahrir, ocorreram vários avanços ofuscados pela magnitude do desafio social de lutar contra décadas de ditadura egípcia. Mulheres e homens protestando de mãos dadas, cristãos e muçulmanos, laicos e fundamentalistas, direitas e esquerdas&#8230; Mas, sem dúvida, um dos fenômenos mais desconhecidos foi a inesperada aliança de homossexuais com os Irmãos Muçulmanos. Eles contam que compartilharam não só sonhos revolucionários, como também o espaço físico das tendas de campanha que surgiram em Tahrir, algo totalmente novo para uma organização fundamentalista como a Irmandade. E que a convivência durou exatamente o que durou a revolução.</p>
<p>“Depois, os mesmos homossexuais foram atacados pelos membros mais homofóbicos dos Irmãos Muçulmanos, que se negaram a trabalhar com eles. Isso não nos surpreendeu: nas agendas políticas, os homossexuais são sempre oprimidos de uma forma ou de outra”, explica Anthony Rizk, membro da <a href="http://www.helem.net/">Helem, a organização mais visível e ativa que defende os direitos da comunidade GLBT – Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais – no Líbano.</a></p>
<p><span id="more-39"></span></p>
<p>Apesar disso, o fato de que a comunidade GLBT do Egito tenha saído à luz devido à insurreição social dá esperanças aos homossexuais, bissexuais e transexuais do Oriente Médio. Em primeiro lugar, porque eles venceram um medo múltiplo:<a href="http://www.elmundo.es/elmundo/2008/02/09/internacional/1202555732.html"> o temor à ditadura e à repressão de um Estado policial</a>, e também à estigmatização social, tão comum na sociedade local.</p>
<div id="attachment_44" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/mideast-lebanon-gay-rights.jpeg"><img class="size-full wp-image-44" title="mideast-lebanon-gay-rights" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/mideast-lebanon-gay-rights.jpeg" alt="" width="300" height="163" /></a><p class="wp-caption-text">  Manifestação do orgulho gay em Beirute. (Hussein Malla/AP) </p></div>
<p>Isso leva a pensar que a primavera árabe só pode ser positiva para a comunidade mais discriminada e castigada do Oriente Médio e do Norte da África, que luta há anos por visibilidade e pelo mero direito a existir. Gays, lésbicas, bissexuais e transexuais árabes fartos de que seus governantes neguem sua simples presença, de que seus familiares os considerem uma vergonha e de que sua comunidade os trate como seres inferiores. “Não podemos antecipar mudanças, mas as revoluções favorecem a aparição de diferentes ideias, de diferentes partidos, do ativismo de todo tipo. E isso só pode ser positivo. É melhor que a estratégia do silêncio”, pondera Hiba Abbani, presidenta da Helem, a ONG mais ativa e visível da região.</p>
<p>Os ares de liberdade deram energia ao grupo, apesar da discriminação de que são vítimas, apesar dos tabus ancestrais que continuam a marcá-los e apesar da debilidade de sua posição. Um bom exemplo é a mais nova <a href="http://ahwaa.org/">plataforma online da comunidade GLBT árabe, Ahwaa, </a>um fórum de discussão onde seus membros podem compartilhar inquietudes e encontrar apoio, compreensão e conselhos baseados na experiência. Como dizer à família, como enfrentar colegas homofóbicos no trabalho ou na escola, como explicar sua condição sexual aos amigos de sempre&#8230; “Pode ser muito difícil – pelo menos, para mim, é – ver a si mesmo como um gay orgulhoso e um muçulmano praticante. Como lidar com isso?”, perguntava um usuário. É uma pergunta tão frequente no grupo quanto impossível de formular fora do mesmo.</p>
<p>Certamente, o diálogo, a informação e a aceitação são as coisas mais desejadas entre a comunidade GLBT árabe. Os mais privilegiados são, sem dúvida, os libaneses. Na sede da Helem, situada no belo edifício de Zico, uma residência de artistas perto do parque de Saadnayel, duas garotas se beijam em uma espécie de salão onde horas mais tarde será exibido o filme “Cisne Negro”. Alguns cômodos mais adiante, três jovens trabalham em seus computadores e atendem telefonemas.</p>
<div id="attachment_41" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/dsc_8221.jpeg"><img class="size-full wp-image-41 " title="dsc_8221" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/dsc_8221.jpeg" alt="" width="600" height="398" /></a><p class="wp-caption-text">Charbel Maydaa, responsável por programas da Helem, na sede da ONG. (Mónica G. Prieto)</p></div>
<p>Trata-se do coração dessa ONG, uma referência no Oriente Médio e no Norte da África, certamente por ser a única da região em situação legal, embora a homossexualidade – com efeito, “praticar atos contra a natureza” – seja considerada um delito no país do Cedro. O artigo 534 penaliza tais condutas com até um ano de cadeia, e é evocado por não poucos policiais para deter jovens nos fins de semana. Às vezes, estes são golpeados e logo liberados; outras vezes, vão presos. “A cada semana, temos duas ou três detenções, especialmente em Trípoli, só para que os policiais se divirtam”, explica Charbel Maydaa, responsável por programas da Helem. Trípoli, a segunda cidade do Líbano e foco do extremismo religioso sunita, é um lugar conservador demais para que os jovens possam apresentar de forma aberta um comportamento sexual diferente. “O baixo nível educativo e a situação econômica ruim os deixa ainda mais indefesos diante dos abusos policiais. Se você não conhece seus direitos, é mais vulnerável”.</p>
<p>A Helem lançou um programa, financiado pela Embaixada da Noruega, para formar ativistas em 28 localidades libanesas dedicados a auxiliar a comunidade GLBT em educação – “tem gente que telefona perguntando se podem fazer exame de urina conosco para saber se são gays” – e também para que conheçam seus direitos. “Os nascidos em Beirute são mais tolerantes com as pessoas diferentes. Nas outras regiões, as coisas não são tão fáceis. É importante o apoio da família, porque se a família te protege, a comunidade te respeita. Mas poucas famílias nas províncias vão defender um filho homossexual, e não pela religião, mas sim pela tradição cultural”, lamenta Maydaa. “Não existe educação sexual nas escolas que possa mudar essa cultura”.</p>
