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Por Patricia Simón

Tradução Luísa Ferreira

  • Passaram-se quase 15 anos desde que Rigoberta Menchú apresentou uma queixa contra o ditador Efraín Ríos Montt junto à Audiência Nacional da Espanha por tortura, terrorismo e genocídio.
  • Máxima García esperou 20 anos para contar ao marido que havia sido violada por cerca de 20 soldados durante a repressão às comunidades indígenas.
  • Pouco depois, Máxima pediu diante da nossa câmera que houvesse “julgamento para Ríos Montt, queremos seguir lutando”. Nunca pensou que tal julgamento aconteceria na Guatemala e menos ainda que Montt seria condenado a 80 anos de prisão por genocídio e crimes contra a humanidade.

Ríos Montt durante o julgamento (Moises Castillo / AP Photo)

Com a voz firme, mas carregada de emoção, a juíza Jazmín Barrios verbalizou o que até uns dois anos atrás os sobreviventes das aldeias mais massacradas durante os 30 anos de guerra civil (1960-1996) só podiam recordar na intimidade dos seus lares. Eles ainda viviam com o terror assolando sua vida cotidiana, tendo que encontrar-se com os assassinos e violadores das suas mulheres, pais e filhos, sem poder sequer manter a esperança de que alguma vez a justiça se fizesse presente nas aldeias e montanhas de um Estado falido em muitas regiões.

Homens discriminados por serem índios, pobres e no caso delas, além de tudo, por serem mulheres. Ainda assim, já faz 15 anos que muitos deles começaram a tecer redes para fazer justiça, com Rigoberta Menchú como seu rosto mais visível. Em 1999, sua Fundação apresentou diante da Audiência Nacional da Espanha uma queixa por tortura, terrorismo e genocídio contra o ditador Efraín Ríos Montt, no poder entre 1982 e 1983, e outros altos oficiais guatemaltecos. Amparando-se no agora mutilado princípio de jurisdição universal e seguindo o procedimento usado no caso do ditador chileno Augusto Pinochet, milhares de vítimas do genocídio guatemalteco depositaram na justiça espanhola a esperança de vencer a paralisante impunidade reinante na Guatemala.

Máxima García, sobrevivente do genocídio guatemalteco (Javier Bauluz / Piraván)

Uma década depois, em 2008, no meio das verdes montanhas de uma das regiões mais arrasadas pelo genocídio contra os índios, Máxima García nos recebia, terna em sua acolhida, decidida em sua necessidade de contar os crimes cometidos contra ela, seu corpo e sua família, inteira na sua generosidade de dar o testemunho que sua mãe nunca poderá compartilhar, despedaçada para sempre desde aquela tarde em que, quando ia a levar comida ao seu sogro, foi retida e violada por soldados que faziam fila para revezar-se no cometimento do crime. Quando finalmente deixaram-na jogada no monte, ela se vestiu, voltou para casa e não contou nada a seu marido até 20 anos depois. Não lhe explicou por que seu bebê tinha nascido com o pescoço torto nem por que tinha morrido com poucos dias. Nem que tinha sido violada pelos soldados como também tinha sido sua mãe, antes de ser assassinada e de que a encontrassem pendurada por cordas no teto enquanto a casa pegava fogo. Não tinha dito nada a seu marido durante 20 anos, mas apenas dois anos depois, em 2008, estava nos contando tudo em voz alta, olhando diretamente para a câmera, sem interromper seu discurso ainda que, às vezes, uma lágrima começasse a se formar e engrossar lentamente na sua pálpebra para depois deslizar pela bochecha.

Há 20 anos, Máxima luta para dar um futuro aos seus filhos, convertendo essa “dor que nunca acaba” em resiliência para desembocar em um “Espero que Ríos Montt seja julgado, espero que sigamos em frente. Se temos apoio, queremos apoio, queremos lutar para continuar atrás dele, de onde está escondido…”. Leer más