Jornalismo Humano – As melhores reportagens de periodismohumano.com

Carmen Rengel · Ramala (Cisjordânia, Palestina) / Tradução de Mariana Marcoantonio

  • Casais mistos de Jerusalém Oriental e Cisjordânia apostam seus vistos e gastam além da conta para viverem juntos em terra de ninguém
  • O risco de perder a residência ou as permissões de mobilidade os leva a comprar casas em solo muito caro, perto do muro, sem serviços nem proteção alguma
  • Mais de 60 mil árabes de Jerusalém ficaram do outro lado do muro de concreto, pelo traçado de segurança imposto por Israel

Tawfik and Samia, in their home close to the Qalandia checkpoint (West Bank)

O cerco da Palestina complica até os amores. Um cidadão da Cisjordânia, com absoluta limitação de movimentos, que não pode ir a Gaza e que só excepcionalmente e por tempo muito limitado tem visto para cruzar a Jerusalém Oriental, se vê quase forçado a encontrar a companheira na sua cidade, no máximo no vilarejo vizinho. Não há mistura, não há integração: háendogamia, e cada dia mais limitadora. Reduzem-se os laços de sangue e de amizade entre as comunidades palestinas históricas. Reforçam-se os compartimentos estanques. Resta namorar o vizinho. Não há outra. Isso ou o exílio, ou o drama. Há alguns anos, antes de levantarem 700 quilômetros de muro para isolar a Cisjordânia do resto de Israel, antes de bloquearem Gaza pelo triunfo eleitoral de Hamás, os casais palestinos de origem mista eram algo normal. As relações comerciais, a universidade, os transportes públicos, os bares ou as praças serviam para o encontro. Agora, são a exceção. A separação de um povo que cala até nas novas formas de família e, evidentemente, na sensação de unidade, de aliança e pertença ao grupo. Os palestinos dos Territórios e os da capital de Jerusalém são cada vez mais primos que irmãos.

Leer más


Carmen Rengel · Jerusalém / Tradução de Mariana Marcoantonio
  • Um relatório da ONU revela a exploração de cerca de mil mulheres: pobreza, patriarcado e violência levam-nas à prostituição
  • A maioria é vendida pelos próprios familiares, os primeiros abusadores. Quase a metade já estava casada aos 14 anos e 60% foi estuprada na primeira vez
  • A falta de legislação nos Territórios Palestinos leva a uma total impunidade dos cafetões e das máfia

Randa, prostituta durante 21 anos, posa oculta por um kiqab emprestado. Agora trabalha em uma loja.

Dizem os evangelhos que Jesus curou Maria, a pecadora, de sete demônios que a atormentavam. Foi lá em Magdala, uma vila ao pé do lago Tiberíades, há mais de dois mil anos. A uma longa hora do povoado de Madalena (que agora, segundo os mapas, se chama Migdal e é território de Israel), hoje vive Randa, 38 anos, dois filhos, palestina, muçulmana, prostituta. Nela ainda vivem seus sete demônios: pobreza, analfabetismo, violência doméstica, abusos sexuais, tráfico de pessoas, repúdio familiar, doenças venéreas… para citar sete. O que conta dá a entender que é rodeada por vários outros demônios. Seu caso é um dos que serviram de base para a UN Women (a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres), cujos especialistas redigiram o primeiro relatório sobre prostituição e aids nos Territórios Palestinos e Jerusalém Oriental, com cerca de 250 testemunhos de trabalhadoras do sexo, cafetões, clientes e agentes de saúde. É a radiografia de um desastre duplo: o da exploração feminina, oculta sob patriarcados, dominação e fome, e o da doença, desconhecida, silenciada, ignorada por opressores que põem seu prazer acima da segurança e da dignidade da mulher.

Leer más