<p>E a cultura árabe pode chegar a representar um risco de morte para suas ovelhas negras. Os crimes de honra que se cometem contra as mulheres também afetam gays, lésbicas e transexuais, e todos aqueles cujo comportamento manche a suposta honra da família. “Desde 2004, tiramos duas pessoas do país porque sua vida estava em perigo”, prossegue Charbel. “O último, faz três meses, recebeu asilo na Bélgica após sofrer várias tentativas de assassinato nas mãos do tio, um alto oficial da Segurança libanesa”. O agressor em questão era um intocável, mas ainda que não ele fosse parte da máquina do Estado, a denúncia está fora do alcance de gays e lésbicas. “Não se pode recorrer a denunciar uma agressão na polícia, porque eles te prendem”, continua Hiba. “Especialmente nas zonas rurais, onde as tribos aplicam suas vinganças de forma mais autônoma. Tudo o que é relacionado com as famílias é tabu no Líbano”. O que ocorre dentro de quatro paredes fica entre quatro paredes.</p>
<a href="http://portugues.periodismohumano.com/2011/08/03/homossexualidade-arabe-a-revolucao-pendente/"><p><em>Click here to view the embedded video.</em></p></a>
<p>O risco enfrentado por gays, lésbicas, bissexuais e transexuais não é só existencial. Suas vidas se convertem em uma eterna corrida de obstáculos. “No colégio há <em>bullying</em> contra o garoto afeminado ou a garota masculinizada, e os professores costumam ser homofóbicos, o que encoraja os agressores. Mais tarde, existe a dificuldade de conseguir um emprego se sua aparência não é de um heterossexual. E, quando conseguimos, somos submetidos a salários mais baixos, a trabalhar mais horas que os demais, a qualquer coisa. Ameaçam nos mandar embora e impedir que sejamos contratados novamente”, prossegue Hiba.</p>
<p>Hiba e Anthony recordam em voz alta a última demissão de um jovem a quem sua empresa obrigou a fazer um exame de diagnóstico de Aids. Quanto a Charbel Maydaa, poucas coisas ainda a surpreendem no Oriente Médio. Ele trabalhou durante cinco anos com o programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, estudando a discriminação dos homossexuais em uma investigação que o levou a Egito, Iêmen, Iraque, Tunísia, Argélia&#8230; Cinco anos nos quais constatou o quão difícil continua sendo a sexualidade do indivíduo quando não se prende à heterossexualidade em uma sociedade arcaica e tribal como a árabe.</p>
<p>“O pior lugar é, sem dúvida, o Iraque”, reflete Charbel, interrogado sobre o ranking dos piores lugares para nascer homossexual. “O segundo lugar é o Iêmen, e o terceiro, com certeza o Egito”. Embora, no Egito, a homossexualidade não seja exatamente ilegal: o que é ilegal é a conduta obscena, a prática de perversões e o exibicionismo, e graças a isso há centenas de pessoas presas por suas preferências sexuais. No Iêmen, está vigente a pena de morte contra gays e lésbicas, tal como ocorre na Arábia Saudita. Tal pena é aplicada em poucos casos, mas é comum, no reino wahhabi, que os homossexuais sejam condenados a penas de prisão e a receber até 2 mil chicotadas. <a href="http://news.bbc.co.uk/2/hi/3211772.stm">Na Palestina, a pressão social discrimina e empurra os homossexuais para Israel, </a>onde são, com frequência, obrigados a se converter em informantes em troca de que sua identidade sexual não seja revelada. Nos Emirados Árabes, os detidos podem chegar a receber hormônios masculinos para “ser curados”, e na Síria a repressão social à comunidade GLBT é total. A aceitação é inconcebível. E, no Iraque, <a href="http://www.elmundo.es/elmundo/2009/03/30/internacional/1238402931.html">a guerra civil foi seguida de uma verdadeira campanha de limpeza sexual, durante a qual cerca de 500 homossexuais </a>foram assassinados, muitas vezes pela própria polícia.</p>
<div id="attachment_43" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/mideast-lebanon-gay-rights-2.jpeg"><img class="size-full wp-image-43" title="mideast-lebanon-gay-rights-2" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/mideast-lebanon-gay-rights-2.jpeg" alt="" width="300" height="210" /></a><p class="wp-caption-text">Campanha em Beirute contra o artigo 534, referente à homossexualidade. (Hussein Malla/AP)</p></div>
<p>Os únicos países da região onde a comunidade vive em relativa tranquilidade – muito relativa – são a Jordânia e o Líbano, considerado o paraíso dos homossexuais árabes graças à abertura relativa dos habitantes locais à comunidade GLBT e ao eco que eles têm tido na imprensa internacional. Seus lugares mais emblemáticos são bares como <a href="http://beirut.wolfbars.com/">Wolf </a>ou Bardo, em pleno Hamra; Life Bar, no setor cristão de Ashrafiyeh; ou <a href="http://acidnightclub.com/">Acid, a única discoteca gay do mundo árabe, que resiste aberta apesar das denúncias de vizinhos </a>que, em mais de uma ocasião, provocaram o fechamento de suas instalações.</p>
<p>“Acreditamos que é nocivo que Beirute seja apresentada com a falsa imagem de refúgio de homossexuais”, insistem Anthony e Hiba. “Há uma boa situação para os que têm recursos econômicos, especialmente para os gays, mas a discriminação é um fato. Além disso, todo homossexual árabe que tenta se refugiar no Líbano é tratado como outro refugiado, e portanto tende a parar na prisão”. Foi <a href="http://periodismohumano.com/sociedad/discriminacion/memorias-de-una-transexual-arabe.html">o caso de Randa, a transexual argelina que relatou sua experiência a Periodismo Humano</a>.</p>
<p>Graças ao trabalho da Helem, que tem advogados assessorando os mais de mil simpatizantes no Líbano, há cada vez mais ajuda ao refugiado que busca nesse país a aceitação que não encontra em seu lugar de origem. As coisas mudaram muito desde que a Helem foi legalizada quase por casualidade, mediante um vazio legal que a converteu na primeira ONG dedicada à comunidade GLBT do Oriente Médio. Em 2004, os responsáveis pela Himaya Lubnaniya lil Mithliyin, ou Proteção Libanesa para os Homossexuais, enviaram ao Ministério do Interior sua documentação para que a ONG fosse registrada. E não receberam resposta, nem positiva nem negativa. “Segundo a legislação, o fato de que pagamos e recebemos um comprovante do registro implica, perante um tribunal, uma prova de que o Estado nos reconhece”, explicava há quatro anos o então presidente da Helem, Georges Azzi.</p>
<p>Desde aquele silêncio administrativo, muitas coisas se passaram. Surgiram outras associações como a <a href="http://meemgroup.org/news/what-is-meem/">Meem – para lésbicas, bissexuais e transexuais -</a>, e se consolidaram publicações como a <a href="http://www.bekhsoos.com/web/about/">Bekhsoos, uma revista semanal feita por e para a comunidade GLBT</a>. Agora, a Helem trabalha em colaboração com o Ministério do Interior e também com o de Saúde, com quem elaborou o estudo “Homofobia nos serviços clínicos do Líbano”, o primeiro informe sobre como os médicos tratam todo comportamento sexual que não seja hetero.</p>
<div id="attachment_42" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/dsc_8223.jpeg"><img class="size-full wp-image-42 " title="dsc_8223" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/08/dsc_8223.jpeg" alt="" width="600" height="398" /></a><p class="wp-caption-text">  Hiba Abbani, presidenta da Helem, na sede da ONG. (Mónica G. Prieto)</p></div>
<p>Os resultados são desoladores. A mostra inclui 72 médicos – tanto obstetras e ginecologistas como especialistas em Medicina Interna –, em sua maioria homens e casados: 60% deles define a homossexualidade como uma doença que precisa de atenção médica, e 72,9% consideram que requer atenção psicológica. Do total, 27,9% admitem conhecer homossexuais, e destes 63,2% consideram que a homossexualidade é uma opção pessoal. Para 72,1%, que acreditam não conhecer homossexuais, trata-se de uma doença mental ou física. Apenas 6,9% dos consultados receberam formação específica para atender a comunidade GLBT.</p>
<p>Esses dados se referem aos médicos libaneses, profissionais formados na Europa e nos Estados Unidos. É de temer que no resto da região a elite seja um mero reflexo de uma sociedade homofóbica e intolerante com todo comportamento que saia do tradicionalmente aceito. Isso, apesar da tradição homossexual em torno da História árabe, com poetas gays famosos como Abu Nuwas – um dos grandes clássicos árabes, do século VIII – a quem se dedicam avenidas em toda a região, ou o cantor Tuwais. E da dupla moral: a segregação sexual imposta pela interpretação do Islã resulta em demonstrações de afeto entre garotos e garotas que são chocantes para os ocidentais. Os jovens do mesmo sexo costumam andar de mãos dadas e se cumprimentam com beijos nas bochechas, se acariciam e se abraçam, algo completamente aceito.</p>
<p>“O problema não é ter relações homossexuais, e sim manter um relacionamento afetivo homossexual”, explica Abdi, pseudônimo de um muçulmano libanês que convive com seu companheiro em Beirute. Uma vez mais, o que ocorre da porta para dentro fica entre as quatro paredes. Por isso, muitos homossexuais árabes optam por sobreviver integrando-se à hipocrisia local. “Muitas lésbicas se casam com gays para manter as aparências e prosseguir com suas relações fora do alcance dos olhares”, admite Hiba. É o mais fácil: o contrário supõe viver em constante desafio para defender o mero direito de existir.</p>
<p>Já as lésbicas se consideram o estamento discriminado da comunidade GLBT. “Ser lésbica te desacredita inclusive perante outras mulheres. Acumulamos todos os estigmas da mulher, que na sociedade árabe já desempenha um papel secundário”, suspira a presidenta da Helem, que no entanto optou por lutar para mudar as coisas. E, como ela, muitas outras o fazem. A sua é não só a revolução pendente, é também a revolução inabarcável.</p>
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		<title>Amores que burlam o muro</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Aug 2011 11:33:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>jesussanjurjo</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Israel]]></category>
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		<description><![CDATA[
Carmen Rengel · Ramala (Cisjordânia, Palestina) / Tradução de Mariana Marcoantonio

Casais mistos de Jerusalém Oriental e Cisjordânia apostam seus vistos e gastam além da conta para viverem juntos em terra de ninguém
O risco de perder a residência ou as permissões de mobilidade os leva a comprar casas em solo muito caro, perto do muro, sem serviços [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<p style="text-align: right;"><a title="Entradas de Carmen Rengel" href="http://periodismohumano.com/autor/carmenrengel/">Carmen Rengel</a> · Ramala (Cisjordânia, Palestina) / Tradução de Mariana Marcoantonio</p>
<ul>
<li><strong>Casais mistos de Jerusalém Oriental e Cisjordânia apostam seus vistos e gastam além da conta para viverem juntos em terra de ninguém</strong></li>
<li><strong>O risco de perder a residência ou as permissões de mobilidade os leva a comprar casas em solo muito caro, perto do muro, sem serviços nem proteção alguma</strong></li>
<li><strong>Mais de 60 mil árabes de Jerusalém ficaram do outro lado do muro de concreto, pelo traçado de segurança imposto por Israel</strong></li>
</ul>
<div class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a rel="attachment wp-att-62717" href="http://portugues.periodismohumano.com/?attachment_id=62717"><img title="dobleokcol1" src="http://periodismohumano.com/files/2011/08/dobleokcol1-600x440.gif" alt="" width="600" height="440" /></a><p class="wp-caption-text">Tawfik and Samia, in their home close to the Qalandia checkpoint (West Bank)</p></div>
<p>O cerco da Palestina complica até os amores. Um cidadão da Cisjordânia, com absoluta limitação de movimentos, que não pode ir a Gaza e que só excepcionalmente e por tempo muito limitado tem visto para cruzar a Jerusalém Oriental, se vê <strong>quase forçado a encontrar a companheira na sua cidade</strong>, no máximo no vilarejo vizinho. Não há mistura, não há integração: há<strong>endogamia</strong>, e cada dia mais limitadora. Reduzem-se os laços de sangue e de amizade entre as comunidades palestinas históricas. <strong>Reforçam-se os compartimentos estanques</strong>. Resta namorar o vizinho. Não há outra. Isso ou o exílio, ou o drama. Há alguns anos, antes de levantarem 700 quilômetros de <a href="http://web.es.amnesty.org/muro-de-israel/muro.php?opcion=muro">muro </a>para isolar a Cisjordânia do resto de Israel, antes de bloquearem Gaza pelo triunfo eleitoral de Hamás, os casais palestinos de origem mista eram algo normal. As relações comerciais, a universidade, os transportes públicos, os bares ou as praças serviam para o encontro. Agora, são a <strong>exceção</strong>. A separação de um povo que cala até nas novas formas de família e, evidentemente, na sensação de unidade, de aliança e pertença ao grupo. Os palestinos dos Territórios e os da capital de Jerusalém são cada vez mais primos que irmãos.</p>
<p><span id="more-36"></span></p>
<div class="mceTemp">
<dl id="attachment_62718" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px;">
<dt><a rel="attachment wp-att-62718" href="http://portugues.periodismohumano.com/?attachment_id=62718"><img title="El barrio jerosolimitano de Beit Hanina, que ha quedado partido en dos por el muro" src="http://periodismohumano.com/files/2011/08/El-barrio-jerosolimitano-de-Beit-Hanina-que-ha-quedado-partido-en-dos-por-el-muro.gif" alt="" width="300" height="193" /></a></dt>
</dl>
</div>
<p>Mas há quem resista, ainda que entre a cruz e a espada, ainda quando sua aliança de anos atrás não serve para viver em paz onde eles escolherem. Como <strong>Samia</strong> e <strong>Tawfik</strong>. Ela é de Kuber. Ele, de Jerusalém Oriental. <strong>São casados há 27 anos</strong>. Cada um em seu padrão e com direitos tão diferentes. Vivem em Semiramis, um bairro muito próximo ao posto de controle de Qalandia, o mais importante da Cisjordânia.<strong>Estão do lado palestino do muro. No entanto, o solo que habitam é de Jerusalém</strong>. O formato perturbador da cerca de cimento <strong>deixou 60 mil árabes do outro lado, desconectados da cidade,</strong> pagando seus impostos como um cidadão do centro e sem receber nenhum serviço. São <a href="http://periodismohumano.com/sociedad/la-onu-enciende-la-alerta-roja-en-jerusalen-este.html">dados </a>da <a href="http://www.un.org/es/">ONU</a>. Precisaram buscar esse canto empobrecido, esquecido por todos, onde a ANP – Autoridade Nacional Palestina – não tem poder para intervir, para que não os separem: <strong>Tawfik tem o status de residente em Jerusalém e, se não declara que tem uma casa e alguns gastos na cidade, perde sua identificação e os direitos que ela implica</strong>(saúde, educação e vistos de viagem, essencialmente). <strong>Samia, por ser cisjordaniana, não consegue permissão para viver em Jerusalém Oriental, porque as reagrupações familiares são a exceção entre as exceções</strong>. Então também não pode cruzar para viver do outro lado. Ainda que <strong>tecnicamente resida em Jerusalém, fisicamente está em um subúrbio de Ramala, entre os muros</strong>. Uma zona de ninguém onde todos cumprem as exigências delirantes, um bairro onde residem, segundo as Nações Unidas, cerca de <strong>15 mil pessoas</strong>, em sua maioria <strong>famílias mistas </strong>que só querem se amar e viver na mesma casa.</p>
<p>O problema é <strong>ter uma casa do nível de Jerusalém com o salário de um cisjordaniano</strong>. É preciso pagar <strong>água, luz, telefone e impostos municipais</strong> (como o temido <em>arnona</em>, o imposto da casa, altíssimo em Israel). O problema, explica Samia, é que <strong>às vezes não há nem água, nem luz, nem telefone, nem serviços </strong>municipais. <strong>Nem autoridade à qual reclamar</strong>, porque nenhum funcionário ousa cruzar Qalandia para atender os vizinhos. Como Tawfik não pode viver em outro lugar que não seja reconhecido como “Jerusalém”, é preciso pagar esse preço e “o que os construtores pedirem”. Uma casa de 180 metros quadrados com três quartos grandes em uma zona normal de Ramala custa <strong>150 dólares por mês</strong>. Por uma casa com metade do tamanho, esse casal <strong>está pagando 600 dólares, mais um mínimo mensal de 120 </strong><strong>em impostos</strong>. “Um disparate”, o preço de cumprir com a burocracia. E olha que são afortunados, porque os dois trabalham e estão em uma “condição suportável”: ela é diretora de administração e finanças da <a href="http://www.pal-paca.org/english.html">PACA </a>(The Palestinian Association for Contemporary Arts) e ele, chefe de departamento na Universidade de <a href="http://www.birzeit.edu/">Birzeit</a>.</p>
<div class="mceTemp">
<dl id="attachment_62721" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px;">
<dt><a rel="attachment wp-att-62721" href="http://portugues.periodismohumano.com/?attachment_id=62721"><img title="Un niño juega en la esquina en el barrio de Semiramis, donde se construyen nuevas viviendas para familias mixtas" src="http://periodismohumano.com/files/2011/08/Un-niño-juega-en-la-esquina-en-el-barrio-de-Semiramis-donde-se-construyen-nuevas-viviendas-para-familias-mixtas.gif" alt="" width="300" height="223" /></a></dt>
</dl>
</div>
<p>Por isso, suportam o <strong>cemitério de carros abandonados</strong> na esquina, sem controle, em que o menor perigo é se espetar com um ferro ao passar; a <strong>falta de luz</strong> na rua (ao cair do sol, é a boca do lobo); os<strong>contêineres de lixo transbordantes</strong>; os <strong>encanamentos que se quebram</strong>. Agora mesmo a rua está destruída. Está assim há cinco dias. Alguns operários foram asfaltá-la. Até agora, era tudo terra e pedras. <strong>Os vizinhos duvidam que o trabalho termine: a ANP não tem competências para se encarregar da obra e dos custos, e portanto a iniciativa, um acesso de raiva da vizinhança, pode não dar em nada </strong>se as permissões e o dinheiro não chegarem. Essas condições são as que fazem que alguns vizinhos em melhor situação econômica <strong>decidam buscar uma casa em outro lugar da Cisjordânia ao mesmo tempo em que alugam uma moradia neste canto de ninguém, uma casa que visitam uma vez por semana para justificar o gasto de luz e água e assim apresentar os recibos à Prefeitura de Jerusalém</strong>. Não serve uma casa pequena e ponto, não. Precisa ter o tamanho que deveria ter para as pessoas que supostamente vivem ali, porque Israel <strong>revisa</strong> os mapas e, algumas vezes, faz até fotografias aéreas das casas. Outros recorrem ao truque de <strong>ter como endereço oficial a casa de um parente em Jerusalém Oriental</strong> (em Beit Hanina, em Anata, em Sheikh Jarrah…), enquanto vive do outro lado da barreira de concreto, ferro e espinho, na casa da pessoa amada, perto da família escolhida. Técnicas de<strong>sobrevivência</strong>.</p>
<div class="mceTemp">
<dl id="attachment_62719" class="wp-caption alignright" style="width: 310px;">
<dt><a rel="attachment wp-att-62719" href="http://portugues.periodismohumano.com/?attachment_id=62719"><img class=" " title="El muro de Cisjordania, a pocos metros de la casa de Samia y Tawfik" src="http://periodismohumano.com/files/2011/08/El-muro-de-Cisjordania-a-pocos-metros-de-la-casa-de-Samia-y-Tawfik.gif" alt="" width="300" height="225" /></a></dt>
<dd>
</dd>
</dl>
</div>
<p>Não é só uma questão de residência. É a pura rotina alterada. <strong>Uma família dividida</strong>. Samia e Tawfik têm <strong>duas filhas</strong>, Miral e Tamara, de 24 e 22 anos. Uma estuda nos Emirados Árabes. A outra acabou de se formar em Ramala. A mais velha nasceu apenas um mês depois de sua mãe receber a residência, então as autoridades <strong>se negaram a registrá-la</strong> como “palestina” porque Samia “era palestina há muito pouco tempo”. <strong>Levou dois anos para tirar a pequena do limbo</strong>administrativo em que se encontrava. Miral nasceu em Ramala, e por isso não pode ir a Jerusalém, a cidade do pai, embora viva em seu solo. Sua irmã, Tamara, nasceu em Jerusalém, porque o ginecologista de Samia estava viajando e recomendou que ela consultasse uma colega na capital. Eram tempos em que ainda era simples cruzar a fronteira. A menina foi registrada em Jerusalém, como seu pai. <strong>Dois e dois; dois com certa liberdade de movimentos, dois com permissões contadas</strong>. Estão dispostos a pagar por seu canto, por essa casa da qual não gostam, para que elas não sofram: estão em pleno processo de universidade e pós-graduação e suas possibilidades de estudar fora ou de conseguir uma bolsa podem ser menores pelas permissões ou vistos de viagem, que às vezes são dados por um ano, ou por três, ou diretamente negadas. “Uma não pode ir à Jerusalém, e a outra, se não viver lá, perde a residência&#8230; <strong>Bom, se não deixam minha filha sair para estudar por ficar sem residência, eu me mato, me mato</strong>&#8230; Como não vamos fazer esse esforço? No caso do meu marido e da minha filha mais nova, sempre fica o medo de que lhes aconteça alguma coisa no controle, porque cada dia é imprevisível. <strong>Podem te tirar a permissão de residência sem explicações</strong>. Você vai passar pelo posto de controle e de repente <strong>um soldado jovem pega uma tesoura, corta seu documento de residente e te diz: ‘Você não mora mais em Jerusalém’. Sem mais</strong>. Esse risco é constante”, lamenta a mulher. <strong>Catorze mil palestinos perderam essa permissão desde a Guerra dos Seis Dias</strong>, segundo a ONU, um dado que um relatório interno das IDF israelitas eleva a <strong>140 mil no período de 1967-1994</strong>, conforme foi revelado no último dia 11 de maio pelo jornal <em><a href="http://www.haaretz.com/">Haaretz</a>.</em></p>
<p><a rel="attachment wp-att-62720" href="http://portugues.periodismohumano.com/?attachment_id=62720"><img class="alignleft" title="Samia, en su casa de Jerusalén, durante la entrevista" src="http://periodismohumano.com/files/2011/08/Samia-en-su-casa-de-Jerusalén-durante-la-entrevista.gif" alt="" width="300" height="225" /></a></p>
<p>Às vezes não é fácil se manter firme. Às vezes os princípios fraquejam. O casal confessa que, em <strong>certas ocasiões, ficam tentados a ir viver onde quiserem em Ramala, renunciando à residência</strong><strong>jerosolimitana de Tawfik e Tamara</strong>, evitando o gasto que têm agora, o nervoso, as complicações. Mas depois pensam que é <strong>direito</strong>deles e que não vão renunciar. Além do mais, insistem, isso não pode supor a <strong>cessão </strong>implícita de Jerusalém Oriental, o território que a ANP reclama como futura capital do Estado Palestino. Não ter a residência em Jerusalém supõe ficar como um apátrida, porque não é simples conseguir os papéis de permanência do outro lado, na Cisjordânia.<strong>“Você deixa de existir legalmente, não pode nem renovar a licença do seu carro, e a ANP ainda não tem entidade para poder nos ajudar com isso</strong>. Assim, eles vão passando os dias, confiando na sorte e nas permissões temporárias, como a que Samia tem agora mesmo, por alguns meses. Sabem como seriam duras as consequências se decidissem violar a chamada “<strong>lei de infiltração</strong>”, que vigia quem vive onde. Após o bloqueio imposto a Gaza há quatro anos, um cidadão da Faixa que viver fora dela pode chegar a pagar até <strong>7 mil dólares de sanção</strong>, salvo em casos de reagrupação familiar, que são contados. O tempo médio de espera para sua concessão é de cinco anos, segundo denunciam ONGs como a <a href="http://www.btselem.org/">B´Tselem</a>. Há caso de mães que, porque foram visitar algum parente ou levar algum recado, acabaram ficando <strong>presas </strong>em Gaza, e não voltaram a ver seus familiares na Cisjordânia ou em Jerusalém. Isso é o que consola Samia e Tawfik, que eles<strong>podem ficar juntos</strong>. À base de <strong>desgaste, impotência e dinheiro, mas juntos</strong>. Porque há amores que burlam até os muros.</p>
</div>
]]></content:encoded>
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		<title>Operadores de telemarketing: precariedade doentia</title>
		<link>http://portugues.periodismohumano.com/2011/07/31/operadores-de-telemarketing-precariedade-doentia-2/</link>
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		<pubDate>Sun, 31 Jul 2011 22:20:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Miriam Márquez</dc:creator>
				<category><![CDATA[General]]></category>
		<category><![CDATA[movistar]]></category>
		<category><![CDATA[precariedade]]></category>
		<category><![CDATA[Telefonica]]></category>
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		<description><![CDATA[Tradução de Mariana Marcoantonio
“Neste setor, não é estranho agora que você vá embora um dia de manhã da agência onde trabalha e que no dia seguinte te digam que o serviço será prestado por outra empresa, que sai ainda mais barata para a companhia contratante. Ainda que na teoria seja obrigatório reabsorver grande parte dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><a title="Entradas de Miriam Márquez" href="http://consumeymuere.periodismohumano.com/autor/miriammrquez/"></a>Tradução de Mariana Marcoantonio</p>
<div id="attachment_5" class="wp-caption aligncenter" style="width: 610px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/07/manifa.jpeg"><img class="size-full wp-image-5" title="manifa" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/07/manifa.jpeg" alt="" width="600" height="400" /></a><p class="wp-caption-text">Operadores de telemarketing da Telefónica fazem manifestação na Argentina. (Foto: Olmovich)</p></div>
<p>“Neste setor, não é estranho agora que você <strong>vá embora um dia de manhã da agência onde trabalha e que no dia seguinte te digam que o serviço será prestado por outra empresa, que sai ainda mais barata para a companhia contratante. Ainda que na teoria seja obrigatório reabsorver grande parte dos funcionários, na prática, em algumas vezes você fica e em outras, não”</strong>, me conta uma operadora de telemarketing de 48 anos, mãe de dois filhos. “Há anos, parece que temos que agradecer à Movistar por manter parte de seus serviços na Espanha em vez de realocar todos na Argentina, por exemplo. Lá, a situação é muito pior. Tem gente que ganha um salário bem abaixo dos 400 euros. <strong>Eu, há anos, tenho um horário estável e uma jornada de oito horas, mas a tendência agora é ter gente mais jovem trabalhando durante poucas horas por dia. </strong>Deve ser mais fácil contentá-los”.<span id="more-28"></span></p>
<div id="attachment_6" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/07/ordenadorbuena.jpeg"><img class="size-medium wp-image-6" title="DEU Call Center" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/07/ordenadorbuena-300x200.jpg" alt="" width="300" height="200" /></a><p class="wp-caption-text">(AP)</p></div>
<p>“<strong>O convênio dos operadores de telemarketing está organizado de forma patronal. Na prática, perpetua a precariedade porque, por exemplo, não se reconhece o direito de sub-rogação</strong>, o que quer dizer que, quando a companhia troca de prestadora de serviços, as trabalhadoras – já que 90% são mulheres – podem perder o emprego. Ou, então, terão que começar do zero e <strong>ficarão sem a antiguidade e todos os direitos adquiridos</strong>”, explica Igor Eizaguirre, do sindicato basco <a href="http://consumeymuere.periodismohumano.com/2011/07/17/teleoperadores-precariedad-enfermiza/www.ela-sindikatua.org">Ela</a>, um dos mais ativos na luta pelos direitos dos operadores de telemarketing. “Precisamente neste momento, estamos trabalhando para melhorar o convênio dos trabalhadores da Euskaltely. Vemos que muitas mulheres se cansaram e estão se arriscando. É preciso ter em conta que se trata de um ato valente, porque na próxima troca de prestadora de serviços de telemarketing <strong>poderão se livrar das que protestarem sem a menor dificuldade</strong>”, explica.</p>
<p>Doses tóxicas de incerteza. Correntes infinitas de contratos enlaçados, usados e jogados fora. Desejos de começar uma campanha estável para poder ter alguns meses de tranquilidade. É o dia-a-dia descrito por muitos operadores de telemarketing que confessam que se acostumam tanto ao estresse de não saber o que será de suas vidas a ponto de considerarem essa uma forma normal de existir. “Acho que chega um momento que o mais difícil já não é sua própria situação, mas <strong>sentir que está contribuindo com práticas que você detesta</strong>. Os coordenadores nos <strong>incitam a dar os preços sem considerar os impostos ou omitir informações que o cliente necessita para tomar uma decisão</strong>. Às vezes você tem que dizer que um serviço é grátis quando não é ou não mencionar o preço da instalação. Todos os dias, sinto que tenho que procurar outra coisa, mas não é simples quando você depende do salário”, explica uma operadora de telemarketing madrilena que trabalha atualmente para a Vodafone, mas que já trabalhou antes para a Movistar<em> </em>e duas empresas de venda de seguros. “<strong>Às vezes, você tem que cortar o cliente para salvar seu posto de trabalho, porque está se entretendo muito com a conversa e sabe que isso é muito mal visto no <em>call center</em>. Para os clientes que têm saldo baixo, colocamos uma música para não se estenderem muito. </strong>Se por falta de formação não sabemos a resposta para o que nos pedem, em vez de pesquisar, tratamos de confundi-los para que desliguem e não nos comprometam. A ordem que a agência nos dá não é de oferecer um bom serviço, mas de cumprir as metas exigidas e ser escrupuloso com as normas”, detalha.<strong> </strong></p>
<div id="attachment_4" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/07/2994723741_556a0431151.jpeg"><img class="size-medium wp-image-4" title="2994723741_556a0431151" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/07/2994723741_556a0431151-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">(Foto: Vlima)</p></div>
<p>Do Peru, Sabina (nome falso) me conta algumas experiências que foi reunindo durante mais de dez anos como operadora de telemarketing. “Na Atento, filial da Movistar, nos faziam trabalhar em <strong>lugares que nem sequer haviam terminado de arrumar </strong>e estavam cheios de pó, de entulho. Alguns companheiros me contaram que trabalhavam em um quinto andar durante as <strong>réplicas do terremoto de 2007 e viam fendas nas paredes</strong>. Tinham medo. Quanto a nossa vida diária, o salário é de miséria, mesmo que você trabalhe nos fins de semana e feriados. A atitude é totalmente prepotente. Agem como se estivessem fazendo o favor de te pagar”.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>“Confiscaram até os filhos de Khadija”</title>
		<link>http://portugues.periodismohumano.com/2011/07/31/%e2%80%9cconfiscaram-ate-os-filhos-de-khadija%e2%80%9d/</link>
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		<pubDate>Sun, 31 Jul 2011 21:58:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>periodismohumano</dc:creator>
				<category><![CDATA[General]]></category>
		<category><![CDATA[Espanha]]></category>
		<category><![CDATA[Melilla]]></category>

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		<description><![CDATA[Opinão
Por José Palazón, Presidente da ONG Pró direitos da Infância (PRODEIN). Tradução: Victor Farinelli

Talvez tenhamos em Melilla mais de 10 mil mulheres que cruzam a fronteira diariamente para trabalhar no serviço doméstico, são trabalhadoras das fronteiras, que dispõem de licença especial para exercer esse trabalho, devendo abandonar a cidade ao anoitecer. Seu estatus, por outro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong>Opinão</strong></p>
<p style="text-align: right;"><strong>Por José Palazón, Presidente da ONG <a href="http://melillafronterasur.blogspot.com/">Pró direitos da Infância</a> (PRODEIN). Tradução: Victor Farinelli</strong></p>
<p style="text-align: left;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="539" height="337" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://blip.tv/play/hplngsn%2BPgI" /><param name="wmode" value="transparent" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="539" height="337" src="http://blip.tv/play/hplngsn%2BPgI" allowfullscreen="true" wmode="transparent"></embed></object></p>
<p style="text-align: left;">Talvez tenhamos em Melilla mais de 10 mil mulheres que cruzam a fronteira diariamente para trabalhar no serviço doméstico, são trabalhadoras das fronteiras, que dispõem de licença especial para exercer esse trabalho, devendo abandonar a cidade ao anoitecer. Seu estatus, por outro lado, é melhor que das outras 10 mil que também cruzam a fronteira todos os dias, para passar contrabando ou exercer outras atividades sem nenhuma regulação. Negócio puro!! São as escravas do mundo moderno!! O particular da nossa Khadija é que ela reside legalmente na Espanha, que duas de suas filhas têm nacionalidade marroquina enquanto os dois menores possuem nacionalidade espanhola e que há dois meses ela passa os dias e as noites em frente ao prédio da Prefeitura de Melilla, sem se calar, sem se submeter a ninguém, e sem medo.</p>
<p>Khadija sempre foi o que se esperava dela: limpa, pontual, calada, submissa, obediente, agradecida e discreta. Consciente de que qualquer outra coisa seria pior. Viu crescer suas duas meninas, nascidas em Melilla e obrigatoriamente indocumentadas, sem que pudessem ir ao colégio porque não tinham visto, algo “normal” nessa cidade. Sofreu maus tratos dos seus dois maridos durante anos, sem denunciá-los, porque ao menos, de vez em quando, traziam algum de dinheiro para sustento da família. Que outra coisa poderia fazer com quatro filhos e sua mãe doente de Parkinson, a quem também precisa atender?</p>
<p><span id="more-31"></span>Meses atrás, seu segundo marido, o espanhol com quem está casada em Marrocos mas não na Espanha, se casou com outra mulher e os abandonou… Luzes e sombras! … Já não haveria mais agressões, porém, como iria manter sua família?… Pouco depois chegou o inevitável: com seu salário de 500 euros, não pode arcar com o aluguel do apartamento onde vivia, e um dia se encontraram na rua, por decisão judicial… Na rua!!… doze anos trabalhando, criando seus filhos, aguentando a esses homens… e agora isto!</p>
<p>Sem saber o que havia feito mal, Khadija reuniu sua família e se dirigiu, com as malas que lhes restavam, ao Conselho de Bem Estar Social, pensando que lhes buscariam um lugar para passar a noite. Khadija não se importava em dormir na rua, mas as crianças têm somente quatro e sete anos….. Ela não sabia que no Conselho eles conheciam o seu currículo…. É a ficha de muitas mulheres que transpiram e se sacrificam para limpar até a merda que deixamos nos casarões, e não fogem da luta, além de arcar com os filhos que nós abandonamos, e sempre limpas, caladas, submissas, obedientes, agradecidas e discretas…. Era exatamente o tipo de currículo no qual se coloca a carapuça de pessoa “pícara”, ou seja: malandra, que não trabalha, que vive de esquemas, que engana para cometer fraudes e tirar proveito sem merecer…. Evidentemente, nossa Khadija, como tantas outras Khadijas, é vítima desse carapuça tão secular e interessadamente estabelecida. Carapuça que parece reger a atuação das administrações que decidem os destinos das Khadijas: majoritariamente honradas, majoritariamente submissas, majoritariamente maltratadas por seus maridos e pela administração. Majoritariamente condenadas à solitária responsabilidade sustentar a sua prole.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="539" height="337" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="src" value="http://blip.tv/play/hplngsqAGQI" /><param name="wmode" value="transparent" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="539" height="337" src="http://blip.tv/play/hplngsqAGQI" allowfullscreen="true" wmode="transparent"></embed></object></p>
<p>O Conselho ”recebeu o seu caso”, iniciaram um “período de estudos” e abriram “um expediente” para “considerar as medidas” que se poderiam tomar “como consequência da sua situação” e seu “perfil”…. Diante da urgência do caso, e como medida cautelar para evitar maiores problemas, recomendaram a ela  “que fosse viver em Marrocos” o que Khadija se negou a aceitar, porque os dois pequenos não haviam terminado o curso, porque em Marrocos eles não teriam para onde ir, e tampouco têm porquê ir. Diversas vezes insistiram na advertência que se costuma fazer a pessoas com o seu “perfil”, segundo o protocolo: teremos que lhe tirar a custódia dos seus filhos.</p>
<p>Isso se traduziu numa semana de abandono absoluto, de rua pura e dura sobrevivendo da caridade, cumprindo com seu trabalho apesar de tudo, levando as crianças no colégio… As crianças! Khadija lhes dizia que estavam de camping e nos primeiros dias elas acreditaram e estavam felizes. Dois meses depois, disse desconsolada que estavam na rua, porque são pobres.</p>
<div id="attachment_32" class="wp-caption aligncenter" style="width: 570px"><a href="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/07/jc-khadilla4.jpg"><img class="size-full wp-image-32" title="jc-khadilla4" src="http://portugues.periodismohumano.com/files/2011/07/jc-khadilla4.jpg" alt="" width="560" height="361" /></a><p class="wp-caption-text">Khadija e sua filha Dunia dormindo na Plaza de España, em Melilla. (José Palazón)</p></div>
<p>Durante essa semana, Khadija refletiu e decidiu lutar por seus filhos, esquecendo a submissão, a obediência, o agradecimento, o medo que supunha que deveria ter. Levando um pequeno cartaz e algumas folhas para recolher assinaturas a favor de sua causa, começou a visitar os meios de comunicação locais. Em poucos dias, conseguiu que o Conselho de Bem Estar Social enviasse a ela e sua família a uma pensão durante uma semana.</p>
<p>Cumprido o prazo de uma semana, foram devolvido à rua… Outra vez na rua!… Durante os dias seguintes, o Conselho de Bem Estar Social, num ato de infinito cinismo, declarou publicamente que a mulher e sua família estavam sendo devidamente atendidas. Simultaneamente, Khadija era desalojada, junto com seus filhos, da calçada em frente à Prefeitura, onde recolhiam assinaturas, poucas horas antes, havia sofrido também com a investida de policiais, que tentaram prendê-la por abandono de menores, e levar seus filho ao Juizado de Menores. A ação policial foi frustrada pela intervenção de várias associações que estavam presentes no lugar, naquele momento.</p>
<p>Pelo dias posteriores, a voz de Khadija se tornou um grito multitudinário, apoiado por associações e partidos políticos locais. A conselheira do Bem Estar Social, tentando lavar sua imagem, depositou em sua conta corrente a quantia de 1,6 mil euros que corresponderiam a um mês de aluguel, fiança e gastos domésticos suficientes para arcar com uma suposta casa na Rua África, em Melilla. Quando Khadija foi até realizar os trâmites para formalizar o contrato, lhe informaram que a tal moradia já estava alugada para outras pessoas e que há tempos já se havia comunicado o Conselho de Bem Estar Social que aquela casa não era para eles. Dias depois, a conselheira, em nova tentativa de desprestigiar a “mendiga briguenta”, comunicava, através dos meios de comunicação, que Khadija havia rejeitado a casa da Rua África, que lhe haviam deixado a disposição, dando a entender que lhe parecia pouco e queria exigir demais. Terminou dizendo que já não sabia como ajudá-la: tudo mentira!!!</p>
<p>E os 1, 6 mil euros? Essa quantia é somente a ajuda mínima concedida normalmente pela Cidade Autônoma aos desalojados, para que encontrem uma nova moradia. O valor é ridículo se consideramos o valor médio dos aluguéis e a situação atual do mercado de trabalho. Para se ter uma idéia: com uma entrada de 500 é impossível convencer um proprietário disposto a alugar uma casa. A mesma situação que vivem outras famílias despejadas que, no melhor dos casos, puderam recorrer ao auxílio-família, quando não se calam por medo ou por vergonha. A ajuda de 1, 6 mil euros aos desalojados de Melilla é inútil, inaceitável para os afetados, somente um desperdício mais da administração local. E daí? É dinheiro público!! Dinheiro que se emprega para desprestigiar a luta de uma valente mãe, que perdeu o medo e não vai deixar de lutar e trabalhar para dar o melhor que pode aos seus filhos.</p>
<p>Khadija está cumprindo perfeitamente com o seu trabalho. É a conselheira do Bem Estar Social quem mantém no mais absoluto abandono a todos os membros da família, abandonando também, e de forma absoluta, o que deveriam ser suas obrigações: primeiro, disponiblizar os meios para evitar a situação de risco que esta família estava sofrendo há um ano, quando Khadija passou a sustentar os filhos sem a ajuda do marido fugitivo, e depois, fazer de tudo para evitar situações extremas, como as que estão vivendo há dois meses, nas ruas da cidade.      Mas o pior dos episódios dessa trama aconteceu na semana passada. Vários policiais, que não se identificaram como tais, levaram os dois filhos de nacionalidade espanhola, e os colocaram num centro de menores, como conta o vídeo do começo do texto. Não quiseram saber de nada com a menina de nacionalidade marroquina, também menor de idade. Não comunicaram nada a ela, que foi desesperada até o Conselho perguntar onde estava os seus filhos.      Se esta ação do Conselho de Bem Estar Social tivesse acontecido em qualquer outro país da chamada “Europa civilizada” o responsável por ela não teria durado 24 horas no cargo, mas em Melilla, a responsável por isso acaba de ser reeleita como conselheira para os próximos quatro anos. Não por acaso, nessa cidade, é frequente ver os que ostentam a representação política agindo como se sentissem possuir um poder quase divino, o qual exercem de forma intransigente e absoluta, mal disfarçando o desprezo pela lei, a moral e qualquer outra circunstância que não seja a dos seus próprios interesses, a manutenção de um certo grau de apartheid, ou os negócios dos grupos de pressão transfronteiriços.</p>
<p>Fomos visitar a lutadora Khadija após um aviso de que seu estado havia piorado muito após a perda dos filhos. Chegamos por volta das 22h, e logo tivemos que chamar uma ambulância, porque estava num estado quase vegetativo, não conseguia falar e menor movimento lhe produzia dores por todo o corpo. Puseram uma pastilha sob sua língua, injetaram um calmante e diagnosticaram uma forte depressão por intenso estado de ansiedade. O médico disse-nos que contra isso não há pastilha que dê jeito, e que ela terá de sair por si só do fundo poço onde onde se encontra.      Com impunidade infinita!</p>
<p>A PRODEIN lançou recentemente uma campanha de recolhimento de assinaturas no sítio Actuable.es para que Khadija recupere os seus filhos e também que o Conselho de Bem Estar Social ponha à sua disposição os meios necessários para não estar em permanente situação de risco de exclusão social, como determina a legislação espanhola.      Nota do tradutor:      Melilla é uma pequena cidade autônoma espanhola no norte da África, dentro do território marroquino, tendo com o Marrocos sua única fronteira terrestre, e conectando-se, também, com as cidades espanholas de Málaga e Almería através de um serviço de balsas. Sua população de pouco menos de 100 mil habitantes é dividida basicamente entre espanhóis e marroquinos imigrantes.</p>
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